25.7.13

retrato do governo.



Há muitos anos li na revista semanal "Opção" (quem se lembra?) um conto, do qual ainda me lembro do acontecimento-chave. Apenas isto: um homem em cadeira de rodas está junto a um declive acentuado e pede insistentemente à pessoa que empurra a cadeira que o aproxime mais da beira, desprotegida, "para ver a vista", apesar da cautelosa resistência do cuidador. Chegado, afinal, junto da beira, impulsiona bruscamente as rodas para se lançar no precipício, ao mesmo tempo que, caindo, vai gritando como se em desespero, bem alto para ser ouvido pelos circunstantes: "tem pena de mim, não me empurres, não me mates".

Esta é a cena preferido do governo que temos.

24.7.13

parabéns, Paulo Portas !

09:32


O CDS pode revelar-se, a prazo, o grande vencedor da recente crise política. Mantenho que isso, a acontecer, terá custado o resto da honra pessoal de Paulo Portas, mas em política dura esse assunto pode ser irrelevante. Vou tentar explicar-me.

Se o governo tiver algum engenho para isso, a crise política recente pode ser usada junto da troika para explicar que algumas mudanças de rumo são indispensáveis para evitar o fracasso completo do programa de "ajustamento". Ou seja, o governo pode explicar aos políticos da UE e do FMI que já nada é seguro neste país (nem o Presidente da República) e que, para evitar novas crises, a única solução é mostrar algumas mudanças que possam ser apresentadas como motivo para nova esperança e aguentem o eleitorado. A Alemanha, depois das eleições de Setembro, estará provavelmente mais à vontade para algumas novidades e os políticos de direita que mandam em quase tudo o que conta nas instituições europeias tenderão a fazer alguma coisa para evitar que os vejamos como incapazes de nos dar mais do que nova dose de um Barroso sempre sempre à procura de emprego. Vão mudar o essencial? Não, não vão, mas podem dar alguns rebuçados que criem a ideia, até às eleições, de que o pior já passou (mesmo que isso seja falso).
Cá dentro, o CDS pode apresentar a sua versão da história: foi a profunda renovação da coligação e a remodelação do governo que garantiram a mudança para melhor. Se Portas não tivesse batido o pé, teria continuado tudo na mesma. Se, contra toda a lógica, a troika achar que não há problema em deixar a direita perder as eleições, o CDS poderá não ganhar muito, mas também perdeu pouco: os restos da aparência de confiabilidade do dr. Portas.

Entretanto, se problemas podem vir dos novos ministros, esses problemas tenderão a cair para o lado do PSD.
Pires de Lima, que, goste-se ou não dele, conhece alguma coisa da vida real, não é um radical e tenderá a mostrar algumas melhorias relativamente ao desempenho do seu antecessor, um brilharete para que Álvaro contribuiu muito.
Já Rui Machete, embora relativamente escondido nos Negócios Estrangeiros, onde pode fazer por só ser visto ao longe, arrisca fazer regressar as novelas do BPN e do BPP ao topo da actualidade política. Se o seu grau de coragem e verticalidade política continuar a ser o mesmo que demonstrou quando era vice-PM do Bloco Central e teve de conviver com a então fresca chegada de Cavaco Silva à liderança partidária, nomeadamente no episódio da tentativa cavaquista para adiar a assinatura do tratado de adesão à CEE por mero interesse pessoal/partidário, tudo se pode esperar.
Moreira da Silva pode surpreender, tanto pela positiva como pela negativa. Ambicioso, com a força de um aparelhista ilustrado, pode ser um bom governante nas suas áreas de competência específica e, no entanto, "borrar a escrita" com um excessivo interesse pelas guerras internas do PSD. E elas serão muitas daqui para a frente, com a ala passista reanimada pelos tiros no pé dos cavaquistas nestes últimos tempos.
Já a Ministra das Finanças, mais uma aquisição recente da lavra do PSD, está cada vez mais enredada na embrulhada política em que se meteu, sendo cada vez mais evidente para mais gente que andou muito longe da verdade quando tentou lavar as mãos do caso dos contratos swap e, para tanto, não encontrou melhor do que desrespeitar gravemente o parlamento.

Feitas as contas, se as novas circunstâncias trouxerem algum suplemento de alma ao governo, o CDS poderá explicar que isso só se tornou possível graças às piruetas de Portas. E, sim, Portas faz piruetas, mas é a vida. Por tudo isto digo que o CDS pode revelar-se, a prazo, o grande vencedor da recente crise política.

20.7.13

o PS de que o país precisa.

01:25

O PS, sob a direcção de Seguro, aguentou a pressão e não assinou nenhum acordo de salvação do PSD e do CDS. Bastou-lhe, para isso, reafirmar o que tem vindo a propor, quer institucionalmente quer em público. Que a maioria governamental não tenha tido rins para pegar nas propostas do PS tem um significado: queriam o PS apenas para muleta. Não espanta. A forma como Seguro comunicou ao país a situação foi (apenas li, não ouvi a comunicação) equilibrada e convicta. O PS teve a sabedoria táctica para, no período de negociação, não deixar estabilizar nenhuma antevisão do que faria afinal: deu, assim, credibilidade à sua rejeição do acordo, porque fez crer que, fosse outra a posição das outras partes negociais, poderia ter assinado.

Fico, agora, à espera dos que fizeram previsões catastróficas. Dos que previram que o PS não votaria a moção de censura dos melancias (votou). Dos que previram que o PS entregaria o ouro ao bandido a pretexto da "salvação nacional" (não entregou). Refiro-me, não tanto aos comentadores, mas aos partidos políticos que já ensaiavam nova manobra da coligação negativa com os partidos da direita. Esses, se tivessem alguma decência política, não entrariam agora em discursos de encobrimento. Encobrimento de quê, perguntarão. Infelizmente, a esquerda da esquerda vai agora entrar em tentativa de encobrimento de que desejaram ver o PS nos braços da direita, porque só isso os salvaria do que mais temem: ver o PS assumir o seu papel de alternativa.

Tudo isto, para mim, não significa que o PS esteja já em condições de ser essa alternativa. Tem de fazer mais. Visar mais longe. Lutar para merecer uma base social de apoio alargada. E, além do mais, aprofundar o espaço de convergência interna para se abalançar às lutas nacionais, como opinei anteriormente.

19.7.13

é contra toda a teoria política que a direcção do PS tenha enlouquecido, não é ?

11:55

Leio por aí (não vi, não ouvi) que António Costa disse ontem na Quadratura do Círculo que não tem informação nenhuma sobre o que está a ser negociado entre o PS e os partidos da coligação governamental de direita. Se isso for verdade - se AC o disse, acredito que seja - isso quer dizer que a direcção do PS tem um entendimento estranho da "paz interna" celebrada no último congresso.

Quer dizer: se for verdade que António Costa não está a ser tido nem achado neste momento crucial para o PS, isso quer dizer que a direcção de António José Seguro apenas quis meter os descontentes no bolso com o "consenso interno" e, depois, na prática, está-se marimbando para a opinião e o envolvimento de uma das figuras do PS que mais esperança representa hoje na sociedade portuguesa: o actual e futuro presidente da câmara municipal da capital.

Se também for verdade, coisa que também leio por aí, que António Costa defendeu um acordo entre todos os partidos que mostre a quase unanimidade dos portugueses a pretender a renegociação do memorando, ficamos entendidos: ou a direcção do PS está só a fazer ginástica de aquecimento na mesma sala que o PSD e o CDS mais uns amigos de Cavaco Silva, para os entreter, ou, se está mesmo a negociar qualquer coisa que possa salvar este governo das chamas do inferno (e não o país) , vai causar um grande estrago ao PS.

São momentos como estes que definem um líder. Seguro, que parece que ainda não teve direito à sua prova de fogo, pode vir a definir-se nesta tempestade. Eu, que sou paciente e tolerante, espero para ver - mas Seguro que não se fie, porque, com esta direcção do PS, há pouco por aí quem ainda seja paciente e tolerante. Et pour cause.

18.7.13

o acordo PSD-CDS-PS.

12:20

Em princípio, não rejeito nenhum compromisso nem nenhum acordo a priori: costumo esperar para ver o conteúdo de qualquer coisa para ter opinião sobre a mesma. Também assim, apesar do nome, com o acordo de salvação nacional.
Agora, há uma coisa: ou o PS consegue que o PSD e o CDS façam um duplo mortal à retaguarda e aceitem mudar tanta tanta asneira que andaram a fazer, e o acordo torna isso evidente em letras gordas, ou a assinatura do PS num qualquer entendimento com essa configuração será um suicídio. E eu gosto pouco de entrar em suicídios.
Mas vou esperar para ver.