31.5.13

ok, a unidade de esquerda - e depois?

14:38

Está na ordem do dia. A unidade da esquerda. Há até quem queira a unidade de todos e mais alguns que estejam contra o governo, talvez do CDS ao MRPP - mas deixo isso de lado, porque não me parece que o país deva ser governado por uma caldeirada. A unidade da esquerda (PS, PCP, BE) está, segundo algumas iniciativas, em cima da mesa. Quem sou eu para criticar a unidade da esquerda, logo eu que há décadas critico o PS por não ter feito a parte que lhe competia para tornar possível à esquerda aquilo que é possível à direita: convergência apesar das diferenças. (Tal como os outros também não fizeram, entenda-se.) Contudo, há motivos para parar e pensar. A Aula Magna, mais uma vez, por convocatória de Mário Soares, dá um cenário do que poderia ser uma unidade da esquerda. Mas o próprio Mário Soares é o retrato da dificuldade: ele foi durante décadas o principal estratego contra a unidade das esquerdas - e só mudou depois de ter deixado para trás todas as responsabilidades institucionais. E, depois, qual é a voz que salta desse encontro para o público? O Reitor, com um discurso muito aplaudido nas redes, mas que, na verdade, não diz nada de novo: diz bem, e literariamente, do nosso rasganço interior, mas não acrescenta nenhuma ideia nova - e, fundamentalmente, não teve o mesmo eco em nenhum dos representantes dos partidos que, supostamente, deviam fazer a tal unidade das esquerdas. Muita gente a gritar junta, com a mesma raiva justa, não faz uma alternativa.
Deixemo-nos de rodriguinhos, que os tempos não estão para punhos de renda: o país precisa de uma alternativa de esquerda, mas para isso ser possível é preciso que o PS, o PCP e o BE abandonem muitos dos seus bloqueios teóricos, ideológicos, retóricos - e comecem a pensar a sério no que é essencial. Não é fazer a revolução, é fazer um programa de governo realista num mundo difícil e que não vai estar a olhar para nós com candura. A Europa é, maioritariamente, ao nível dos governos, da mesma massa que Gaspar (não digo da mesma massa que Passos, porque Passos é uma não-existência) e não vai mandar barras de ouro para pagar a nossa segurança social. E uma unidade de esquerda mal parida pode ser o fim da esquerda neste jardim à beira-mar plantado por muitos anos. Basta, por exemplo, que o anti-europeísmo da esquerda da esquerda se torne obsessão de um governo para entrarmos numa fúria isolacionista que fará pior ao país que o pior sonho de Álvaro. Ou que o PS continue enredado numa malha de "relações" que volta e meia assomam como sinais de que o raciocínio privado pode sempre assaltar o raciocínio público.
Se alguém quer "a unidade das esquerdas", só tem uma coisa a fazer: deixem as manobras de propaganda e comecem a discutir as políticas. Porque isto não vai lá com um programa de desfazer o que Passos e Gaspar desfizeram. Não chega. É preciso ir por outros caminhos. Que não estão, de todo, inventados.


o homem que não foi eleito coisíssima nenhuma lida tão mal com a verdade histórica como com as finanças.


Gaspar, o ministro de Passos, precisa que lhe lembrem certas coisas:

(...) se havia uma garantia formal (escrita) de apoio do BCE e da Comissão Europeia ao PEC IV, a aprovação desse PEC podia ter evitado o pedido de ajuda externa, garantindo junto dos mercados financeiros uma protecção do BCE análoga à que é dada a outros países poupados a um resgate. Podemos todos especular sobre o que teria acontecido se essa solução tivesse sido adoptada, o que não podemos é adulterar a história: a alternativa ao resgate existia, tinha apoio europeu e foi rejeitada. Como confirmou Carlos Costa, Governador do Banco de Portugal, ao Público (1-4-2012): "Testemunhei que a Comissão Europeia e o BCE não queriam que Portugal fizesse um pedido de assistência financeira, igual ao grego e ao irlandês, e estavam empenhados na aprovação do PEC IV".

(...) o "chumbo" do PEC IV foi anunciado por Passos Coelho na noite de 11 de Março de 2011. A partir daí, tudo se passou rapidamente: a votação no Parlamento teve lugar a 23 de Março (provocando a imediata demissão do Governo) e o pedido de ajuda foi apresentado menos de 15 dias depois, a 6 de Abril. Tudo em menos de um mês.
Quem queira sustentar que o pedido de ajuda externa devia ter sido formulado antes da crise política, isto é, antes de Março, tem de recordar o que o próprio PSD dizia no mês de Fevereiro. E o que dizia Eduardo Catroga era isto: "Não defendo, nas actuais condições de acesso, o recurso ao FEEF em parceria com o FMI, porque as experiências da Grécia e da Irlanda correram muito mal" (v. Diário Económico, 21-2-2012). O próprio Passos Coelho também era contra: "Portugal só deve encarar uma solução externa quando as condições forem racionalmente vantajosas. Portugal não tem uma dívida sustentável mas o tipo de financiamento do FMI ou do FEEF também não o é". E acrescentou um argumento bombástico: "Se Portugal recorresse ao tipo de ajuda da Irlanda ou da Grécia, dentro de dois ou três anos não estaríamos em condições de cumprir" (Lusa, 10-2-2011).

Pedro Silva Pereira, no Económico.

30.5.13

Porfírio(aproximadamente).


ポルフィリオ

alguém, de quando em vez, tem de se dar a estes trabalhos.

uma condecoração da ordem dos banqueiros.

10:00


Independentemente da valia de cada um deles, que não discuto, Amado e Teixeira dos Santos foram dos que - junto com os banqueiros - mais se opuseram às tentativas de Sócrates para evitar o "resgate" da troika. Agora, dizem as más línguas (do "i", neste caso) que podem ir para banqueiros do Estado. Parece um prémio a terem visto mal as consequências do tal resgate - que, como hoje toda a gente sabe, só torna as coisas mais difíceis. Infelizmente, naquele tempo ganharam os que não quiseram tentar uma saída sem o aparato dos "memorandos", que se revelaram uma canga que não ajuda a cumprir os objectivos proclamados. Às vezes, a história não demora muito tempo a começar a ser feita.

(Para acalmar os apressados: não disse que não haveria sacrifícios sem memorando. O que digo é que o esquema do "resgate" é uma forma de escrever na pedra umas teorias que nos amarram a politicas erradas, mesmo depois de toda a gente ver que estão erradas. É que, em tempos de incerteza, ter certezas e escrevê-las na pedra é apenas sinal de irracionalidade. É por isso que a ortodoxia facilmente cai na burrice.)