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11.3.25

Confiar no Soberano

21:37

Deixo aqui, para registo, o editorial que assino hoje, na qualidade de diretor, no Acção Socialista, no dia em que o Governo de Luís Montenegro foi derrubado por reprovação de moção de confiança na Assembleia da República.

***

Este Governo chega hoje à consequência lógica do modo como começou esta legislatura. É isso que resulta do debate da moção de confiança que Luís Montenegro apresentou para escapar ao escrutínio, ameaçando levar o país para mais uma crise política, num contexto nacional e internacional de enorme incerteza, sobrepondo a tática pessoal ao interesse do país.


A técnica da encenação que a AD escolheu como política para esta legislatura ficou bem exposta pelo primeiro-ministro logo no início do debate. Luís Montenegro avança com uma mistificação, dizendo que na Alemanha os socialistas (SPD) se juntam à direita (CDU) para barrar a extrema-direita e que em Portugal vão confluir com ela. A verdade é que na Alemanha prepara-se uma coligação, com a CDU e o SPD parceiros e com responsabilidades partilhadas na governação: negociaram o programa de governo, vão assumir responsabilidades em conjunto, vão prescindir de alguns pontos do seu ideário para convergir numa plataforma possível. E, sim, desse modo impedem o acesso da extrema-direita ao governo.


Não é nada disso que temos em Portugal. Por cá, este PSD nunca procurou qualquer entendimento sério com o PS. Por cá, este PSD raramente foi capaz, sequer, de um respeito democrático básico pelo PS. Luís Montenegro procurou apenas navegar no nevoeiro da incerteza que a extrema-direita introduz no sistema. Luís Montenegro levou o PSD a aproveitar para, depois, desprezar, tudo o que o PS lhe deu, à conta do respeito dos socialistas pelas instituições democráticas: deixar passar o programa de governo, viabilizar o Orçamento, reprovar duas moções de censura – e retribuíram com a sistemática procura de menorizar o PS.


A própria moção de confiança, que Luís Montenegro apresentou apenas como cortina para a sua falta de esclarecimento, é textualmente um ataque ao PS e à oposição em geral. E, mesmo assim, não se envergonha de exigir ao PS que vote a favor do que o Governo escreve contra o PS.


Chegamos aqui com a mesma atitude que o primeiro-ministro teve durante toda a legislatura. Luís Montenegro começou sem atender ao escasso apoio de que dispõe no Parlamento, começou substituindo o diálogo necessário pela arrogância, começou tentando enganar o país dizendo serem suas medidas tomadas pelo anterior governo, começou desmentindo pela prática as promessas eleitorais de que problemas importantes e complexos se resolveriam rápida e facilmente. E acabou pondo a defesa da sua circunstância pessoal acima do país, acima da estabilidade política, acima do seu próprio partido – tudo varrido pela submissão à circunstância pessoal.


O governo de Luís Montenegro chegou ao dia de hoje como começou: repetem, no debate da moção de confiança, que o país cresce mais do que a média europeia – mas esquecem-se de dizer que foi esse o legado que o PS lhes deixou; repetem que subiu o rating da República, graças ao bom desempenho das finanças públicas – mas esquecem-se de dizer que foi esse o legado que receberam dos socialistas; tentam interromper o debate da moção de confiança para substituir um debate parlamentar público por uma conversa privada à porta fechada. O país não merece isto. Os portugueses não merecem isto.


O PS não quis e não quer a crise política. Só que não é da natureza do PS temer eleições. Nunca o PS trocará os valores e os princípios por uma conveniência de calendário eleitoral. O PS nunca teme eleições, porque é o soberano que, em última instância, tem de decidir. E, hoje como sempre, o PS confia na palavra do soberano.



(Publicação original aqui: Confiar no Soberano.)


Porfírio Silva, 11 de Março de 2025
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13.3.24

RECOMEÇAR, ONDE O POVO DECIDIU

23:41



No passado dia 11 de março, o órgão oficial do PS, o Acção Socialista, na sua versão digital diária, retomou a sua presença na esfera pública com identidade plena, isto é, com página própria e autónoma, o que já não acontecia desde junho de 2021. Desde que fui eleito para diretor do Acção Socialista que tinha fixado o dia a seguir às eleições legislativas antecipadas de 2024 para dar esse passo, o que se concretizou.
Nesse dia, entendi que essa edição deveria contar com um editorial do diretor - obviamente, marcado pela circunstância pós-eleitoral. Para registo, reproduzo aqui esse texto.

O Acção Socialista Digital diário pode ser consultado em https://accaosocialista.pt 


RECOMEÇAR, ONDE O POVO DECIDIU

O povo votou. Em eleições livres, umas vezes ganha-se, outras vezes perde-se. Desta vez, o PS não tem maioria e não tem condições para congregar uma maioria parlamentar e social funcional para governar o país. Não há maioria à esquerda e entrar no jogo da AD seria trair o nosso programa, as nossas propostas e a nossa base social de apoio. Em coerência – como, aliás, fizemos em 2015, sob a liderança de António Costa – não vamos inviabilizar a governação de quem ficou em primeiro lugar sem termos condições para oferecer uma solução alternativa. Vamos, pois, ser oposição: respeitamos o papel que o povo nos deu. Em democracia, ser oposição é uma função nobre e decisiva. O Secretário-Geral do PS, Pedro Nuno Santos, deixou isso muito claro logo na noite eleitoral: seremos oposição, não deixaremos esse papel para a extrema-direita, e é na oposição que vamos reconstruir a nossa relação com os portugueses a quem devemos a construção diária deste país.

 

O aspeto mais positivo destas eleições legislativas foi termos feito recuar ainda mais a abstenção e termos conseguido uma participação eleitoral acima dos padrões dos últimos anos. Independentemente do resultado, esse é um vetor indiscutivelmente positivo desta dinâmica e temos de trabalhar nessa base para aprofundar o nosso regime onde o povo é quem mais ordena.

A direita acede à oportunidade de governar em condições económicas e financeiras excecionais: há problemas difíceis para resolver (como o PS afirmou, sem tibieza, na campanha), mas a governação socialista deixou os meios e as oportunidades para permitir a sua superação: não apenas os recursos, mas também os instrumentos. Em muitos casos, a direita só tem que não estragar e deixar que se continue a implementar o que deixamos em movimento. Vamos lá ver se a cegueira ideológica não os impede de entender isso.

Depois de termos assumido responsabilidades em tempos excecionalmente desafiantes, com uma pandemia que ultrapassou em risco de saúde tudo o que qualquer humano vivo conhecera e com uma guerra na Europa que julgávamos impossível e causou uma crise inflacionária que não testemunhávamos há décadas, a direita acede ao poder com uma situação económica em que temos mais liberdade face aos mercados financeiros, com uma inflação a retomar a normalidade, com uma população mais qualificada para ajudar o país a dar um salto em frente e com os recursos para resolver problemas complexos e aflitivos para muita gente – como na habitação, onde o esforço de longo prazo, feito pelo PS, permitirá agora muitas inaugurações…

Quer isto dizer que não cometemos erros? Cometemos, certamente. Não seria capaz de fazer aqui uma lista dos mesmos. Desde logo, porque me falta sabedoria para tanto, mas, igualmente, claro, porque ter feito parte do número dos que erraram não me ajuda nessa tarefa… De qualquer modo, e porque esta foi uma eleição para deputados e deputadas à Assembleia da República, assinalo, neste capítulo, o seguinte. Convém nunca desvalorizar o papel de reais representantes dos povos e dos territórios que todos os deputados são. Alguns deputados podem não ser brilhantes a discursar, podem não ser mestres de retórica e, por isso, não acederem ao reconhecimento mediático, mas todos, e no seu conjunto, conhecem as suas terras, as suas gentes, as disfunções que atrapalham a nossa vida coletiva, as insuficiências opacas dos serviços, as revoltas e injustiças sofridas ou percebidas – e, assim sendo, os parlamentares mereciam ser ouvidos com mais atenção e com mais cuidado, num país onde a mediatização excessiva do processo político favorece a excessiva governamentalização da ação política e uma subalternização indevida da função parlamentar. A reconciliação do povo com a política, com a democracia e com os socialistas, de que falou apropriadamente o Secretário-Geral do PS na sua claríssima intervenção na noite eleitoral, também passará por aí, é minha convicção. Não parece desadequado dizê-lo quando se prepara uma nova legislatura.

Porfírio Silva


(Editorial do Acção Socialista Digital diário, edição nº 1461, de 11 de março de 2024)


O Acção Socialista Digital diário pode ser consultado em https://accaosocialista.pt 


Porfírio Silva, 13 de março de 2024
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30.8.21

Partido.

22:50
 
 


Deixo aqui registo da minha intervenção no 23º Congresso Nacional do PS, que teve lugar nos dias 28 e 29 de Agosto de 2021, em Portimão. A intervenção foi proferida na noite do dia 28.
 
*** 
 
Camaradas, permitam-me que cumprimente todos na pessoa do nosso presidente, Carlos César, e uma saudação especial aos camaradas da rede de socialistas na educação, com quem temos vindo a trabalhar nestes anos.

 

Camaradas, ninguém pense que este é um momento fácil para o PS. Este é mesmo um dos momentos mais difíceis da história do nosso partido, porque nos cabe a responsabilidade de vencer uma tormenta sem precedentes nas nossas vidas, uma pandemia que combatemos no meio da maior incerteza, equilibrando saúde, economia e liberdade, sem esquecer nenhuma dessas partes, enquanto outros, em exercícios de pequena política, tentam aproveitar a pandemia para desestabilizar a governação. Daqui lhes dizemos: não conseguiram e não conseguirão. Vamos vencer a pandemia, concretizar a recuperação e retomar a convergência com a Europa, que nas últimas décadas praticamente só aconteceu com governos socialistas. 

 

Estamos preparados para vencer a crise, porque não nos enganámos de rumo, porque não foi preciso vir a pandemia para agirmos nas prioridades do combate às desigualdades, pela transição climática e pela transição digital socialmente justas, pelo reforço dos serviços públicos.

 

O PS não se engana nas prioridades, porque a nossa prioridade é a vida concreta das pessoas, e, também, porque somos um partido democrático, no espaço público e no funcionamento interno. 

 

Nestes tempos de ameaças à democracia a nível global, a extrema-direita e os populismos agressivos estão ao ataque contra os partidos, porque sabem que os partidos democráticos são o povo organizado a trabalhar pelo bem comum. Não há, em lado nenhum, democracia sem partidos. É por isso que, hoje mais do que nunca, é nosso dever valorizar o nosso partido como partido democrático e plural.

 

Os órgãos colegiais do nosso partido, a todos os níveis, do nível local ao nível nacional, que alguns por vezes atacam em nome da ilusão da democracia direta, têm de funcionar com assiduidade e é aí que se constrói, passo a passo, a opinião coletiva do partido. É que nós nunca fomos da linha do centralismo, o partido do centralismo dito democrático nunca foi e nunca será o PS.

 

Para cumprirmos as exigentes tarefas que o país espera de nós, precisamos da força da democraticidade e pluralidade internas. Sejamos claros: os governos passam, as maiorias mudam, a composição do grupo parlamentar vai variando, mas o partido continua. O partido é o verdadeiro instrumento da participação do povo socialista nas escolhas políticas. A militância é indispensável ao sucesso da nossa ação governativa.

 

Como partido, não precisamos que nos ensinem o que é a proximidade à sociedade. Os nossos autarcas são o exemplo vivo da nossa prática de proximidade, no concreto de cada território. No trabalho dos nossos autarcas está vivo o nosso enraizamento no país real – e é também por isso que vamos voltar a ter uma grande vitória no próximo dia 26 de Setembro. 

 

Mas temos de aprofundar essa proximidade também noutras frentes. Por exemplo, no mundo do associativismo, da economia social, do cooperativismo, dos movimentos cívicos pelos direitos humanos, no mundo da educação – sem esquecer o mundo do trabalho, os nossos camaradas com militância sindical, porque não podemos esquecer que o socialismo democrático, a social-democracia e o trabalhismo, embora se organizem hoje como partidos interclassistas, nasceram nos movimentos dos trabalhadores. E temos de saber honrar esse património, temos de ter orgulho nesse património.

 

E no mundo sindical também se trabalha pela democracia no país, por exemplo, no caso dos trabalhadores socialistas da UGT, por uma concertação social moderna e progressista. E também se trabalha pela democracia no seio do próprio movimento sindical – e quero aqui deixar uma palavra especificamente aos nossos camaradas da Corrente Sindical Socialista da CGTP, que sabem bem o que é lutar para que o movimento sindical seja democrático, não seja monolítico e não seja controlado por nenhum partido.

 

Camaradas, termino com uma pergunta simples: por que é que este camarada vem, a esta hora da noite, com tantos temas importantes, falar do partido? É muito simples, camaradas. É que é o PS da proximidade, é o PS democrático e plural, é o PS da unidade que nunca foi unicidade, é o PS ao mesmo tempo capaz da boa governação e bem enraizado nas lutas sociais, é esse PS que será capaz, uma vez mais, de responder ao país, vencer a crise e ganhar o futuro.

 

E, portanto, é nossa responsabilidade fazer com que valha a pena dizer e praticar: viva o PS!

 

 
Porfírio Silva, 30 de Agosto de 2021
 
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28.10.20

Rui Rio e o neo-passismo com falinhas mansas

11:45
 

O posicionamento do PSD no debate orçamental, quer no parlamento, quer através das declarações de Rui Rio sobre a proposta do governo para 2021, tem vindo a mostrar nos últimos dias um sintoma de um problema: o PSD sofre hoje de fadiga da responsabilidade.
 
É claro que deve ser reconhecido que o PSD, na primeira fase da pandemia, procurou colocar o interesse nacional acima do imediato interesse partidário. Mas cansou-se, durou pouco. 
 
Rui Rio costuma dizer que só anuncia como vota o orçamento depois de conhecer a proposta – e pretende assim passar uma mensagem de responsabilidade, de que não decide matérias de interesse nacional só por tática partidária. Muito bem. Mas há, agora, uma decisão de votar contra esta proposta de Orçamento de Estado que foi anunciada ao seu grupo parlamentar com uma justificação, digamos, curiosa: face ao OE com que temos de enfrentar a maior crise das nossas vidas, o PSD vai votar contra… por quê? Por causa de uma frase do primeiro-ministro! E sobre essa frase o seu líder parlamentar, deputado Adão Silva, insiste (no Expresso da semana passada): o voto do PSD poderia ser reequacionado se António Costa pedisse desculpa dessa frase.
 
Terrível frase há de ser essa, para ditar o voto contra do PSD. Vamos lembrá-la: “No dia em que a sua subsistência depender do PSD, este governo acabou”. Mas, afinal, qual é a mensagem política de tal frase de António Costa?
 
A mensagem é muito clara e é esta (como, aliás, resulta do contexto, da entrevista em que a frase foi dita): há uma particular responsabilidade da esquerda na aprovação deste orçamento, porque quem trouxe o país até aqui, quem virou a página da austeridade e mostrou que há um caminho melhor e que dá melhores resultados, quem se meteu a esta obra tem a responsabilidade de não desistir a meio, tem a responsabilidade de agir contra o desperdício da experiência, tem a responsabilidade de não abandonar o barco quando a tempestade é tamanha e os portugueses enfrentam o mostrengo no cabo das tormentas que ainda há de ser o cabo da boa esperança. Cabo das tormentas que ainda há de ser o cabo da boa esperança se soubermos navegar e não houver marinheiros a saltar borda fora com medo da vastidão da tarefa.
 
É esta mensagem, sobre a responsabilidade da esquerda em dar continuidade ao trabalho que temos vindo a fazer em conjunto, que arrepia a sensibilidade do PSD? Mas foi isto mesmo que disse, na semana passada, em plenário da Assembleia da República, o deputado Duarte Pacheco, falando em nome do PSD, acusando o BE de ter estado sossegado enquanto corria bem e agora querer saltar do barco quando a crise aperta. O escândalo que o PSD finge é, pois, apenas isso mesmo: fingimento. O PSD tem, precisamente, a mesma motivação que verbaliza em acusação ao BE. É assim que, afinal, em poucos meses – apesar de terem sido meses tão longos – o PSD se cansa de pôr o interesse nacional acima do cálculo partidário. O PSD – e o BE, aparentemente – têm medo da companhia de quem tem de governar no momento em que é preciso enfrentar a maior crise das nossas vidas – não percebendo que os políticos não servem para nada se viram a cara nos momentos mais difíceis. 
 
A fadiga da responsabilidade que assola o PSD traz consigo um elemento preocupante: o brutal regresso ao passado que o discurso do seu líder desvela nos últimos dias. É que, na sua justificação do voto contra o OE, perante o seu partido, onde certamente se sente mais confortável e à vontade para abrir o coração, Rui Rio mostrou uma cedência em toda a linha ao velho discurso e à velha estratégia de Passos Coelho. Voltou à teoria de que “vivemos acima das nossas possibilidades” (mas quem? os que vivem com o salário mínimo?!). Voltou a defender a estratégia passista de dar prioridade à redução do défice à bruta. Voltou à teoria de que as receitas são incertas e, portanto, certamente acrescentará que temos de voltar aos cortes. Voltou a acusar-nos de “dar tudo a todos”. 
 
Rui Rio, para acalmar o seu partido, deu a mão ao fantasma do passismo, latente entre os seus companheiros. Esse é um sinal da sua fraqueza interna, a qual deriva de Rui Rio continuar a ser um corpo estranho ao seu partido, como se nota quando o seu grupo parlamentar tem liberdade de voto em matérias fundamentais. Vimos isso mesmo, recentemente, mais uma vez, na votação sobre o referendo à eutanásia, onde apenas meia dúzia de deputados do PSD votaram com o líder.
 
Rui Rio não encontrou melhor, para acalmar os seus, do que ressuscitar a austeridade como linha política. Mas o que é extraordinário é que Rui Rio conseguiu ressuscitar toda a doutrina austeritária de Passos Coelho e Paulo Portas e, mesmo assim, há partidos que se chamam de esquerda e que ainda não perceberam o perigo que isso representa para o país. E, aparentemente, não se importam de repetir os erros do passado.
 
No discurso em que anunciou o voto contra o OE 2021, Rui Rio disse: “(…) relativamente a determinadas medidas do Orçamento, nós íamos estar todos de acordo. De certeza que somos todos a favor do aumento das pensões, de mais creches gratuitas, de menos IVA nos ginásios, de passes sociais mais baratos, de novas prestações sociais, do aumento do subsídio mínimo de desemprego, da criação do subsídio de penosidade, de redução do IVA da eletricidade, do aumento dos salários mais baixos da função pública. Estamos todos de acordo com cada uma destas medidas individualmente, não podemos estar de acordo com tudo isto ao mesmo tempo. (…) Porque isto dá o défice para lá do que deve ir e porque isto inviabiliza determinadas medidas necessárias para preparar o nosso futuro coletivo.”
 
Quer dizer: volta a tese de que há uma oposição entre progresso económico, por um lado, e, por outro lado, direitos sociais e redução das desigualdades. Essa tese foi a base da estratégia errada da Troika – e foi corrigindo essa visão que conseguimos voltar a um caminho de progresso social e económico. 
 
Afinal, há um fenómeno relevante no debate na generalidade da proposta de Orçamento de Estado para 2021: a liderança de Rui Rio baqueou, cedeu ao impulso passista que continua larvar no PSD. Os neoliberais do PSD passaram para a cabeça do pelotão, deixando os tímidos laivos de social-democracia para trás. Este debate marcou a renúncia de Rio a qualquer ideia de regresso à social-democracia. (Embora, claro, nunca nada seja definitivo com Rui Rio, porque pode sempre inventar qualquer outra curva na estrada…) Talvez por isso o primeiro-ministro, na sua intervenção de abertura do debate, tenha sempre falado de PPD-PSD: para fazer pensar nos vários partidos que vivem dentro daquele partido.
 
Mais estranho do que isto, só o descuido de alguma esquerda com estes sinais preocupantes.
 
 
Porfírio Silva, 28 de Outubro de 2020 
 
 
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15.10.20

Obrigatoriedade da aplicação Covid?

16:53
Dediquei, anteriormente, algum tempo a analisar a questão das aplicações de rastreio de contactos em tempos de Covid: vários textos neste blogue, alguns capítulos no meu livro Emergência e Democracia - Ciência, política e sociedade em dias críticos
 
Está, agora, no debate público, por iniciativa do Governo, uma nova questão: deve introduzir-se um elemento de obrigatoriedade no uso da aplicação pública portuguesa, a Stayaway Covid?

Um elemento fundamental deste debate diz respeito à forma como tal obrigatoriedade  pode - ou não -  ser implementada sem ferir os direitos, liberdades e garantias dos cidadãos que são constitucionalmente protegidas por serem fundamentais ao Estado de Direito democrático. Sendo esta a dimensão que mais está, hoje, presente no debate público, não vou agora alongar-me sobre as fundadas dúvidas sobre a constitucionalidade de tal passo. Opto, nesta circunstância, por suscitar duas outras questões, importantes para gerir democraticamente uma pandemia que afecta a nossa vida em comum.

Em primeiro lugar, importa evitar a ideia de que pode existir uma varinha mágica tecnológica para enfrentar a pandemia. O fascínio pela tecnologia, que se torna uma doença social quando favorece o enfraquecimento do laço social, afogando a comunidade sob o peso do individualismo, abre caminho à ilusão de que um smartphone com uma app pode fazer milagres para enfrentar uma ameaça disseminada na comunidade. Não pode. O essencial da resposta à pandemia diz respeito a um pacote de comportamentos, ao nível micro das relações de uns com outros, onde o que nos salva é o cuidado concreto com os seres humanos cuja vida se faz em interacção connosco. E mutuamente, claro, porque a dinâmica da reciprocidade é básica aqui. A aplicação Covid pode ajudar: é mais uma ferramenta que complementa o rastreio (manual) tradicional. Pode ajudar, sendo uma entre várias ferramentas. Torná-la, em algum modo, obrigatória, cria a ilusão de ser uma super-ferramenta, cria a ilusão de uma varinha mágica universal - que não é nem mágica nem universal. E, por isso, é um erro grave na estratégia de construir uma resposta democrática à pandemia. Até porque só uma resposta democrática pode ser sustentada. 
 
Em segundo lugar, a explosão de conflitualidade social, distribuída em inúmeros pequenos focos, em cada bairro deste país, que resultaria de um controlo efectivo do uso da app por parte dos agentes da autoridade, é um caminho que temos absolutamente de evitar. Mesmo que cada agente das forças de segurança só viesse a intervir quando munido de um mandato judicial para cada acto de inspecção de um telemóvel, e descontando o delírio de verificar em cada caso se aquela máquina pode ou não correr a aplicação (para determinar se multa ou não multa), toda a operação de controlo de uma máquina que se tornou parte da organização pessoal da vida de cada um (como se tornou o telemóvel para muita gente), por um polícia ou guarda, redundaria numa cadeia infindável de conflitos potencialmente explosivos. Se, antes, fomos capazes de fazer uma aplicação moderada do estado de emergência, mesmo sob a pressão presidencial para um estado de excepção inédito, temos, agora, de evitar qualquer sinal de que vamos viver em ambiente de quase-emergência não declarada. Até porque, quanto mais difícil é a situação, mais precisamos de confiança popular nas autoridades (a todos os níveis) - mesmo para que todos os escalões de responsabilidade possam exercer em pleno as suas funções e cumprir as missões necessárias para vencermos este desafio.
 
Finalmente, nada disto tem a ver com alguma desinformação que por aí anda acerca do funcionamento da Stayaway Covid. Por exemplo, quando alguns continuam a falar como se esta aplicação fizesse geolocalização, coisa que não faz. Laboramos, aqui, em assunto demasiado sério para tolerarmos ligeirezas. 

 
 Porfírio Silva,15 de Outubro de 2020
 
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