1.2.13

Tenho uma triste notícia para dois jornalistas da Visão.




A edição de ontem da Visão publica um artigo sobre as últimas movimentações no PS. Intitula-se “Qual é a pressa… dos banqueiros?”. Esse artigo, que me dispenso de comentar em geral, tem um último parágrafo que parece servir para convencer o leitor de que houve investigação histórica naquele trabalho. Passo a citar:
Zanga com 30 anos. António Costa e Seguro só convergem no nome próprio e na filiação partidária. Tudo o resto os separa desde que, em 1984, tiveram uma zanga, na JS. António Costa tinha apoiado o ex-Secretariado, um grupo de dirigentes que se opunha ao então líder Mário Soares. Nessa altura, o velho fundador do PS lançou-lhe uma fatwa: “Trocaste uma carreira política por uma assinatura.” E vetou a sua ascensão à liderança da JS, para substituir Margarida Marques. O soarista António Campos, o homem do aparelho, rapidamente “inventou” um então obscuro líder de uma associação de estudantes, José Apolinário, para a “jota”. Inesperadamente, Seguro virou as costas… a Costa. E alinhou com o poder interno, vindo, logo a seguir, a assumir o apetecido cargo de presidente do CNJ (Conselho Nacional de Juventude). António Costa nunca lhe perdoou. O ajuste de contas pode estar por meses.

Pois, tenho uma triste notícia para os dois autores deste texto, Sara Rodrigues e Filipe Luís. A notícia é esta: se pensavam que nos convenciam que tinham feito investigação histórica para escrever aquele parágrafo… pois, não; não propriamente. Aquele parágrafo tem muitos dados certos: datas certas, pessoas com nomes correctamente escritos, nomeadamente. Mas, quanto ao conhecimento do que realmente se passou naquela época, a lógica política geral daqueles anos, quem deu a mão a quem para fazer o quê, quem traiu quem e buscando que recompensa: falta claramente uma compreensão de tudo isso. Foi assim como se tivessem pegado numa grande e complicada família, tivessem assassinado (sem método) metade dos homens e metade das mulheres, tendo depois casado os tios com os tios e as primas com as primas, outra vez ao calhas, e tivessem apresentado o resultado como um retrato a sépia da infausta história da tribo. A história, manifestamente, foi soprada por alguém (um ou mais) a quem interessa que se saibam algumas coisas mas se ignorem outras. Estou perfeitamente à vontade a escrever isto, porque, da história realmente acontecida, que eu vivi de muito perto, o que se ficou menos a rir fui eu (politicamente falando, apenas, na medida em que continuei sempre a rir-me com gosto). Eu, para não falar demais, resumiria assim: aquele parágrafo dá uma ideia bastante aproximada da noção que AJS tem da lealdade - mas dizer só isso é parcial.

Claro, como a ninguém interessa muito por que é que Seguro não ama Costa e Costa não ama Seguro (porque realmente não é essa a questão), ninguém se vai aborrecer muito com a trapalhada que vossas mercês escreveram. Ficam muito contentes por terem cumprido o vosso ponto, a saber, chover ainda outra vez no molhado de que “isto é tudo guerras de jotas”. Eu, pelo meu lado, que sou suficientemente velho para saber que o vosso “parágrafo histórico” é um conto da carochinha misturada com o lobo mau e o gato das botas, vou passar a olhar para qualquer texto vosso com um grão de cepticismo. Digamos, com um tanto mais de confiança da que depositaria em fascículos antigos de Corín Tellado se me quisessem convencer que se tratava de tomos da história da Venezuela.

31.1.13

por falar em acusações de deslealdade.


Eu de vez em quando gosto de praticar um bocadinho de etnografia de certos grupos culturais...

António Gameiro, líder da Federação do PS de Santarém, deu uma entrevista ao Correio da Manhã. Vejamos.

Correio da Manhã – Denunciou em Almeirim que há militantes do PS que conspiram nos corredores do Parlamento. A quem se estava a referir?
António Gameiro – Estou-me a referir a um grupo de deputados e dirigentes que, desde que António José Seguro tomou posse como secretário-geral, tudo tem feito para que o mandato não se cumpra com a unidade que o partido necessita.

– É uma tentativa de derrubar António José Seguro?
– Não. Eu penso que muitos pertencem a ciclos de poder do passado e que estão, de certa forma, desprotegidos. E sentem a necessidade de fazer algum barulho para se valorizarem.

– Refere-se a dirigentes que eram decisivos na estratégia do anterior líder, José Sócrates.
– Exatamente. E outros. Eu vejo deputados que nem um ano têm de militância e já se pronunciam sobre todos os aspetos e mais alguns da vida interna do PS.

– Está a falar de quem?
– Do senhor deputado João Galamba, por exemplo.

– É uma estratégia para a candidatura a líder de António Costa?
– Acho que é uma estratégia ao serviço das conveniências de alguns. Quero acreditar que António Costa será candidato à Câmara de Lisboa. Há um certo frenesim, na tentativa de criar instabilidade no partido.

Eu acho que António Gameiro pode ter razão: há gente no PS que faz barulho só para "se valorizar". Só tenho uma dúvida: será o caso de João Galamba, que ele critica por (sendo militante) se pronunciar sobre a vida do PS? É que, dado o brilho com que João Galamba tem defendido uma alternativa às tropelias deste governo, não me parece que precise de se pronunciar sobre a vida interna do PS para "se valorizar". Não sei se posso pensar o mesmo de certas entrevistinhas ao CM.

(Isto não interessa nada, nem sequer faço ideia quem seja António Gameiro, mas é uma peça que ilustra bem a mentalidade de algumas pessoas que engoliram o comprimido da cor do burro quando foge, com a funesta consequência de lhes ter provocado a convicção de serem os únicos e os maiores defensores da pátria. Se há "inimigos do PS"? Há ! São estes comportamentos! Estas são as deslealdades que a direcção do PS devia atacar, sob pena de Gaspar ainda acabar canonizado e Relvas ir a beato, quanto mais não seja por equivalências.)


quando um dedo aponta para a lua.


Dizem que é um provérbio chinês: "Quando um dedo aponta para a lua, o tolo olha para o dedo." Há uma outra versão, a qual introduz uma reverência desnecessária: "Quando um sábio aponta para a lua, o tolo olha para o dedo."
Este dito, seja ou não chinês, tem-me passado muito pela cabeça esta semana.
Mais precisamente, desde terça-feira.
Mais precisamente, a propósito do PS.
Como, na versão que me passa pela cabeça, eu não sou a lua, nem o sábio - e gostaria de não ser o tonto -, não digo mais nada, para não ofender ninguém.
Quando o mundo é simples, os tolos complicam. Quando o mundo é complicado, os tolos simplificam.

somos um país muito burocrático.


Se fosse em Cuba, o governo daria ordens directas à televisão pública para incluir na grelha um determinado programa que lhe parecia conveniente por razões políticas.

Em Portugal é tudo muito burocrático: a ideia de "encomendar" à televisão pública um programa politicamente conveniente segue via parlamento: PSD e CDS levam ao Parlamento uma espécie de TV Rural.

30.1.13

o que interessa se podemos ou não matar o sinal de trânsito?


No passado dia 24 de Janeiro, foi apresentado no Porto o meu último livro, "Podemos matar um sinal de trânsito?". Foi na Livraria Leitura, Shopping Cidade do Porto. Já aqui deixei a apresentação do livro pela Professora Conceição Soares (Universidade Católica Portuguesa, Porto). Hoje, deixo o vídeo e o texto de base da minha intervenção nessa ocasião.




Há várias leituras possíveis deste livro, leituras a vários níveis (como, aliás, acontece com muitos livros). O próprio autor não lê o livro todas as vezes da mesma maneira. No dia de hoje tenho uma leitura deste livro, uma leitura influenciada pelos tempos que correm; é essa leitura que partilharei agora convosco.
*
Wittgenstein termina o seu Tractatus Logico-Philosophicus com a famosa proposição 7, que foi assim traduzida para português pelo Professor Manuel Lourenço: “Acerca daquilo de que se não pode falar, tem que se ficar em silêncio”. Sem entrar aqui numa interpretação dessa proposição, importante no pensamento do chamado “primeiro Wittgenstein”, sempre quero lembrar-vos que termino este meu livro com o parágrafo 134, talvez o mais curto de todos, mas que contém a minha razão para o ter escrito. Reza assim: “Acerca daquilo de que se não pode ficar em silêncio, tem que se falar.”

Quer pelo título, que alguns já pensaram ser o título de um policial, quer pelo subtítulo, que anuncia um “divertimento”, embora um divertimento “político-filosófico”, pode parecer que este livro não pretende ser sobre coisas sérias. Pelo que já aqui foi dito hoje, penso que se percebe que o livro, afinal, pretende ser sobre coisas sérias. Sobre coisas acerca das quais tem, mesmo, que se falar.

O livro aborda aspectos da vida em sociedade de que muitas vezes não nos apercebemos, fala de como podemos pesar muito sobre os outros, sobre a vida de todos, sem sequer nos darmos conta. Mas neste livro não quis fazer um sermão aos leitores, não quis arvorar-me em moralista, não pretendi dar lições e renunciei à forma pesada, sisuda, teórica, ou abstracta, com que por vezes se confunde a seriedade. Optei por uma abordagem leve, com muitas situações práticas, tentei até alguma boa disposição. É que me parece que podemos pensar em coisas sérias sem fazermos necessariamente um ar sorumbático. Podemos fazer desse acto de pensar as coisas da cidade uma festa do pensamento, uma festa da cidadania, em vez de um aborrecimento desértico e frio. E estamos tanto a precisar disso, porque estamos tanto a precisar de pensar outra vez, abertos a outros pressupostos e a outras premissas.

Escolhi, sempre que consegui, pontos de ataque ao meu problema que partissem de situações mais ou menos inesperadas, às vezes até um pouco estranhas. E fiz isso por quê? A ideia foi abordar certos problemas sem recorrer a exemplos polémicos. Não é que eu tenha medo da polémica, que não tenho. Mas se apresentarmos às pessoas uma questão e essa questão já estiver claramente ligada a uma polémica, a certos confrontos presentes na praça pública, a divergências instaladas e recorrentes, o interlocutor provavelmente já escolheu a sua trincheira e, em vez de pensar livremente na questão que lhe pões, coloca-se imediatamente à defesa (ou ao ataque), resguardado na sua posição habitual, conhecida, talvez confortável. Pelo contrário, se colocarmos às pessoas casos que elas não encaixem imediatamente nas suas ideias firmes, isso liberta-as para pensarem com menos preconceitos, mais livremente. E estamos muito a precisar de pensar mais livremente, mais ancorados nas solidariedades e menos enterrados em trincheiras.

Este livro, pode não parecer, mas é um livro político. Se a política é uma actividade onde se tenta encontrar respostas para a pergunta “como fazemos para termos uma vida boa nesta terra onde vivemos todos?”, se a política é essa busca partilhada, então devo reconhecer que este livro é um livro político. Não é, claro, não é de todo, um livro partidário. Até porque, feliz ou infelizmente, o que mais genuinamente importa na política no seu sentido mais nobre, não é coisa que se possa sempre acantonar nas fronteiras partidárias. E, entenda-se, isto não é dizer mal dos partidos; quem me conhece sabe que prezo muito o papel dos partidos; mas a riqueza da nossa cidadania, o espectro largo da nossa liberdade, não pode limitar-se a nenhuma forma particular. E isso é algo que também quero dizer com este livro: há muita coisa para pensar fora dos formatos habituais. Nesse sentido, este livro é um gesto de um cidadão que quer partilhar com outros cidadãos um certo diálogo.

Sendo um divertimento, nos termos em que expliquei acima, este meu trabalho quer ser um manifesto contra a infantilização das pessoas que partilham connosco a pertença a esta comunidade. Contra a infantilização, quer dizer, contra que nos digam que tem de ser mesmo assim e só assim, contra a teoria de que a teoria do momento é a única teoria possível de levar à prática, contra a tentativa de simplificar o que é complexo, ou de mistificar o que é simples. Ser contra a infantilização da cidadania é mostrar que o mundo é mais subtil, mais intrincado, do que as versões correntes e propagandísticas desta ou daquela verdade. Ser contra a infantilização que por vezem se quer impor às pessoas é reafirmar, e tento fazer isso neste livro com casos concretos, é reafirmar que nós somos responsáveis pelo mundo, somos pessoalmente responsáveis pelo mundo, mesmo que cada um de nós não possa ser responsável sozinho.

Deixem-me dar um exemplo simples e prático do que quero dizer com isto. Imaginem que tenho agora aqui na mão uma nota de banco, digamos, uma nota de 10 euros. O sistema monetário, no seu sentido mais simples, em que a moeda é um sistema de equivalência universal para mercadorias, depende de que nós participemos. Depende de que nós reconheçamos num determinado tipo de pedaços de papel, com um certo formato, com uma determinada tintagem, com determinados sinais, que todos funcionem com esses pedaços de papel como sendo notas. Portanto, o sistema da moeda só funciona porque nós nos mantemos aderentes. Depende de nós.

No entanto, contrariamente ao que algumas pessoas parecem pensar, nem tudo o que depende de nós é subjectivo. Ou seja, não está dado ao nosso livre-arbítrio sair ou entrar em esquemas que dependem da nossa participação colectiva. Se eu pegar numa nota de 10 euros, e a deitar fora, dizendo “eu não reconheço nisto o valor de 10 euros”, eu perco mesmo os 10 euros. Aqueles 10 euros não deixaram de ser 10 euros por eu negar esse valor àquele pedaço de papel. Porque aquele pedaço de papel faz parte de algo muito mais vasto, que não se esgota naquela instância particular que tenho na mão. É certo que, se toda uma comunidade política deixar de reconhecer aquela moeda, abandonar o respectivo sistema monetário, aquela nota deixa de ser uma nota para passar a ser apenas um papel. Portanto, o significado daquela nota como nota depende de nós, depende de nós colectivamente, mas não depende de nós individualmente, e nós individualmente não podemos tratar esses factos como se fossem subjectivos, como se estivessem à disposição da nossa vontade.

Este aspecto da realidade, assim explicado de forma tão corriqueira, de que estamos juntos em aspectos fundamentais da nossa vida nesta terra, e temos a nossa parte, embora a nossa parte não substitua a parte dos outros, este aspecto está no cerne da encruzilhada entre as melhores e as piores possibilidades da nossa vida em comum. Nós fazemos, juntos, o nosso mundo comum. E não podemos renunciar a isso. Mau grado a arrogância dos ideólogos dos individualismos radicais, quer se pretendam muito liberais ou muito anarquistas, se há espécie onde a vida individual só faz sentido em relação, tensa ou harmónica, com a vida em comunidade, é a espécie humana.

Mas há quem insista em fechar os olhos.

Lévi-Strauss conta o caso de uma tribo que conseguia ver Vénus à luz do dia, à vista desarmada, o que astrónomos profissionais lhe confirmaram ser possível e estar relatado como uma prática corrente por tratados de navegação ocidentais antigos. Que isso hoje nos pareça estranho não vem de nenhuma mudança nos planetas, mas de uma mudança das nossas práticas e condições, das nossas formas de vida. É, pois, bem certo que não basta ter os olhos abertos para ver.

O mais difícil de ver é o que está perto. As coisas próximas. “Podemos matar um sinal de trânsito?”, a pergunta que dá título a este livro, procura levar o vosso olhar para esse lado. Como se adivinha, este “matar” não está em sentido literal, está em sentido figurado, é uma tentativa de falar gentilmente de coisas importantes na vida de todos nós. Podemos matar uma instituição de muitas maneiras. Podemos matar o esforço de um grupo com a nossa má-fé ou com a nossa deslealdade, por exemplo. Matar aqui é desvitalizar, desagregar.

Precisamos ter muito cuidado para não matar o que importa à nossa vida em comum. Precisamos ser suficientemente delicados para não matarmos as ferramentas da nossa vida em sociedade com instituições. A este propósito, e para terminar, quero recordar-vos um episódio relacionado com Barack Obama, que tomou posse esta semana do seu segundo mandato como presidente dos Estados Unidos. Obama protagonizou uma história curiosa aquando da sua tomada de posse do primeiro mandato, que ocorreu a 20/JAN/2009. Publicamente. Com cerca de 2 milhões de pessoas nas ruas de Washington para presenciar o primeiro negro a jurar como presidente dos EUA. Inúmeras cerimónias e festas. Contudo, no dia seguinte, Obama voltou a prestar juramento, numa cerimónia quase secreta, não publicitada previamente, na Casa Branca, uns breves trinta segundos perante apenas nove pessoas.

Porquê? Porque no dia da tomada de posse pública, o presidente do Supremo Tribunal dos Estados Unidos, a quem compete administrar o juramento, enganou-se e enganou Obama, que não terá pronunciado correctamente a fórmula de 35 palavras exactamente como previsto na Constituição. Temeu-se que viesse a ser questionado que tivesse havido juramento segundo a Constituição e, portanto, que se pusesse em dúvida que tivesse havido tomada da posse em boa e devida forma. E a repetição serviu para garantir que se tinham respeitado todos os preceitos. Isto é levar a sério a Constituição. Por muito ridículo que possa parecer dar valor a “um pormenor”, o que lá está, enquanto lá está, enquanto não decidirmos em conjunto que se muda, é para ser respeitado. Isto, claro, se não quisermos avariar as ferramentas da nossa vida em comum.

Porque, numa sociedade com instituições, como, aliás, muitas vezes na vida pessoal, o que é importante leva muito tempo e muito esforço a construir, mas pode ser destruído, de forma irrecuperável, em pouco tempo e com uns poucos empurrões. E, digo-vos, precisamos mesmo de evitar isso. Foi, também, para vos falar sobre isto que escrevi este livro.

Esta foi a minha leitura de hoje deste livro. É a minha parte, para a troca, com as vossas leituras.

Obrigado pela vossa atenção, pela vossa leitura, pela vossa participação. Obrigado também por passarem a palavra.



PS, contador a zeros?

13:35



1. Quando toda a gente noticiava que António Costa iria, ontem, anunciar-se candidato à Câmara de Lisboa e candidato a SG do PS, a história correu de modo um tanto diferente. AC anunciou-se candidato à CML e, na Comissão Política do PS, depois de António José Seguro ter anunciado que se recandidatava à liderança, deixou ao SG o repto de unir o partido, sendo que a candidatura de AC só ocorrerá se Seguro falhar nesse desiderato. Parece que esta sequência de acontecimentos baralhou algumas pessoas. Por exemplo, o director da TSF dizia hoje de manhã que Seguro deu a Costa “o abraço do urso”. Paulo Baldaia dizia que imaginava um cartoon com Costa, de braços caídos, a ser abraçado por um Seguro enorme e de sorriso aberto, a esmagar o abraçado. Se o ridículo interpretativo matasse, Paulo Baldaia teria expirado em directo na TSF. Vejo as coisas de modo completamente diferente. Vamos por partes.

2. Tacticamente: AC ficaria muito mal na fotografia, perante o país, até mais do que perante o partido, se anunciasse as duas candidaturas (à câmara e ao partido) no mesmo dia. Pareceria uma jogada daquelas que as pessoas comuns (como eu) abominam nos políticos. Ser presidente de câmara e líder do PS, além de não ser inédito, poderia justificar-se; mas, num contexto de confronto, a respectiva justificação tenderia sempre a ser lida como uma desculpa de mau pagador. AC resolveu esse problema: não faltou à batalha, de alcance nacional, que Seguro e os militantes lhe pediam para batalhar; sendo agora o mais relevante candidato do PS nas próximas autárquicas, não pode continuar a ser atacado pelas formiguinhas brancas do segurismo com o primarismo com que dirigentes nacionais do partido o fizeram ainda ontem (nomeadamente, acusando-o de deslealdade por algo que nem sequer tinha acontecido).

3. Estrategicamente, AC recolocou a questão da “unidade do partido” nos seus termos próprios, desfazendo uma charada que estava a ser muito mal contada. Seguro, que passeou os seus silêncios e as suas alfinetadas de colorido oposicionista durante todo o tempo dos governos Sócrates, tem sido, desde que é SG, o principal obreiro da divisão do PS. Seguro acolheu – a maior parte das vezes com silêncios, mas muitas vezes de forma explícita – a tese da direita segundo a qual a culpa da crise foi do PS (de Sócrates), que o PS (de Sócrates) levou Portugal à bancarrota. Acolhendo essa tese, e prescindindo sistematicamente de defender a obra do anterior governo do PS, como se dela nada soubesse, Seguro e a sua direcção alienaram uma parte do partido e do seu eleitorado. Aquela parte do partido que deu a cara quando Seguro deu o silêncio e o afastamento, a pensar na sua vez. A intervenção política de Seguro tem sido gerida milimetricamente para manter no exílio político todo o legado da anterior governação do PS, com evidente vantagem para o discurso político da maioria governamental. Passos encontrou no discurso de Seguro conforto para ter “ido ao pote” (expressão de PPC) no momento em que a Europa se preparava para ajudar Portugal a evitar o resgate e a troika e o cortejo de malfeitorias que daí resultaram. Este discurso, do PS-Seguro contra o PS- Sócrates, está profundamente enraizado nos dirigentes mais próximos do SG, como se viu pelas múltiplas declarações dos últimos dias, que muitas vezes não foram sequer capazes de usar termos muito diferentes dos escolhidos por Marques Mendes para “comentar” a situação. Depois de tudo isto, primeiro responsável pela desunião, Seguro vem acusar de divisionistas os descontentes com a situação. O gesto de Costa, ontem, devolve a responsabilidade pela (des)união do PS a quem realmente tem a principal responsabilidade por unir ou por desunir: o líder. AC limitou-se a indicar ao partido qual é o seu principal problema político (encontrar uma unidade saudável e que funcione) e quem é o primeiro responsável por que esse problema se resolva ou não se resolva: o líder em funções. Contrariamente ao que parecem pensar os comentadores distraídos, AC devolveu a bola a Seguro e colocou do lado do SG toda a pressão: “vamos ver o que sabes fazer para unir o partido”.

4. Poderá AJS unir o partido e dar a AC a resposta que poupe uma luta interna? No caso de Seguro ter a intenção de responder positivamente ao desafio de Costa, terá de mudar substancialmente a sua narrativa sobre os últimos anos da vida política do país. Seguro, que foi levado a SG por uma federação de grupos dentro do PS que se reclamavam como sendo a esquerda do PS, e que criticavam o “desvio de direita” e/ou o autoritarismo de Sócrates, nunca promoveu um balanço sereno e sério da governação socialista no ciclo anterior. Sem esse balanço, quando se refere ao passado, passa o tempo a atirar fora o bebé com a água do banho. O caldo de cultura que leva Seguro a SG é uma mistura estranha das críticas do PSD+CDS e das críticas do PCP+BE ao “socratismo”, estando agora a resultar num estilo de oposição que engrossa muito a voz mas não dá sinais nenhuns de ter uma ideia global alternativa para o país. O episódio da não constituição da comissão parlamentar para a reforma do Estado, por falta de comparência das oposições, mostra – por muito que tenha agradado aos que adoram gestos largos – a incapacidade do PS para assinalar um rumo para o país que seja diferente quer da irresponsabilidade da direita quer do simplismo da “esquerda da esquerda”. Para Seguro ser capaz de unir o PS e poupar o partido a uma luta interna, teria de operar uma transformação radical dos pressupostos políticos da sua liderança, da equipa dirigente, dos protagonismos, teria de criar uma narrativa dos últimos anos que desminta a sua actual narrativa – e ainda teria de dar alguns sinais de que tem para uma governação futura as ideias que a generalidade das pessoas não tem conseguido captar. Será Seguro capaz de fazer tudo isso?

5. Se Seguro for capaz de fazer tudo isto, Costa terá vencido a batalha sem sofrer qualquer baixa e sem ter sequer que pagar o almoço – e poderá, do seu “miradouro” na CML, continuar a aspirar a tudo. Se Seguro não conseguir sacudir o peso de todos os aliados que tem recolhido ao longo de tantos anos a trabalhar para “isto”; se Seguro, afinal, pensar que deu o abraço do urso a Costa e o abafou, optando por nada fazer de muito diferente do que tem feito até agora – AC “terá” que avançar. Só que, nessa altura, AC avançará “porque o SG não cumpriu com a sua responsabilidade de unir o partido, que é a primeira responsabilidade de um líder”. Nessa altura, AC “fará o sacrifício” de avançar. O jogo será, então, outro: o puzzle da unidade partidária estará em condições completamente diferentes daquelas que julgavam adquiridas aqueles dirigentes do PS que ainda ontem faziam fila à frente dos microfones para insultar António Costa. Aparentemente, inebriados com a conversa da “tralha socrática” (um estilo que une Marques Mendes, Henrique Monteiro e certos dirigentes do PS), esqueceram-se que António Costa não nasceu no tempo de Sócrates, nem pela mão de Sócrates – e que quando Sócrates chegou ao PS já Costa tratava o partido tu-cá-tu-lá há muitos anos. E que o prestígio de Costa assenta, antes de mais, no que tem feito à vista de todos em cargos executivos, não em meras proclamações de intenções. O pior de tudo isto, para Seguro, é que o “professor” que vai avaliar as suas “provas” de que é capaz de unir o partido é, precisamente, quem elaborou o “enunciado” do exame: o hoje aclamado candidato do PS à mais relevante autarquia do país.

29.1.13

nós já conhecemos o parceiro tecnológico da RTP escolhido por Relvas.

E no Porto, podemos matar um sinal de trânsito?


No passado dia 24 de Janeiro, foi apresentado no Porto o meu último livro, "Podemos matar um sinal de trânsito?". Foi na Livraria Leitura, Shopping Cidade do Porto. A apresentação do livro esteve a cargo da Professora Conceição Soares (Universidade Católica Portuguesa, Porto).
Deixo o registo da sua intervenção.


para que servem as lutas internas aos partidos.

13:00

As lutas internas nos partidos servem para as pessoas cá foram perceberem quem são, realmente, esses partidos. Para lá do que anunciam como programas, medidas, opções de governação, importa saber com que ética vivem, como se posicionam perante os fundamentos da convivência democrática, da cidadania, do espaço público. Mais do que pelos grandes discursos programáticos, percebe-se isso pelos mais pequenos acontecimentos das lutas internas. É aí que se confirma a autenticidade (ou não) das juras democráticas.

Desse ponto de vista, os primeiros sinais públicos da inevitável próxima disputa interna no Partido Socialista são preocupantes. O primeiro a renascer das cinzas foi o fantasma de que o debate interno pode prejudicar o combate externo. Se o tom continuar por aí, estamos conversados.

28.1.13

Julião Ludwig Sarmento Wittgenstein, Remarks on Colour.


Julião Sarmento está com uma grande retrospectiva em Serralves. Foi aí que pudemos ver o seu vídeo R.O.C. (40 plus one), no qual uma rapariga lê (muito roboticamente) um longo excerto da obra, de Ludwig Wittgenstein, Remarks on Colour (em português deram-lhe o título Anotações sobre as Cores). Enquanto entra pelo jogo de linguagem de Wittgenstein, a rapariga vai mostrando outros aspectos de si.
Deixo excertos. Mais abaixo deixo uma tradução, disponível comercialmente, dos parágrafos seleccionados.
Mais informação sobre o vídeo aqui.



1. Um jogo de linguagem: Referir se determinado corpo é mais claro ou mais escuro que um outro. — Mas agora existe um jogo semelhante: enunciar a relação entre a claridade de certos tons de cor. (Comparar com o seguinte: determinar a relação entre os comprimentos de duas varas — e a relação entre dois números.) A forma das proposições em ambos os jogos de linguagem é a mesma: "X é mais claro que Y". Mas, no primeiro, a relação é externa e a proposição temporal; no segundo, a relação é interna e a proposição atemporal.

3. Lichtenberg diz que apenas poucos homens teriam alguma vez visto o branco puro. Neste caso a maior parte utilizará apalavra de uma forma errada? E como aprendeu ele o uso correto? — Construiu um uso ideal a partir do uso comum. E isto não quer dizer um melhor, mas um uso que tinha sido refinado segundo uma certa orientação e em tal decurso alguma coisa foi levada aos extremos.
4. E, certamente, uma tal construção pode, por sua vez, ensinar-nos algo acerca do uso efectivo da palavra.
5. Se disser que um papel é branco puro e se a seu lado se puser neve, e aquele parecer agora cinzento, continuaria a estar certo quando, no seu contexto habitual, lhe chamasse branco e não cinzento claro. Poderia acontecer que eu usasse um conceito mais depurado de branco, (digamos),num laboratório (onde, por exemplo, eu também usaria um conceito mais depurado da determinação exacta do tempo).

8. Os homens podiam ter o conceito de cores intermediárias ou mistas mesmo que nunca tivessem produzido cores através de mistura (em qualquer dos sentidos). Os seus jogos de linguagem apenas deveriam ter a ver com a procura e com a selecção de cores intermédias, ou mistas, já existentes.

12. Imagina tu que todos os homens, salvo raras excepções, fossem daltónicos quanto ao vermelho e ao verde. Ou outro caso ainda: todos os homens eram daltónicos quanto ao vermelho-verde ou ao azul-amarelo.
13. Imaginemos um povo de daltónicos, o que pode bem acontecer. Não teriam os mesmos conceitos de cor que nós. Supondo que falariam, por exemplo, alemão e teriam assim as palavras alemãs para as cores, usá-las-iam diferentemente de nós e aprenderiam a usá-las também deforma diferente. Ou se tivessem uma língua estrangeira, ser-nos-ia difícil traduzir as suas palavras de cor para as nossas.

33. Falamos da «cor do ouro» e não queremos dizer amarelo. "Cor de ouro" é a propriedade de uma superfície que brilha ou resplandece.

Carlos Bunga, Ágora.


Instalação, escultura, arquitectura. Carlos Bunga, Ágora, no átrio do Museu de Serralves.






(Clicar amplia. Fotos de Porfírio Silva)