26.1.13

o PS na oposição.

15:17



Faz-me um bocado de impressão o descaramento com que dirigentes do PSD se interessam tão de perto pela vida interna do PS. Há dias, no meio da polémica (mais inflamada do que o necessário) acerca da data do congresso dos socialistas, um dirigente da JSD apelava à substituição de Seguro, talvez para manchar com a sua companhia os que no PS são "suspeitos" de querer o mesmo. Agora é Seara a afinar pelas alfinetadas dos que gostariam que a câmara da capital fosse uma prisão para Costa.

Claro que Costa tem a sua parte de culpa nesta novela, na medida em que se encolheu no congresso passado, permitindo que agora os seus adversários internos o acusem de ter deixado a Seguro os primeiros e mais sangrentos combates para aparecer agora, quando alguns pensam que o PS está em franca recuperação (uma ilusão tão boa que parece enganar muitos).

No meio de tudo isto, para lá da rapidez com que o verniz estalou dentro do PS, com recurso aos mais estafados truques da demagogia habitual (volta a parecer que o unanimismo é que é bom, volta a aparecer quem pense que os portugueses estão interessadíssimos nos artigos e alíneas dos estatutos do partido), dando um espectáculo triste a um país que está cansado da pequena política - o que mais me espanta é outra coisa. O que mais me espanta é que, a julgar pelas declarações dos últimos dias de alguns dirigentes do PS, há pelas bandas socialistas quem se empenhe fortemente em fazer uma vigorosa oposição ao governo... de José Sócrates.

25.1.13

petição.

17:24

(Este é um assunto de cidadania, não se trata de uma questão circunscrita à comunidade científica e académica. Todos podem participar - e a mim parece-me desejável que o façam.)



à Assembleia da República.


O Conselho de Ministros decidiu em 11 de Dezembro a integração da missão e atribuições da Fundação para a Computação Científica Nacional (FCCN) na Fundação para a Ciência e a Tecnologia, IP (FCT). No Decreto-Lei n.º 266-G/2012, de 31 de Dezembro, que altera a lei orgânica do Ministério da Educação e Ciência, ficou previsto que esta integração se realizaria “nos termos a definir em diploma próprio”.

A FCCN, criada em 1986 e em cujo Conselho Geral têm assento como fundadores a FCT, o Conselho de Reitores das Universidades Portuguesas (CRUP) e o Laboratório Nacional de Engenharia Civil (LNEC), é uma entidade de natureza técnica que com grande eficiência e economia de recursos opera uma sofisticada rede electrónica de comunicações e fornece um leque alargado de serviços informáticos avançados essenciais para o sistema científico, universidades e politécnicos nacionais. Demonstrou ao longo de muitos anos capacidade de inovação na vanguarda do desenvolvimento tecnológico das comunicações electrónicas e dos sistemas de informação associados que a colocou na linha da frente das instituições congéneres que existem em todos os Estados Membros da União Europeia e em muitos outros países.

A FCCN foi avaliada positivamente no âmbito da avaliação das Fundações decidida pelo Governo há cerca de um ano e, por ofício de 20 de Setembro de 2012, foi informada da decisão do Governo de “não reduzir ou cessar os apoios financeiros públicos e/ou não cancelar o estatuto de utilidade pública”.

Para bom funcionamento da infraestrutura científica gerida pela FCCN tem sido essencial esta dispor de flexibilidade de gestão e capacidade de recrutar e renovar competitivamente recursos humanos no exigente mercado de especialistas em que também actuam as operadoras privadas de telecomunicações, o que fica comprometido com a integração num Instituto Público como é a FCT.

Por outro lado, é incompreensível que esteja a ser contemplada uma alteração que envolve um aumento de custos de administração. Na verdade, dos membros do Conselho Executivo da FCCN apenas um era remunerado pela FCCN e dois outros eram cedidos no âmbito de protocolos com universidades, e agora prevê-se o aumento do Conselho Directivo da FCT de três para cinco membros remunerados segundo regime especial ao nível de gestores de empresas públicas do grupo B em vez do nível do regime comum actual.

Neste contexto, os cidadãos e as cidadãs abaixo identificados consideram que a extinção da FCCN e a sua integração na FCT põem em risco a manutenção da qualidade dos serviços que presta e poderão conduzir a substanciais acréscimos de custos, quando for necessário recorrer ao mercado comercial para suprir a previsível degradação de serviços resultante dessa integração. Também não se percebe a razão para integrar a FCCN na FCT retirando ao CRUP e ao LNEC o envolvimento na definição das políticas gerais de funcionamento e na supervisão da FCCN, nem para alterar radicalmente um enquadramento institucional que deu tão boas provas em mais de 25 anos.

Em conformidade, e também em nome do interesse nacional, os signatários pedem à Assembleia da República para que a FCCN não seja inserida na FCT e seja mantida como entidade privada de utilidade pública, na forma de Fundação como até agora, ou, em alternativa se tal for considerado preferível, na forma de associação sem fins lucrativos cujos associados sejam a FCT e instituições científicas, universitárias e politécnicas.

Assinar a petição (clicar).

23.1.13

Prova Oral.


Está disponível a edição de ontem do programa Prova Oral (Antena 3), onde fui o convidado de Fernando Alvim e Xana Alves.

Seguindo este link, coluna da direita, secção Áudios, data 2013-01-22.

Divirtam-se.

há gente capaz de imaginar que o rato Mickey tem uma anatomia interna.

10:12




Portugal tem hoje o teste do bom aluno nos mercados.

Comentário certeiro de Silva Pereira: «As notícias não são o que parecem. É uma operação sindicada e que tem muito de artificial, que é construída e que é protegida e que, além do mais, é sobretudo sustentada naquilo que são as consequências da intervenção do Banco Central Europeu junto dos mercados e em particular do sector financeiro.»


(Imagem daqui)

22.1.13

uns dias de atraso?

21:11

Duas perguntas soltas.

1. Com o pedido para ser alargado o prazo para pagar o empréstimo da troika, Portugal deu mais um passo para a renegociação da dívida. Uma vez que muita gente defendia isso há muito tempo, o governo podia ter usado essa possibilidade como factor de convergência, como parte de um processo de apaziguamento interno. Mas optou sempre por tratar como irresponsáveis os que defendiam o que agora acabou por fazer. Terá sido o Eurogrupo a dizer a Gaspar que a guerrinha interna não justificava o custo de renunciar a obter melhores condições para o resgate?

2. O governo apanha o comboio de propostas do PS com um ano de atraso. Esta do "mais tempo" é uma delas, mas já foi antes com a história do banco de fomento, por exemplo. Provavelmente, amanhã será o pedido de juros mais baixos para os empréstimos do resgate. Isso mostra um certo tique do governo, mas não deixa de colocar também uma questão espinhosa ao PS: os portugueses não se perguntarão se a diferença entre o programa do governo e o programa do PS para a parte financeira da crise consiste apenas num certo "atraso"? A pergunta pode ser (acho que é) injusta para o PS, mas é preciso perceber se não é essa mensagem que está a chegar às pessoas.

21.1.13

Apresentação no Porto.


Nesta próxima quinta-feira, 24 de Janeiro, pelas 18h30, estarei no Porto para uma sessão de apresentação do meu livro Podemos matar um sinal de trânsito? Um divertimento político-filosófico acerca da profundidade do quotidiano.

Será na Livraria Leitura - Shopping Cidade do Porto, a apresentação estará a cargo da Professora Conceição Soares (Universidade Católica Portuguesa, Porto).

Ficam convidad@s.

(clicar na imagem para aumentar)


Porque é que os autores do blogue 31 da Armada, quando, a 10 de Agosto de 2009, subiram à varanda dos Paços do Concelho de Lisboa e hastearam a bandeira azul e branca, não restauraram a monarquia, como disseram ter feito, reclamando que foi precisamente com esse gesto que em 1910 foi proclamada a República?
O que explica que Obama tenha repetido o juramento como presidente, no dia seguinte à cerimónia de tomada de posse assistida por milhões de pessoas, desta feita sem anúncio prévio, num ambiente recatado e perante um restrito número de testemunhas?
O que terá uma câmara municipal feito para ser acusada de colocar falsos polícias na rua?
É mais fácil falsificar notas ou falsificar instituições?
Quando cai um sinal de sentido proibido, por esse facto desaparece a proibição de circular nesse sentido naquela rua?
Este livro, com um título que à primeira impressão soa estranho, “Podemos matar um sinal de trânsito?”, convoca um conjunto de factos da nossa vida colectiva, que passam nos jornais e nas televisões como episódios anedóticos, mas que descobrimos serem muito mais sérios do que parecem, desde que nos demos ao trabalho de os olharmos com olhos de ver.
O subtítulo ajuda a esclarecer o que aqui está em causa: “Um divertimento político-filosófico acerca da profundidade do quotidiano”. Neste livro, tentei que esse trabalho de perceber a profundidade do quotidiano se transformasse num prazer, pela forma desprendida como somos levados a descobrir o que pensávamos estar cansados de saber.
Sem ser um romance, este livro é como um romance: no fundo, conta uma história que queremos saber como acaba. Sem ter a forma de um ensaio, é um ensaio: tem uma tese, mas não a impõe, nem arregimenta os argumentos em ordem clássica, deixando ao leitor o trabalho, que aqui é um gosto, de descobrir o seu próprio caminho marítimo para a Índia. É um divertimento, porque divertirá o leitor tanto ou mais do que divertiu o autor, mas é filosofia por ser pensamento estruturado para lá das fronteiras das disciplinas, e é política por questionar dinâmicas profundas da nossa vida colectiva.

cortar na ciência, mais um episódio: a B-On em causa.

18:02

Por razões que não vou aqui agora divulgar, chegou-me (mais) uma informação preocupante acerca da forma como está a ser tratada a investigação em Portugal. Diz respeito, desta vez, à b-on, a Biblioteca do Conhecimento Online.

A b-on tornou-se uma ferramenta fundamental para investigar em Portugal: permite o acesso ilimitado e permanente nas instituições de investigação e do ensino superior aos textos integrais de mais de 55.600 publicações científicas internacionais (20.000 publicações periódicas, 21.700 e-books, 13.800 títulos de proceedings e transactions) de 18 editoras internacionais.
Despesismo? Nem por isso. Com a constituição da b-on, bem como com a realização de assinaturas com as editoras internacionais à escala nacional, conseguiram-se economias assinaláveis com uma redução de custos totais a nível nacional para valores entre metade e um terço do que seriam sem essa mesma b-on.
Milho a pardais? Também não. A comunidade científica nacional utiliza intensivamente este recurso imprescindível para a actividade científica diária, tendo realizado 7,7 milhões de downloads de publicações em 2011.

Ora, o que fiquei a saber hoje é uma machadada nesta ferramenta de trabalho: como consequência de uma renegociação dos contratos, os materiais publicados antes de 2005 deixam de estar disponíveis. A informação que me chegou não diz respeito a todas as áreas científicas, mas "ataca" uma das áreas científicas mais "pesadas" entre nós, pelo que é de esperar que outras não sejam menos afectadas quanto à extensão da tesourada. Não é (ainda?) a completa destruição desta ferramenta, mas é uma fortíssima limitação: não se vive só de novidades na investigação, sabiam?

Um professor e investigador, perante esta surpresa (tão brilhante novidade não foi anunciada publicamente, tanto quanto sei; foi descoberta, porque as circunstâncias da vida levaram a que a questão fosse colocada), comentou: se calhar vamos voltar ao tempo das fotocópias em papel, a fazer nas bibliotecas de campus físicos... Lembro-me do tempo em que, quando íamos a certas cidades estrangeiras, se faziam massivas compras de livros que nunca chegavam cá no circuito comercial normal (ou chegavam a preços proibitivos) e quando se visitavam certas universidades "lá fora" se faziam carradas de fotocópias, porque por cá as prateleiras das bibliotecas quase só tinham antiguidades. Lembro-me da sensação que tive quando, no início da minha estadia na Faculdade de Filosofia da Universidade de Louvain-la-Neuve, entrei pela primeira vez na biblioteca da Faculdade: volumes e volumes, de livros e revistas, que apenas tinha visto em referências bibliográficas, estavam ali numa espécie de orgia de disponibilidade para quem quisesse estudar. Pelos vistos tenho de voltar lá e renovar o meu cartão de leitor...

Espero, ansiosamente, a comunicação oficial de que tudo isto é boato, interpretação deficiente do que foi dito, uma notícia infundada acerca de mais um estrangulamento da investigação em Portugal. Por favor, um desmentido, precisa-se.