11/01/13

o estranho caso do obscuro relatório.


O relatório do FMI sobre como cortar o Estado em Portugal é um estranho objecto cheio de maravilhosas propriedades.

Desde logo, foi um maravilhoso isco: muitos dos que disseram antes que não estavam dispostos sequer a discutir a "refundação" passista do Estado como mera operação de corte de quatro mil milhões de euros... pronto, já estão a discutir. Essa é uma vitória do governo nesta história. Como podiam não discutir? É sempre má ideia jurar que não se vai a jogo, porque, quando o tema é a doer, qualquer "posição de princípio" que apareça como recusa de conversar será insustentável. Se este ou aquele partido da oposição tem exigências concretas para garantir que a discussão será justa, que coloque essas exigências, devidamente concretizadas e explicadas, em cima da mesa; o que não pode é tentar passar ao lado, porque acabará necessariamente atropelado.

Depois, o relatório revelou em poucas horas a impreparação técnica dos principais servidores do austeritarismo caseiro e internacional. A falsidade fundamental de vários argumentos "técnicos", desde o uso básico de dados incompletos ou truncados, passando pela ignorância das informações mais recentes, até ao esconder de comparações que não servem as teses pré-cozinhadas, tudo isso mostra que a falta de rigor é uma dama que acompanha muito os activistas da austeridade como instrumento de corte dos seus fatos preferidos. Ideologia pura e dura, é assim que ela se topa. Também, não é para menos: tendo o relatório sido, basicamente, soprado por ministros do PSD e do CDS, compreende-se que eles não tenham ainda acabado de virar as casacas que vestiram quando, no tempo dos anteriores governos do PS, se colocaram ao lado do PCP e do BE para atacarem as reformas que vários ministros de Sócrates tentaram aplicar de forma moderada e gradual. Já na altura, na oposição, tinham pouco tempo para estudar os assuntos, porque usavam inventar mistificações; agora, governantes, parece difícil mudar esses hábitos.

Outra maravilhosa propriedade deste relatório é mostrar, se ainda fosse preciso, a monumental mentira que foi a campanha eleitoral da direita nas últimas eleições. Se fossemos juntar todos os vídeos de declarações de Passos Coelho, em campanha, que contradizem explicitamente tudo aquilo que o PM agora acha ideias interessantes e necessárias, teríamos cinema para o resto do ano. E essa é uma questão fundamental da actual situação: o PSD mentiu, não há outra expressão, mentiu descaradamente aos portugueses para "ir ao pote" (expressão de PPC), colocando o interesse partidário acima do interesse do país. A direita escondeu o seu programa, para ganhar eleições, e agora pede ao FMI que apresente por si o seu verdadeiro programa, que pretende aprovar sem o sufragar (como ontem Pacheco Pereira fez notar). Curiosamente, a esquerda da esquerda foi a testemunha abonatória desses falsários: o PCP e o BE foram os partidos que serviram para convencer o eleitorado de que o culpado de tudo era realmente Sócrates e a sua malvadez congénita, passando a imagem de que até Passos e Portas eram menos perigosos do que o "animal feroz".

Contudo, nada disto importa. O que importa é que a esquerda tem de aproveitar esta oportunidade para responder com um programa alternativo, em vez de meras reacções, de meras atitudes defensivas. O PS, se não estivesse entretido a dar toques na bola atrás da baliza, devia convocar urgentemente uns Estados Gerais para o Desenvolvimento Justo e Sustentado, para fazer convergir o clamor da sociedade num programa de saída da crise que fosse alternativo à tarefa destruidora, irresponsável e dolorosa a que esta maioria nos está a submeter. Se não tiver unhas para isso - depois de, por mera táctica interna, Seguro ter ajudado a direita a convencer o país do seu álibi básico, segundo o qual a culpa de tudo isto é do anterior governo do PS - se não tiver unhas para isso, então o PS não serve de facto para nada do que interessa neste momento ao país.