04/05/11

se este julgamento não está nas manchetes, o país só pode estar doente

Afinal, a verdade-verdadinha, a liberdade de informar, de expressão, a liberdade criativa e essas coisas todas... eram só conversa da treta para tempos eleitorais.
Afinal, podem perseguir-se criadores, com a estranha colaboração da "Justiça" (com aspas e com maiúsculas, ao mesmo tempo, vejam bem que não há só gaivotas em terra) - e não cai o Carmo nem cai a Trindade. E não há já nenhum "Tareco" de megafone em punho a improvisar explicações e paralelos com 1640 (ou, talvez mais propriamente, com 1580).
Afinal, o fascismo nunca existiu, mesmo, como ironizava há tantos anos Eduardo Lourenço - e, mais do que isso, mesmo que ele não tenha existido nós se calhar ainda temos de lhe estar agradecidos. E quem matou e mandou matar Delgado devo ter sido eu. Talvez por isso alguns pensem que devemos pensar que Silva Pais trabalhava na Cruz Vermelha Portuguesa ou na Sopa dos Pobres e distribuía lanches às vítimas... às vítimas de quem, caramba?, se não havia fascismo e o Silva Pais só assinava papéis em branco, de quem podiam as vítimas ser vítimas? Nesse caso, não houve vítima nenhumas, pronto.
Afinal, tantos anos depois de Abril, Abril parece que foi um engano: o Salgueiro Maia veio a Lisboa comprar sapatos para os tropas dele e teve um mau encontro no Terreiro do Paço e aquilo deu para o torto e acabaram por derrubar a ditadura... não, a ditadura não se pode chamar ditadura, os pides eram tipos porreiros, os chefes dos pides não sabiam que havia uns pides malandros que matavam pessoas e quem diga agora o contrário está sujeito a ir para tribunal "responder".
Afinal, tantos anos depois, ainda precisamos ser solidários com as vítimas: neste caso, solidários com os criadores que são vítimas de uma conspiração de tolos perigosos, porque metem agentes da "Justiça" e revisionistas da história, que nem em teatro querem ouvir falar dos crimes que se cometeram neste país. Que o Carlos Fragateiro, José Manuel Castanheira e Margarida Fonseca Santos sejam levados a tribunal, por crime de difamação e ofensa da honra de pessoa falecida, o antigo director da PIDE, Silva Pais, embora esse "crime" tenha sido cometido numa obra ficcional - e isso não seja manchete em todos os jornais, para escândalo nacional, mostra que Portugal só pode estar doente.
 
(Para uma reflexão mais cuidada - que este meu texto é apenas um grito de revolta e de solidariedade - recomendo a leitura de quem sabe do que fala, sem estar sentado no banco dos "réus": JPN, aqui.)

2 comentários:

Anónimo disse...

Já tinha lido e quase nem queria acreditar. Mas, por outro lado, é a prova inequívoca da inquestionável superioridade democrática. Os sobrinhos do antigo director da PIDE podem defender judicialmente "honra e bom nome" daquele. Mas quando ele era director da PIDE, seria possível um processo judicial semelhente, para defender honra e bom nome de Mário Soares, por exemplo?
I rest my case.

António Lopes

Porfirio Silva disse...

Bom ponto, António, o da superioridade da democracia.
Mas temos de estar atentos, porque os inimigos da democracia usam a democracia para a estragar. Qualquer dia pode ser-se antifascista em geral, mas não se pode falar de ninguém em concreto.