4.10.10

soluções para a crise


Investimento sustentável. Mesmo sem contar com a poupança nos antidepressivos. E já a pensar nos mamões que querem aumentar o salário mínimo, viver à grande à conta das empresas, que são obviamente grandes clientes destes investimentos... Ou não?
(Não deixem de ler os comentários ao post acima linkado: é teoria política da melhor. Bom, não sei se é teoria política... nem sei se é da melhor... mas, teoria, teoria, pelo menos isso é...)

2.10.10

submarino ao fundo

12:26

O caso dos submarinos é exemplar a vários títulos.
Paulo Portas faz malabarismos retóricos para tentar iludir a sua responsabilidade central na encomenda dos dois exemplares que vieram complicar a vida orçamental do Estado no corrente exercício. Em substância, o que Portas fez foi tentar mentir sobre a sua responsabilidade na compra dos submarinos. Que a imprensa tenha achado graça a isso, em vez de o denunciar, é outro factor a fazer deste caso um exemplo do mal que nos assola.
Por outro lado, a compra dos submarinos é apenas mais um episódio de algo que muitos parecem não querer ver: uma certa atenção ao que o Estado gasta parece ser coisa relativamente recente na cultura política nacional. É isso que faz com que Cavaco Silva, um dos principais, se não mesmo o principal responsável pela engorda da Administração pública, fale hoje como se não tivesse nada a ver com isso. Contudo, foi esse o isco, talvez decisivo, para uma das suas vitórias absolutas. Mas a falta de memória é outro traço da coisa pública que temos.
Outro factor que vem ao de cima com o caso dos submarinos é a salgalhada política que a esquerda da esquerda aproveita para fazer com assuntos de Estado: os cartazes do BE ("nem mais um cêntimo para guerras") simbolizam aproveitar a maré para atacar de forma primária a defesa nacional: uma noção civilizada de defesa nacional, que inclui a cooperação de cada país com acções que interessam à segurança internacional para lá das nossas fronteiras.
Há, como mostra o caso dos submarinos, um clima de vale tudo na política nacional, que corre o risco de nos atirar para o fundo enquanto cantamos e rimos. Exemplo desse clima Titanic é o entendimento perfeito, para efeitos de retórica imediata, entre os que são contra o "pacote de austeridade" por acharem que alguém devia pagar aos portugueses por darmos ao mundo a satisfação de existirmos - e os que são contra por acharem que devia ter vindo mais cedo. Que ambas as "escolas" consigam dar as mãos, politicamente, para fazerem o mesmo discurso nesta situação, retrata bem o estado da nação. É a aplicação viva - e inesperada - da tese de que acabaram as diferenças entre esquerda e direita. Pelo menos entre a direita portuguesa e a esquerda da esquerda à portuguesa.

salário mínimo

12:07

Depois da Ministra Helena André ter vindo dizer que o salário mínimo nacional iria aumentar em 2011 conforme o que está acordado há uns anos entre parceiros sociais, o Ministro Teixeira dos Santos vem dizer que não, que não lhe parece que possa haver aumentos no privado quando há cortes no público. Acho mal. O próprio governo quer passar a ideia de que trata situações diferentes de forma diferente. Exemplo: no sector público só serão cortados os vencimentos acima de 1500 euros. Ora, a situação dos que ganham o salário mínimo é tipicamente diferente: experimentem viver com menos de 500 euros, ou com 500 euros, e experienciarão o que isso quer dizer. A mensagem "quando comem, comem todos" é uma mensagem desajustada do próprio discurso geral do governo. E, a usar-se, deveria ser virada preferencialmente para os lucros dos que ganham muito e pagam pouco, não para os que ganham ainda hoje menos de 500 euros por um mês de trabalho em jornada completa.

o carrão vergonhoso e a notícia que é um tratado. ou, então, miudezas


Governo compra Mercedes de 141 mil euros.

O Público noticia que a presidência do conselho de ministros comprou um Mercedes caro. A mensagem é óbvia: austeridade para o povo, forrobodó para os altos cargos. Se a mensagem não fosse essa, a coisa não seria notícia. A menos que o Público entenda que o Estado português deva mandar as personalidades estrangeiras em visita deslocarem-se de eléctrico, táxi, um "dois cavalos" talvez. (É preciso saber para que servem aqueles carros, claro.) À jornalista Maria Lopes, e à direcção do Público, parece-lhes que a coisa pode passar por notícia graças à concepção de Estado que está ao seu alcance: Portugal só se comportaria bem se se comportasse como uma loja de esquina, uma tribo qualquer perdida entre a Europa e a América. Os chefes de Estado e outros altos responsáveis que nos visitem devem ser levados a almoçar sandes de couratos na Baixa, devem dormir no parque de campismo da Praia Grande - e devem andar só por SCUT que continuem sem portagens. É por querer alimentar concepções destas - basta ver os comentários que essas notícias despertam - que os autores destes textos são sabotadores da vida em comum. São incendiários da polis: e custa a crer que o façam sem se aperceberem de que é isso que fazem. É por isso que Maria Lopes coloca "as obrigações protocolares" entre aspas: se calhar por achar que "as obrigações protocolares" só podem ser uma desculpa esfarrapada para gastar dinheiro mal gasto em grandes carrões. A falta de senso, a falta de noção do que são as realidades deste mundo, a vontade de fazer jornalismo de sarjeta que explora a ignorância das pessoas, o desejo cego de dizer mal - juntam-se para criar estes pequenos montros de letras a insultar a inteligência dos seus leitores. Definitivamente, esta imprensa despreza os seus leitores.

1.10.10

da economia como uma das ciências do artificial


Porfírio Silva, "O elo perdido das ciências do artificial (ou Da economia como uma das ciências do artificial)", in Revista da Faculdade de Letras da Universidade do Porto - Filosofia, II Série, Volume XXV/XXVI, pp. 149-162 (2010)

Pode ser lido no Issuu, aqui; ou no Scribd, aqui.