9.12.09

o que é português é mau?


Num texto sobre os erros de arbitragem do passado jogo entre Vitória de Setúbal e Sporting, encontrado no jornal i, escreve-se:

O problema é que no futebol português a lógica é diferente.

Claro, o problema é sempre português. Qualquer problema detectado ao cimo da Terra, qualquer erro, é sempre uma marca portuguesa indesmentível. Claro, esta é a terra mãe do disparate. Aliás, a ida da França ao Mundial da África do Sul, e a exclusão da Irlanda, nas condições que sabemos, foi uma aplicação do penso português fora de fronteiras. Ou não terá sido?

Quando é que jornais que queriam ser sérios se abstêm de escrever estas tolices? Será pedir demais?

antes era o tiro no pé...


... que era considerado um mau gesto. Agora o que desaconselham é o beijo no pé.





Josefa de Óbidos, O Menino Jesus Salvador do Mundo, 1673



Padre Feytor Pinto desaconselha beijo no pé do Menino Jesus.

«De facto [acrescenta o padre], todas as pessoas a beijarem o mesmo pé do Menino em termos de saúde é errado e é daí que é um conselho que damos.» Pois, é capaz de ter razão. Já quando acrescenta que «Fazer uma festa é a alternativa», é capaz de não ter tanta razão. Porque as mãos também são campo de transmissão. O melhor era mesmo deixar o Papa falar sobre o assunto, desde que no uso da faculdade da respectiva infalibilidade.
Agora a sério: é bom que os responsáveis das igrejas se preocupem com as consequências sanitárias das práticas religiosas, embora seja muita pena que nem todos - e nem sempre, e nem para todos os casos - façam isso.

8.12.09

bloco central, bloco total


Jimmie Durham (da série The Dangers of Petrification)


«Administração Pública: depois de um início "a matar", a mobilidade perdeu ritmo», titula o Público.

Entre nós, muitos bramam contra o "bloco central". Só que o "bloco central" vai do CDS ao PCP, passando pelo BE, pelo PSD... e às vezes pelo PS. É o "bloco total": ninguém arrisca outra equação de equilíbrios, com apostas mais qualificadas e mais exigentes para o futuro. E, se alguém arrisca, todos se plantam no meio da estrada para barrar o avanço. O verdadeiro bloco central é uma pedra no caminho. E uma pedra no sapato


(produto A Regra do Jogo)

3.12.09

ser um pouco tunhas

08:19
Mário Soares mostrou, há uns dias, preocupação com o estado do PSD, parece que dizendo que seria preciso ajudar esse partido a ultrapassar a crise que atravessa. Muita gente já expressou algum tipo de opinião acerca dos riscos que uma eventual implosão do PSD acarretaria para o sistema pluripartidário em Portugal. Até eu, pasme-se, escrevi há tempos neste blogue (um partido falhado?) sobre esse ponto.
Nada disto significa que tenhamos passado a ser simpatizantes do PSD, que tenhamos passado a concordar mais com ele,que tencionemos de futuro votar nesse partido. Não é esse, pelo menos, o meu caso. Significa, tão somente, que nos interessa o funcionamento de um sistema político onde as outras opiniões fazem parte do ecossistema das nossas próprias opiniões. Significa que não nos interessa nada ficar a falar sozinhos, que acreditamos na necessidade do pluralismo, que temos a noção de que o definhamento de um partido com uma presença tão forte no país não se resolverá depressa e bem num esquema partidário que (naturalmente) tem o seu grau de rigidez. E significa que temos a ideia de que isso poderia, caso não se resolvesse, ser um problema para a democracia.
Alguns, diferentemente, parecem pensar que a democracia consiste em cada um desejar que todos os partidos, excepto o seu próprio, ardam no fogo do inferno. Paulo Tunhas, que opinia regularmente no jornal i e subscreve as suas opiniões como filósofo, ou pelo menos como Professor de Departamento de Filosofia da Universidade do Porto, é talvez um dos elementos desse conjunto. Desenhei esta conjectura ao ler Tunhas a ligar um dos seus ataques pouco filosóficos ao PS com as palavras daquele Mário Soares preocupado com o PSD, misturando alhos com bugalhos e pondo em letra de jornal um pacote de banalidades. (Às vezes pergunto-me se é preciso ser um filósofo "à Tunhas" para escrever aquelas profundidades num jornal.) Ele não foi o único a querer ridicularizar Soares graças às suas preocupações com o PSD, mas, para mim, a palavra de um filósofo é sempre merecedora de mais atenção, que se há-de fazer a estas manias.
Fico agora à espera de novo artigo de Tunhas, desta feita agraciando Pinto Balsemão, que veio "alertar para o risco de suicídio do PSD". Tunhas permitirá a Balsemão estas liberdades ("Temos de sair deste lento suicídio"), com a desculpa de que ele, sendo militante, pode falar do PSD, embora os demais devam calar as suas preocupações? Ou Tunhas sentir-se-á escandalizado, mesmo assim, por haver quem diga publicamente que o actual momento do PSD é susceptível de causar perturbações à concentração dos debates nacionais nos verdadeiros problemas que nos afligem?

2.12.09

apocalipse

Servem para quê as palavras?
Para mover o mundo de tal modo que aquele sítio desejado nos entre pela nossa rua dentro, oferecendo-nos uma proximidade onde as pernas não seriam capazes de nos levar?
Para mexer naquelas partes dentro das pessoas que não vamos tocar, por respeito, mas cujo estado disposicional influi muito na possibilidade de chegar perto dessas mesmas pessoas sem ser mordido?
Para criar os deuses que surgem quando a vida se complica, e para matar pelo esquecimento os deuses que não cabem no nosso mundo quando voltamos a poder pensar sem medo e sem fome e sem frio?
Para imaginar que são inimigos os amigos, e amigos os inimigos - e para reconhecer como amigos os que o são?
Para jogar xadrez mentalmente, como o xadrez às cegas, em que os jogadores jogam "de cabeça" sem tabuleiro e sem peças físicas (o xadrez é uma actividade extremamente formalizável), mas numa variante em que todas as reflexões estratégicas para as jogadas seguintes têm de ser verbalizadas?
Para ler alto aos netos as Investigações Filosóficas de Wittgenstein e dizer-lhes que poucos romancistas alguma vez se deram ao trabalho de escrever um romance e, ainda na mesma vida, escrever outro a desdizer tudo o que dissera o primeiro - como Wittgenstein fez ao Tratado Lógico-Filosófico com as posteriores Investigações Filosóficas?
Para conversar com o pobre acerca da caridade, apenas para testar se a fome dele já é tão grave que o obrigue a aturar as nossas prelecções?
Para que servem as palavras? Para nos dar de comer ou para nos entreter quando a fome já não se aguenta?
Para que servem as palavras? Para os nossos queixumes, para usar os queixumes como manifestações indirecas e rebuscadas de ternura, como o pescador que não chega a lançar o isco à água mas canta, canta, canta para os peixes do mar, dispensando-os de ouvir sermões tão enrodilhados como os de António de Lisboa no dizer de Vieira?
E por qual razão não chega a ser viável dizer para que servem as palavras?


Óscar Salmerón, Los Cuatro Jinetes del Apocalipsis, 2009 (detalhes)
(na Arte Lisboa 2009)