10.6.07

Dia de Portugal


"José Mattoso [em A Identidade Nacional] conta-nos que um dia o rei D. Luís perguntou do seu iate a uns pescadores, com quem se cruzou na costa, se eram portugueses; e a resposta foi desconcertante e clara: «Nós outros? Não, meu Senhor! Nós somos da Póvoa do Varzim!». A resposta revela a complexidade do problema. O serem portugueses não lhes pôde ocorrer, quando a pertença à comunidade próxima é que estava presente."

Guilherme d'Oliveira Martins, Portugal - Identidade e Diferença, Gradiva, 2007, p. 16

8.6.07

Micro Audio Waves

Eles vêm aí de novo. Alerta, pois. Para ir ajeitando os nervos, fica uma das clássicas deles.



push down

gently

but firmly

until the body is fully connected


by touching

a grounded metal surface

firmly

until the body is fully connected


(excerto de “Fully Connected”, do álbum No Waves dos Micro Audio Waves)





Onde ELIZA leva à questão ética (Eliza-5/5)


Quando, a partir do programa ELIZA e das interpretações que dele se fizeram, Weizenbaum se põe a reflectir sobre o papel das máquinas programadas na sociedade dos humanos, o seu ponto central é este: certos objectivos e propósitos humanos não devem ser delegados nos computadores, independentemente de isso ser ou não ser tecnicamente possível; em certos domínios, o desenvolvimento do poder dos computadores é moralmente repugnante.


Há uma área de aplicações que é simplesmente obscena: substituir um humano por um computador numa função que careça de respeito interpessoal, de compreensão ou de amor. Exemplos: um psicoterapeuta, um juiz. Nesta categoria incluem-se também as aplicações que “representam um ataque à vida”, como seja um projecto (então em vista) para ligar o cérebro e o sistema visual de um animal a um computador. Outra área de aplicações computacionais deve ser evitada, ou pelo menos desenvolvida com particular atenção, devido aos efeitos indirectos que pode despoletar. O exemplo dado é o do reconhecimento automático da fala, porque isso facilitaria aos governos o controlo das comunicações entre os cidadãos, com uma eficácia sem precedentes e com a consequente invasão de privacidade.


O ponto, para Weizenbaum, é que a relação dos humanos com o mundo é específica à condição humana. Mesmo que uma máquina possa ser suficientemente desenvolvida para ser considerada um tipo de animal (por exemplo, sentindo e agindo sobre o ambiente, sendo modificada pelas suas experiências no mundo, adquirindo algum tipo de sentido de si), mesmo assim cada espécie é socializada de uma determinada maneira. Os humanos tornam-se humanos em sentido pleno sendo tratados como seres humanos por outros humanos (por exemplo, sendo alimentados, protegidos e acarinhados desde a mais tenra infância) – e esse processo, que depende largamente de termos corpo, não é transferível “por programação” para uma máquina. Qualquer inteligência da máquina é uma inteligência que nos é estranha, porque os problemas da máquina não são os nossos problemas, escreve Weizenbaum em 1976.


A questão, para Weizenbaum, é ética: ele não pode admitir a pergunta que McCarthy um dia lhe fez: “O que é que um juiz sabe que não possamos ensinar a um computador?” – porque a resposta implícita era “Nada!”.


Logo em 1976 Weizenbaum viu aspectos importantes do problema. Em alguns aspectos a sua perspectiva ética já terá talvez sido derrotada (provisoriamente?). Mas o ponto continua a merecer reflexão.

7.6.07

Einstein recomenda este blogue



O que os computadores podem mas não devem fazer (Eliza-4/5)


Em 1976, Joseph Weizenbaum publica Computer Power and Human Reason. Um dos pontos de partida dessa obra é o seu programa ELIZA e as reacções que o programa provocou - e que o chocaram.


Primeiro, muitas pessoas usando o programa envolviam-se emocionalmente na situação, como se estivessem mesmo a consultar um psiquiatra, chegando ao ponto de querer ter privacidade para os seus “diálogos” (o que aconteceu com a própria secretária do programador, apesar de ela “saber” perfeitamente quem tinha feito o ELIZA).

Segundo, aparecerem psiquiatras no activo a sugerir seriamente que o ELIZA podia ser desenvolvido para ser transformado numa forma automática de psicoterapia. Um dos exemplares mais notáveis é K.M. Colby, que desenvolveu ainda nos anos 1960 programas de análise da neurose, começando com um programa que “tratava” de uma mulher que acreditava que o seu pai a tinha abandonado, mas não aceitava conscientemente que o odiava por isso.

Terceiro, muitos investigadores consideravam que o ELIZA abria uma via promissora para a resolução do problema da compreensão da linguagem natural pelos computadores.


Este conjunto de reacções ao ELIZA, atribuindo maravilhas à sua obra que ele próprio negava veementemente, levou Weizenbaum a interessar-se pelos problemas suscitados pela facilidade com que as pessoas fazem atribuições extraordinárias a uma tecnologia que não compreendem. Postas as coisas nesses termos, não lhe basta a questão “técnica” de saber o que os computadores serão ou não serão capazes de fazer: quer averiguar a questão mais central de saber o que os computadores devem ou não devem ser autorizados a fazer em substituição dos humanos. A sua resposta é clara: certas áreas da acção humana não devem ser entregues nunca à máquina.


Amanhã veremos o seu argumento um pouco mais em pormenor.


[Próxima nota desta série: Onde ELIZA leva à questão ética.]