Evidentemente, a vitória de Lula - ou, se preferirem, a derrota do clã Bolsonaro/Trump - foi um grande alívio. Quase 4 milhões e meio de votos suplantaram o candidato da extrema-direita, o candidato da mentira sistemática, o candidato da corrupção sem vergonha disfarçada de retórica contra a corrupção, o candidato da submissão ao louco que ocupa a Casa Branca. Estas disputas eleitorais têm grande significado na medida em que há candidatos que partem para a contenda na disposição de respeitar a vontade do eleitorado - é o que fazem os candidatos democratas - e há candidatos que só respeitam os actos eleitorais em que eles próprios sejam vencedores. O Bolsonaro de turno já está a contestar a eleição que perdeu, como outros fizeram antes. É uma luta desigual onde os democratas partem em desvantagem. Até por isso, alívio é a palavra certa para descrever o que sentimos ontem à noite, com a vitória de Lula.
De qualquer modo, estes cenários eleitorais extremamente polarizados traduzem vidas especialmente difíceis para as democracias. É a própria essência das democracias representativas, tal como as conhecíamos, que está em causa - mesmo quando vencem "os bons"! Expliquemo-nos.
Cada eleição tem (deve ter) um pressuposto fundamental: depois desta haverá outra. Quer dizer: um perdedor hoje pode ser vencedor amanhã, porque a sua acção cívica e política vai poder continuar, porque o vencedor será escrutinado e sujeito a limites legais dos seus poderes, porque a capacidade para cumprir o que prometeu e obter resultados vai ser apreciado e sancionado pelos cidadãos numa próxima etapa de renovação dos mandatos. A linha de segurança da convivência é a continuidade das instituições democráticas. E o vencedor também terá de ter isso sempre presente, impedindo-o de se acomodar no exercício.
Deste pressuposto fundamental decorre que perder uma eleição não seja o fim do mundo. Perder uma eleição tem o custo de atrasar o caminho de algumas das nossas ideias acerca da melhor organização da sociedade, de dar seguimento a algumas políticas públicas que julgamos nefastas ou simplesmente ineficazes, até de termos de conviver com pessoas que julgamos menos capazes ou menos recomendáveis. Mas perder uma eleição não é irreversível, pode ser corrigido, nem sempre os nossos piores receios se concretizam (embora, por vezes, o mau seja pior do que o prometido). Uma derrota é possivelmente passageira ou episódica. E, provavelmente, concordamos até com muitos aspectos da mundividência do adversário, aceitamos que algumas das suas ideias são boas, talvez até concedamos que alguns dos seus projectos remendem situações que nós não fomos capazes de resolver no nosso turno.
Isto é: numa democracia madura, a maior parte das viragens políticas são significativas - traduzem a existência de alternativas, concretizam renovação do pessoa político - mas não são dramáticas. Aquilo em que o vencedor e o perdedor concordam é, muitas vezes, tão extenso como as matérias de discordância. Mesmo que as discordâncias sejam muito relevantes e representem visões de sociedade distintas, ninguém pode, num mandato, apagar todos os caminhos alternativos.
O problema é que se isto acontecia, nas chamadas "democracias ocidentais", como cenário predominante, isso deixou de acontecer.
Os casos do Brasil ou dos EUA mostram que o lugar das eleições no sistema político mudou. Quem perde teme perder tudo: não apenas perder uma oportunidade temporária de implementar as suas ideias para as políticas públicas, mas perder definitivamente o seu lugar no mundo. Com candidatos como Trump ou Bolsonaro, em cada eleição arrisca-se perder a democracia, arrisca-se perder um mundo de respeito pelos cidadãos, arrisca-se cair numa ditadura eleitoral onde a repetição de actos eleitorais esconda a subversão continuada das garantias constitucionais mais fundamentais. As instituições democráticas, mesmo em países onde elas pareciam bem enraizadas, mostraram-se frágeis perante aquelas que apenas as usam como andaimes do poder pessoal, quando não como ferramentas de enriquecimento pessoal e dos apaniguados.
A polarização destruiu aquela tranquilidade democrática. A polarização usa como ferramenta, e tem como resultado, que a vitória de um lado é a negação absoluta do outro. O que seria sempre transitório, de eleição para eleição, querem alguns que seja definitivo. Perder é dramático por representar a ruptura violenta com a convivência cidadã. Em democracia, uma derrota não devia ser o fim do mundo. Mas quando uma eleição é uma escolha entre a mínima respiração democrática e a completa manipulação do poder por clãs de usurpadores - é todo o nosso mundo que está em causa.
Então, e em conclusão: aliviados pela vitória de Lula, como estamos, não podemos deixar de reconhecer que é um péssimo sinal dos tempos que uma eleição seja tão ameaçadora, que metade de um país se sinta ameaçado por um mero resultado eleitoral. A tarefa dos democratas não é, "apenas", continuar a ganhar eleições contra os inimigos da democracia. A tarefa dos democratas é, também, tornar as instituições democráticas mais resistentes aos seus inimigos de dentro.
Porfírio Silva, 26 de Outubro de 2026


