7.1.21

Trump e os partidos

10:54


Em vez de nos limitarmos a detestar Trump, talvez aproveitar para pensar...

Uma das vantagens das organizações políticas (designadamente, partidos políticos, mas não só) é que nelas se fazem percursos de intervenção pública que, mais tarde, podem ser escrutinados. Por exemplo: quando um militante do PS se apresenta a umas eleições na cidadania (local ou nacional), não se apresenta virgem politicamente: o seu partido já fez, numa história relativamente longa, obras positivas para o bem comum e, também, erros e disparates. Quando se apresenta, é julgado por isso, pela obra do colectivo a que pertence. E também é julgado pelo seu posicionamento individual: apoiou este, não apoiou aquele, defendeu a política X e atacou a política Y, desempenhou bem ou mal este ou aquele cargo, ou nunca desempenhou cargo nenhum e por quê. Os partidos políticos diminuem a incerteza na avaliação dos candidatos e fornecem informação aos eleitores, pela via descrita.

Por essa via, os partidos políticos prestam um serviço à democracia. Ajudam a evitar as aves de arribação. Ajudam a filtrar os oportunistas, que tudo podem prometer porque ninguém conhece o que andaram a fazer antes - ou o que fariam se tivessem qualquer poder, maior ou menor.

Em parte, Trump chegou onde chegou porque apareceu directamente de fora da política partidária, sem passado onde se tivesse podido ver quem o personagem realmente era, quais eram os seus métodos. Sabia-se que era um empresário de mau calibre, mas nunca se tinha visto como era com poder político nas mãos. Esta análise está feita há muito tempo: Trump chegou onde chegou porque os partidos dominantes nos EUA são cada vez menos verdadeiros partidos, são cada vez mais meros agregados de campanhas do momento, sem real vida colectiva. Foi esse deslaçamento do (neste caso) Partido Republicano que abriu o caminho a Trump. É como comprar um emprego, em vez de ter de mostrar e defender o CV.

Valia a pena pensarmos nisto. Especialmente quando está tão na moda atacar os partidos. É que cuspir em Trump não chega: é preciso pensar no que significa tudo aquilo.

Porfírio Silva, 7 de Janeiro de 2020
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