19.12.16

esclarecimento do Teatro da Cornucópia



Os responsáveis pelo Teatro da Cornucópia, Luis Miguel Cintra e Cristina Reis, divulgaram há pouco um esclarecimento sobre o que se tem estado a passar em torno da companhia. Constatando o nível de especulação que o assunto tem suscitado, com alguns a colocar na boca de Cintra palavras que ele não proferiu - e intenções cuja atribuição é puramente difamatória -, senti dever colocar aqui o texto desse esclarecimento. É como segue.

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Perante a lamentável confusão gerada nos órgãos de comunicação social pela inesperada visita do Senhor Presidente da República ao Teatro da Cornucópia, vemo-nos forçados a esclarecer a presente situação.
Ao longo dos muitos anos de dependência financeira do Estado, reivindicada como indispensável, várias vezes afirmámos, em pedidos de subsídio e relatórios, que as verbas concedidas eram insuficientes para o projecto de, ao nosso modo, fazer teatro.
Quando essas mesmas verbas atribuídas para financiamento das estruturas sofreram sucessivos cortes e tendo elas há três anos chegado a um valor visivelmente insuficiente, vimo-nos obrigados a rever escolhas de programação e respectivas formas de produção, de modo a sempre viabilizar os nossos projectos. As co-produções, bem como alguns apoios pontuais como os da CML e dos Amigos da Cornucópia, contribuíram para a sustentabilidade do funcionamento do Teatro da Cornucópia.
Antes do cumprimento do último ano do quadriénio a que estávamos vinculados, considerámos já a possibilidade de o não praticar, por considerar que era já difícil o seu pleno cumprimento. Mas insistimos em continuar. A evidência, porém, da situação limite das nossas possibilidades de assegurar, neste quadro de financiamento, o cumprimento de novos projectos, e tal como dissemos na divulgação do espectáculo apresentado neste último sábado, considerámos como incontornável o fecho da empresa Teatro da Cornucópia.
Tinha já sido esta a decisão, anteriormente, comunicada informalmente ao Secretário de Estado da Cultura e que mais tarde foi a razão da reunião havida no fim de Outubro no Palácio da Ajuda, com a presença de uma representante da CML. Foi então por nós levantada a questão que se prende com a CASA, edifício excepcional que ocupamos e onde sempre trabalhámos. Com tudo que ele contém. Exprimindo um desejo de que pudesse ser aproveitado para fins culturais, não deixando que esse património viesse a constituir somente um valor capaz de colmatar indemnizações aos trabalhadores, a única dívida que a empresa que se extingue não tem porventura capacidade de resolver. Entendemos que de momento a intenção do Ministério é a de assegurar um ano de renda no sentido de se proceder a um inventário rigoroso do património.
Na véspera do passado Sábado, (Recital Apollinaire e lançamento do segundo Livro do Teatro da Cornucópia/Espectáculos 2002-2016 e de um DVD), foi-nos comunicada a visita do Senhor Presidente da República, que, antes do espectáculo, queria inteirar-se da situação.
Desse momento surgiu um tema que se prende com a questão de um estatuto de excepção para o Teatro da Cornucópia, capaz talvez, de viabilizar a sua continuidade. Surgiu o equívoco de que poderíamos mudar de opinião. O que levou o Senhor Ministro da Cultura, também presente, a admitir que o tivéssemos feito. E parece não se ter restabelecido a única versão correcta que existe, porque infelizmente a dúvida já não se põe: o Teatro da Cornucópia acaba no princípio do ano, na realidade já acabou. Com a mudança do Governo, a situação não se alterou. Disse o Senhor Ministro que o assunto estava a ser acompanhado, estudado. Haverá por isso um próximo encontro com os representantes do Ministério da Cultura.
Não se tratará, portanto, agora de um estatuto de excepção, porque somos provavelmente excepção. A empresa dissolve-se nos próximos dias, dependendo apenas de procedimentos legais que terá de cumprir.
Às pessoas que elegemos para nos governarem e que se dispõem a ouvir-nos, não nos passa pela cabeça mentir. Para com eles, para com todos, mantivemos sempre as mais leais relações. Assim foi, assim será.
Pelo Teatro da Cornucópia,
Luis Miguel Cintra e Cristina Reis


19 de Dezembro de 2016

18.12.16

a Cornucópia e o bem público





Não descobri o teatro na véspera da comoção. Não descobri o Teatro da Cornucópia na semana passada.
Não fui ao velório de ontem, desde logo porque os compromissos com amigos me merecem tanto respeito como as instituições. Mas fiquei descansado em não poder ir quando antecipei que a ocasião iria ser mais um palco para algo que Eduardo Paz Ferreira descreveu, noutro contexto, como alguém “extravasar os seus poderes constitucionais”.
Sou um admirador declarado de Luis Miguel Cintra, sem nunca ter regateado críticas, críticas estéticas ao seu trabalho ou críticas cidadãs ao seu posicionamento. Não preciso, portanto, de me armar em guardião da fortaleza (ninguém me credenciou para isso), tal como não preciso de me armar em consciência crítica de coisa nenhuma.
Já subi ao palco da Cornucópia, graças à generosidade da companhia, como amador (amante) de teatro. Não subi ontem ao palco da Cornucópia como predador, em exercício de doentia insistência na política como espectáculo.
É, pois, neste quadro que sinto dever dizer o que segue.
A Cornucópia é património nacional, não pode ser deitada fora. A Cornucópia é uma instituição, não pode ser descartada.
Mas, por muito que admiremos e amemos Luis Miguel Cintra (como é o meu caso), a Cornucópia não é Luis Miguel Cintra. Não haveria esta Cornucópia sem Luis Miguel Cintra? Não. Tal como não haveria esta Cornucópia sem Cristina Reis. E fiquemos por aqui de nomes. A instituição que tem de ser preservada, para lá de quem a fez ser o que é, é a companhia de teatro. É o que o Luis Miguel e a Cristina e os outros ensinaram aos mais novos. É o rasto que criaram e que se não pode deixar apagar. Todos um dia deixamos de fazer aquilo que andamos uma vida a fazer. Se a nossa obra morre de súbito, connosco, em algo falhamos. Há valores novos no universo da Cornucópia, como o próprio Luis Miguel tem dito publicamente. Então, é preciso garantir, não que o Luis Miguel viva eternamente, mas que os mais novos que lá andaram a aprender possam continuar, renovar, aprofundar o que a Cornucópia é. Só assim se pode tirar a prova dos nove de que a Cornucópia se tornou uma instituição. Neste caso, a prova dos nove será a prova dos novos.
Luis Miguel Cintra tem sido muito claro e muito honesto nas declarações que tem feito, ao explicar que, depois das provas que deu e nas condições em que está, não tem mais ânimo para se desgastar em burocracias. Compreendo. Não pode ser obrigado a isso. Aliás, ver um organismo oficial reagir citando os números dos apoios à companhia teatral, num salivar muito típico da burocracia quando pretende linchar algo ou alguém na praça pública ("vejam lá estes tipos que vivem à conta do nosso dinheiro e ainda se queixam"), é muito ilustrativo. Como alguém já escreveu, é incompreensível que uma companhia como a Cornucópia continue a ter que "demonstrar" o valor do seu trabalho cada vez que pede apoios. Mas nada disto se resolve com um estatuto de excepção.
Se há regulamentos, procedimentos, leis injustas – mudem-se, não para a Cornucópia, mas para todos. Quando Nuno Crato dizimou dezenas de centros de investigação no nosso país, justificava-se com a excelência: só ficavam os excelentes. Era uma irresponsabilidade, porque nenhuma instituição é excelente no meio do deserto. Nenhuma instituição é excelente sem estar num meio-ambiente diversificado. As leis, os regulamentos, os procedimentos – têm de respeitar e promover essa diversidade, não apostar na monocultura em que todos têm de ser iguais, de reproduzir o mesmo padrão, de falar para o mesmo público. Mas o conjunto tem de ter uma lógica, argumentável e escrutinável – coisa que não se pode substituir por excepções pressionadas por qualquer tipo de demagogia.
A Cornucópia fará um teatro elitista? Talvez. Mas há que ter algum cuidado com esse argumento. Temos, por exemplo, a televisão que temos, "porque estes são os programas que têm audiências". Aquilo que falta, poucos acham que falte - logo, não faz falta. Pela mesma lógica, há quem já tenha defendido que cursos como história ou filosofia não têm razão de existir. É pela mesma lógica que, agora, alguns dizem: essa companhia de teatro nunca procurou o grande público, portanto, que se dane. Verdade, verdadinha: o capitalismo mais primário ganhou (provisoriamente?) a batalha das mentalidades, convencendo tantos de que o valor de um bem cultural depende de quanto dele se pode vender com lucro. Por este andar, há muito por onde começar a dizimar (hoje liquidamos a Cornucópia, amanhã liquidamos a ópera, depois o ensino do latim e do grego clássico,…).
O Estado tem uma responsabilidade em não deixar morrer a Cornucópia? Tem. Tal como nós, os espectadores. Tal como a própria Cornucópia tem, também, a obrigação de não deixar morrer uma instituição que deve ser mais do que os seus génios criadores.
Algo que deixo dito constitui uma solução para o problema? Não. Mas pretende constituir um alerta para a natureza do problema, um alerta nascido na mente de alguém que não se conforma com o fim da Cornucópia, mas que, ao mesmo tempo, não vê isto como um caso particular, antes como uma questão atinente ao bem público. E que, como tal, não pode seguir apenas o caminho dos nossos sentimentos, mas deve seguir também os caminhos da nossa racionalidade partilhada.

18 de Dezembro de 2016