19.7.14

metade de nós... estamos a mais ?

13:04



Avaliação da FCT definia à partida que metade dos centros de investigação ficaria pelo caminho.


Leio no Público (recortes, sublinhados meus):

A avaliação em curso pela FCT definia mesmo antes de arrancar que cerca de metade dos 322 centros de investigação portugueses seria afastada da fase seguinte do processo, onde vão estar em jogo a maior parte dos 50 milhões de euros anuais que os laboratórios vão ter para despesas correntes entre 2015 e 2020. É o que está escrito no contrato que a Fundação para a Ciência e Tecnologia (FCT) estabeleceu com a European Science Foundation (ESF), à qual delegou a organização da avaliação dos laboratórios, e que foi tornado público esta sexta-feira à tarde pela fundação portuguesa que financia a ciência.

Alguns avaliadores externos anónimos tinham deixado transparecer nos seus relatórios de avaliação, e que foram entregues aos centros, que receberam indicações para baixar certas notas por causa da existência de quotas. Esta acusação foi refutada pelo presidente da FCT, Miguel Seabra, na entrevista que deu ao PÚBLICO na quarta-feira (publicada agora nestas páginas), considerando-o “totalmente descabida”.
Esta sexta-feira, após a divulgação dos contratos, o PÚBLICO questionou novamente a FCT sobre a definição prévia de uma quota de sucesso. A fundação, através da sua porta-voz Ana Godinho, justifica que aquele valor dos 163 centros era apenas “uma estimativa” feita com base na avaliação de 2007: “[Nessa altura] cerca de 50% das unidades teve Mau, Razoável ou Bom.”

Gato escondido com rabo de fora?

Carlos Fiolhais [um dos que levaram Crato ao colo para o governo]: “Isto significa encerrar centros de investigação produtivos, apenas porque não cabem nas quotas arbitrariamente definidas. Significa uma ciência mais pequena, mais provinciana, com o poder mais concentrado, mais semelhante à ciência do Estado Novo. A investigação em Portugal ficará restrita a um clube mais reduzido.”

Arsélio Pato de Carvalho, fundador no final dos anos 1980 da instituição que hoje é o Centro de Neurociências e Biologia Celular de Coimbra: “O que se está atentar fazer é apoiar exclusivamente unidades de excelência. Sempre fui pela excelência, mas não podemos ter só excelência. “Imagine um cientista excelente, mas tudo à sua volta está seco. Tem um oásis num deserto”.

Espera-se pelo dia em que decidam que só metade do país vale a pena. E comecem a atirar a outra metade para a água. De preferêcnia começando pelos que não sabem nadar, porque a eficiência deve prezar-se acima de tudo.

18.7.14

F.C.T. passa a chamar-se A.C.T. (Agora a física.)

12:09


O Ministro Crato e a sua máquina de lagartas continua a missão de destruir a ciência em Portugal.

Passo a citar:

O LIBPHys, coordenado por Joaquim Santos, um dos físicos portugueses com mais publicações (tem trabalhado em Física Experimental com um Nobel alemão, tendo os seus trabalhos sobre o raio do protão chegado recentemente à capa da Nature) é o resultado da fusão do Centro de Física Atómica de Lisboa (Universidade de Lisboa e Universidade Nova de Lisboa) e do Centro de Instrumentação da Universidade de Coimbra. Dois centros pequenos e bem classificados juntaram-se para formar um maior, de acordo com as recomendações da FCT. A ele juntaram-se quase todos os restantes membros doutorados do Departamento de Física da UNL e os seis membros principais da UICOB - Unidade de Investigação em Ciências Orais e Biomédicas (da Faculdade de Medicina Dentária da Universidade de Lisboa).

Terão tido, portanto, uma excelente avaliação, certo?
Certo.
Volto a citar:

O primeiro painel da ESF - European Science Foundation deu as notas de 18, 16 e 20 (no total de 20 valores). A média é de 18 valores. Dos três especialistas anónimos, um deles deu o máximo possível, um caso muito raro.

História feliz, portanto. Justiça.
Não !

Pois não serviu para nada. O painel, onde a Física estava subrepresentada (estava não só pouco como mal representada) anulou aquelas notas e impediu aquele centro excelente ou talvez mesmo excepcional de passar à segunda fase. Deu-lhe "Bom", o que significa Péssimo na escala da FCT, com uma esmola de 20.000 euros (que não dá nem para apurar o raio do protão, no consórcio internacional, nem para participar nos outros projectos internacionais em que os investigadores estão envolvidos). O painel ignorou quase completamente o valor e sucesso do centro e menosprezou a sua evidente visibilidade internacional. Há erros grosseiros no que respeita à contagem do número de publicações: deve ter sido feita à pressa, pois o erro é de um factor de dois (2).

A história está contada no De Rerum Natura: Mais um caso escandaloso na Física.

A Fundação para a Ciência e a Tecnologia (FCT) deveria passar a chamar-se Afundação da Ciência e da Tecnologia (ACT).


17.7.14

os fundos europeus e a propaganda.

10:50


Escrevem os jornais que "o Governo português e a Comissão Europeia fecharam na tarde desta quarta-feira, em Bruxelas, o acordo de parceria sobre o novo quadro comunitário de apoio que vai vigorar até 2020, sucedendo ao actual Quadro de Referência Estratégica Nacional (QREN)". (O exemplo é do Público.)

As informações de que disponho (ainda sobrevivem alguns contactos do tempo em que trabalhei na máquina comunitária) é que isso é pura conversa política. A negociação não está fechada, está a decorrer (mais do que a correr); há ainda elementos que o governo português tem de transmitir à Comissão Europeia antes de que o acordo esteja fechado (antes de que a Comissão dê o seu OK).

Claro que, quando os interlocutores são políticos portugueses da mesma "família política" (neste caso, a família laranja) sentados em diferentes cadeiras rotativas, tanto do lado português como do lado da Comissão, é possível criar estas conversas para dar títulos de jornal convenientes. Mas, apesar do empenho dos sequazes de Durão Barroso para fazer à função pública europeia o que fizeram à função pública portuguesa, ainda não é fácil meter os serviços da Comissão a marchar à voz do ex-primeiro-ministro de Portugal mais conhecido por estar sempre num emprego à procura do emprego seguinte. Os procedimentos são os procedimentos. E não há acordo antes de estar tudo esclarecido. Neste caso, se o governo português fizer o seu trabalho de casa, talvez o processo esteja fechado lá para Setembro.

Francamente, não percebo porque é que eu posso fazer uns telefonemas para Bruxelas a fazer umas perguntas de verificação, a mim que ninguém me paga para isso - e os jornalistas se limitam a ouvir e a reproduzir aquilo que o governo quer que se diga num dado momento, por conveniência de calendário.