14.6.14

ganhar o país na secretaria não é ganhar o país.

11:14

A parte estatutária do processo político actualmente a correr no PS merece uma interrogação: será que António José Seguro passou os três anos de auto-inflingida anulação a magicar umas regras internas que, em vez de se destinarem a tornar o PS mais ágil e mais lúcido a responder às necessidades do país, se destinariam a proteger a direcção do juízo dos próprios militantes do partido?
É que certas disposições estatutárias podem acabar por revelar-se impróprias para fazer face a circunstâncias imprevistas (não há juristas perfeitos), mas isso pode reconhecer-se e corrigir-se, desde que todos estejam focados nas responsabilidades de um grande partido democrático face ao país. Coisa diferente é perceber-se, pelo andar da carruagem, que os estatutos foram imaginados propositadamente para serem uma espécie de fosso dos jacarés entre o mundo e o quartel-general do dignitário em exercício.
É que, quando se pensa nisto a par com a ideia de reduzir o número de deputados (cujo único efeito notável seria tentar eliminar a diversidade parlamentar à esquerda), teme-se que haja uma linha de rumo cuja essência é tentar ganhar qualquer batalha política na secretaria. E esse temor é um temor pela qualidade da democracia.

11.6.14

dedicado a uns livros de poesia que devem ser magníficos, espero que não por andarem sempre desaparecidos em parte incerta, mas não sei porque não consigo chegar a vê-los.

14:41


O TEMPO

O tempo é um filtro suave e espesso
que nunca te diz francamente “não”:
essa seria uma desajeitada confissão dos episódios por vir.
O tempo é um par de guardanapos embrulhando as tuas mãos,
dobrados em cones de pano que guardam cada ramo de dedos
na forma de terminações inúteis, pontiagudas,
como se servissem uma ameaça de sevícias. Como se vissem,
em serem lanças curtas, a cautela do mundo.
Os teus membros continuam intactos,
promessas actuais de agarrarem o pão e a sopa
que nos trouxeram aqui, à Mittleleuropa:
ainda prometem colher o necessário
para matar a fome, mas o pano do tempo,
como uma máquina agarrada às tuas mãos,
envolvendo as tuas mãos como um protector passivo,
faz de ti um espectador.
Se quiseres ainda comer terás de baixar a boca às terrinas, como gamelas,
como um selvagem.
O tempo é um dispositivo que abre os braços para te mostrar
toda a extensão do momento presente
como se ele fosse por natureza um país sem fronteiras,
aberto, plano, transitável, receptivo,
mas depois coa todos os efeitos dos teus gestos
até o mundo se tornar igual
a um universo paralelo onde tivesses simplesmente renunciado.
O tempo é uma manta delicada e densa
que cobre as pessoas estaladiças
para nos proteger de riscarmos o mundo.
No fim dos tempos, fomos todos espectadores.



(ilustração: Michaël Borremans, Time, 2007, lápis e tinta branca sobre papel)

Portugal deve ser o único país onde existe um mercado negro de livros de poesia.


E isso não me parece nada poético.

Porque quando a feira do mundo chega à poesia, a poesia saiu, calada, do mundo.

10.6.14

ainda o desfalecimento.

16:42

I.

Parece que aconteceram hoje coisas politicamente graves.
Por exemplo, uma jornalista da RTP tentou, em directo, lançar as culpas do desfalecimento de CS sobre os manifestantes.
Por exemplo, parece que houve seguranças da PR que mandaram (ou tentaram mandar) fotógrafos apagar as imagens que tinham feito do desfalecimento.
Entretanto, há quem ache que pensar politicamente no assunto é achincalhar o homem que desfaleceu em público, inclusivamente usando imagens dele para o parodiar.
A desculpa da "crítica política" não vale tudo. E não nos deve impedir de pensar.


II.

Parece que ainda há quem ache que relevante foi Salazar ter caído da cadeira.
Não foi.
Relevante foi isso não ter dado ocasião a uma verdadeira transição.
Olhar para a história como uma sucessão de anedotas é o grau mínimo da política.


III.

Respondendo a uma pergunta: sim, eu acho que o humor tem limites. Não defendo que tenha limites legais, mas acho que tem limites. E não somos obrigados a engolir tudo o que se apresente sob a capa do humor. Especificamente, sinto-me tão livre para criticar uma peça de humor como para criticar um político ou um sociólogo ou qualquer outra pessoa que partilha a sua visão do mundo. Ou ainda não perceberam que o humor vive dentro de visões do mundo?

o desfalecimento.

14:54

Discordo de Cavaco Silva praticamente em tudo. Mas acho lamentáveis as paródias que já correm sobre o seu desfalecimento. Repugna-me especialmente o uso desbragado de imagens do momento.

o PSD no confessionário de Teresa Leal Coelho.

14:37

(recorte roubado à Shyznogud)


A fábula do Orçamento que caminhava despreocupadamente pela floresta e foi apanhado pelo Lobo Mau (o Tribunal Constitucional), costumava ser contada embrulhada na seguinte moral: a culpa é dos juízes do Constitucional que agem motivados politicamente. Diga-se: motivados politicamente contra este governo. Como a maior parte das pessoas não sabem que a distribuição de votos no TC desmente completamente essa leitura - porque não se encontra nenhuma correlação estável entre quem indicou qual juíz e a forma como eles votam - , o argumento tendia a captar a atenção de alguns. A maioria de direita fazia de conta que queria juízes que pensassem juridicamente, em vez de pensarem politicamente. Embora estivesse à vista de todos que a mesma direita faz imensa pressão política - mais do que jurídica - para tentar condicionar os juízes. Na nuvem de fumo que se tornou a política nacional, ajudada por aqueles "comentadores" e "jornalistas" que acham uma trabalheira fazerem a sua própria análise dos acontecimentos em lugar de comerem e vomitarem a pastilha mais à mão, esta narrativa sobrevivia.
Teresa Leal Coelho vem dar novas cartas para o jogo. Afinal, a direita queria era juízes que pensassem politicamente - não juridicamente; politicamente, mas com o enviesamento que o seu partido recomenda. Há uma coisa que é "a visão reformista de Portugal", o seu partido acha que é o oráculo na Terra desse deus, eles escolheram gente que serviria esse deus... e, afinal, essa expectativa de que os juízes fariam o possível para servir a tal "visão", gorou-se. Eles queriam juízes políticos e o esquema não resultou.
É importante perceber isto. Porque representa uma viragem na narrativa. Porque pode indiciar que a direita quer mudar a natureza do TC, acabando com essa bizarria de os juízes raciocinarem juridicamente e não partidariamente.

a política anti-políticos.

14:04

Cavaco Silva (não, o tema não é o desfalecimento, não é a primeira vez que ele desfalece em público, isso não tem nada a ver com política, não falo da pessoa privada) e o cavaquismo, se alguma coisa têm como linha duradoura da sua narrativa de sempre, é o discurso anti-política. Cavaco Silva, um dos políticos que mais tempo ocuparam funções da mais alta responsabilidade política em Portugal, andou décadas a tentar vender a sua imagem como sendo ele um não-político. Para essa operação de combate político ser rentável, tinha de vir acompanhada de uma recorrente crítica "aos políticos". Para ele ser melhor que os outros, os outros tinham que ser, genericamente, uns canalhas. Essa operação tem raízes no mais profundo do que ficou do salazarismo: devem mandar os que servem "o bem" (a Pátria, talvez Deus), nunca "os políticos". Quem quer atacar a democracia, se o quer fazer em profundidade, ataca os políticos: porque sem políticos não há democracia (embora fosse desejável que a política fosse mais feita por todos e menos feita por alguns). Esta guerra aos políticos, além de ser um estratagema de propaganda essencialmente anti-democrático, é instrumental noutra direcção fundamental: facilita a tentativa de desqualificar as diferenças programáticas e de diabolizar os interesses diferentes: se eu "interpreto o bem", quem se me opõe é, por definição, um defensor do mal.

Felizmente, poucos políticos têm tentado replicar esta estratégia entre nós.

Felizmente, nunca nenhum dos maiores partidos da esquerda portuguesa tentou a cartada anti-políticos.

Infelizmente, a campanha de António Seguro por uma vitória no PS está a lançar mão da cartada anti-políticos. Como se a política fosse um mundo de porcaria e António Seguro fosse uma ilha de honestidade neste mundo. Infelizmente, essa cartada, sendo radical, serve apenas para justificar o radical apego à cadeira: quer dizer, o uso de todo o tipo de expedientes (designadamente, truques pseudo-legalistas) para evitar um debate político em campo aberto e sem armas escondidas.

A tentação de alguns políticos para se fazerem passar por uma espécie de maravilhas do universo, insubstituíveis e indiscutíveis, ainda não morreu. Infelizmente.

de quem é a RTP ?

11:06

Cavaco Silva discursa no 10 de Junho. Há um grupo de sindicalistas que protestam. CS sente-se mal e só não se estatela porque o seguram, sendo retirado. O chefe dos militares, informando que o PR voltará brevemente, pede respeito por aquela cerimónia militar. Embarcando na narrativa implícita, a repórter da RTP diz que um dos factores que fizeram Cavaco sentir-se mal foi o protesto dos sindicalistas. Inacreditável que haja jornalistas dispostos a fazer estes papéis.

comemorar outra coisa que não a apagada e vil tristeza.

10:24
Alguns (felizmente, poucos) apoiantes de A.J. Seguro para candidato a candidato a PM pelo PS desdobram-se (lá onde as coisas parecem menos públicas, por exemplo no Facebook) em ataques a António Costa enquanto presidente da câmara de Lisboa. Por aquelas coisas que, na prática – a quem faz – podem correr mal, às vezes correm mal e, sendo o caso, têm de ser corrigidas. Por exemplo, o lixo. Os problemas actuais com a recolha do lixo, que decorrem principalmente (e, creio, transitoriamente) de uma reforma administrativa profunda e que foi feita em Lisboa com uma dose de concertação muito superior ao que o governo foi capaz no país. Notamos, assim, em que tipo de acção política estão dispostos a embarcar alguns socialistas – precisamente do lado daqueles que gritam “deslealdade” e “traição” contra vozes que falam mais alto do que o aceno concordante de cabeças frente à majestade do chefe. O tom está dado para uma campanha que, tudo o indica do lado dos que “não se demitem”, será guiada por dois instintos: “quem não está por mim, está contra mim” e “se não é para nós, não será para ninguém” (também conhecido como a estratégia da terra queimada).
Isto tem para o PS custos evidentes – custos que só parece não ver quem, por outro lado, argumenta com o malefício de uma verdadeira discussão política antes de partir para a próxima fase da corrida rumo às próximas eleições legislativas. Mas tem, também, outros custos para o PS, especialmente se o escolhido para candidato a PM fosse AJS: é que todo este criticismo agudo às funções de governação de António Costa evidencia que nem todos podem, como ele, ser escrutinados pelo exercício de funções executivas relevantes para a vida de milhões de portugueses. O que, está à vista, dado o estado do país, é crucial para quem pretenda mobilizar uma vasta maioria de governo, com base política e social alargada e sólida – e não condenar o PS a ser apenas mais uma peça na continuação da “apagada e vil tristeza” a que alguns nos querem resignados e obedientes.

8.6.14

a coisa pública e outras coisas que não têm nada a ver.

13:41

Na actual disputa dentro do PS parece notar-se uma diferença: Seguro apresenta-se como alguém que julga ter o direito a ser primeiro-ministro e não quer escolhos nesse caminho há tantos anos sonhado; Costa apresenta-se como alguém que, apesar das dificuldades, achou que tinha o dever de se disponibilizar como candidato dos socialistas a primeiro-ministro. Faz toda a diferença. A diferença entre uma ética de serviço público e uma auto-estima que não cabe na realidade.