14.3.14

As sugestôes do João Miguel.




[o que é isto?]



Para conseguirmos faire marcher le devoir et l'amour. (Carmen, 2º acto)



A série Visita Guiada, que a RTP2 está a emitir, parece-me imperdível. Felizmente está anunciada a retransmissão do primeiro episódio no dia 18.
  • Até dia 14, no Palácio Fronteira, colóquio Lisboa e os Estrangeiros / Lisboa dos Estrangeiros depois do terramoto de 1755 (35€)
  • Dias 14 (18h às 23h), 15 (12h às 23h) e 16 (12h às 20h), na FIL, Feira Internacional de Turismo de Lisboa
  • Até dia 20, na Livraria Municipal Verney, inscrições para o curso O Islão. Origens e desafios da actualidade (15€; 8 sessões, sábados 22 de Março a 31 de Maio, às 15h00)

Sexta-feira, dia 14

  • às 13h30, 15h30, 17h30, 19h30 e 21h30, no Espaço Nimas, ciclo Ingmar Bergman: Da Vida das Marionetas (6€)
  • às 19h00, na Casa-Museu Dr. Anastácio Gonçalves, e na Antena 2, recital de cravo: A Verdadeira maneira de tocar instrumentos de teclado (E. Bach), por Cristiano Holtz (0€)
  • às 19h00, no El Corte Inglés (Piso 7), As Conferências D'O Eixo: A Morte Lenta da Democracia, com Daniel Oliveira (0€, inscrição prévia em: Ponto de Informação, Piso 0, ou relacoespublicas@elcorteingles.pt)
  • às 19h00, no auditório do Goethe Institut, ciclo Cinema no Feminino – Resistência: Barbara, de Christian Petzold (0€)
  • às 22h00, no Café Saudade, Sintra, concerto com Caixa de Pandora
  • às 23h30, na Fábrica Braço de Prata, Soul Gospel Project (5€)

Sábado, dia 15
  • às 9h30, no Museu Nacional de Machado de Castro, Coimbra, percurso temático/cronológico: Coimbra Medieval: de D. Sesnando a D. Dinis (5€, inscrição prévia: iamic.ligamnmc@gmail.com ou 239 853 070)
  • às 10h00, no Auditório do Museu do Neorrealismo, Vila Franca de Xira, Oeiras, 2ª Sessão (Século XVII; Renovação artística do final do século XVII) do Curso: História do Azulejo em Portugal, por José Meco (10€; 35€ curso completo)
  • às 12h10, na TSF, Encontros com o Património: Pousadas de Portugal: um diálogo com a História
  • às 13h30, no Palácio Foz, visita guiada (0€, inscrição prévia: 21 322 1240 ou visitas.guiadas@gmcs.pt )
  • às 13h30, 15h30, 17h30, 19h30 e 21h30, no Espaço Nimas, ciclo Ingmar Bergman: Em Busca da Verdade (6€)
  • às 15h00, no Palácio Municipal da Qt.ª da Piedade, Póvoa de Santa Iria, visitas guiadas (integradas no curso de História do Azulejo em Portugal) ao Palácio e à Igreja da Vialonga, por José Meco (10€; 35€ curso completo)
  • às 15h00, na Fábrica da Pólvora de Barcarena, visita temática As Invasões Francesas na Fábrica da Pólvora de Barcarena, por José Luís Gomes (0€; inscrição prévia pelo 210 977 420)
  • às 15h30, na Cinemateca, Rio Sagrado, de J. Renoir
  • às 15h30, no Museu Condes de Castro Guimarães, visita guiada O Mobiliário Europeu e Oriental do Museu, por José António Proença
  • às 16h00, no CAM (Centro Arte Moderna da Gulbenkian), Desenho preparatório. Esboço e esquiço, visita/demonstração à exposição Rui Chafes: O peso do Paraíso (5€)
  • às 18h00, no Museu da Música Portuguesa - Casa Verdades de Faria, Monte Estoril, Bartók - Lopes-Graça, por Solistas da Orquestra de Câmara de Cascais e Oeiras (0€)
  • às 18h30, no Centro Cultural de Belém, Sala Sophia de Mello Breyner, debate: A palavra dramática e a palavra poética de Karol Wojtyla (João Paulo II), com José Tolentino Mendonça e Maria Teresa Dias Furtado (0€)
  • às 19h00, no auditório do Goethe Institut, ciclo Cinema no Feminino – Resistência: A Noiva Turca, de Fatih Akin (0€)
  • às 21h30, no Teatro Thalia, Ovídio: Perseu e Faetonte (Dittersdorf, Britten e Saint-Saëns), pela Orquestra Metropolitana de Lisboa dirigida por Pedro Neves (10€)

Domingo, dia 16

  • às 10h20, na ARTE, Metropolis: Berna (43’)
  • às 11h00, no Museu do Azulejo, visita guiada, pela comissária Drª Alexandra Curvelo, à exposição O Exótico nunca está em casa? (0€)
  • às 11h30, na ARTE, Philosophie: Chanter (29’)
  • às 12h00, Domingos com Arte no CAM (Centro Arte Moderna da Gulbenkian), Nadia Kaabi-Linke – Preso por Fios (2€)
  • às 12h30, na RTP2, A Verde e a Cores - episódio 7 (na passada semana não emitiram, devia ser o episódio 6!) (reposição; 27’)
  • às 13h30, na RTP2, Um Idealista Chamado Manuel de Arriaga ( 29’)
  • às 13h30, 15h30, 17h30, 19h30 e 21h30, no Espaço Nimas, ciclo Ingmar Bergman: Lágrimas e Suspiros (6€)
  • às 13h55, na Mezzo, em directo do Concertgebouw, 8ª e 9ª de Beethoven, com Myrtò Papatanasiu (soprano), Bernarda Fink (mezzo), Burkhard Fritz (tenor), Gerald Finley (baixo), Ivan Fischer (maestro) (100’)
  • às 19h30, na Mezzo, Ivan Fischer dirige, no Concertgebouw, as sinfonias 1, 2 e 5 de Beethoven (100’)
  • às 22h10, na ARTE, Elektra, de R. Strauss (2013; Festival d’Aix-en-Provence; Esa-Pekka Salonen (maestro), Patrice Chéreau (encenação), com Waltraud Meier, Evelyn Herlitzius e a Orquestra de Paris; 111’)
  • às 21h45, na RTP2, Agora (45’)

Segunda-feira, dia 17

  • às 13h02, na TV5, Des Racines & Des Ailes - de la route «Jacques Coeur» à la Nationale 7 (104’)
  • às 13h30, 15h30, 17h30, 19h30 e 21h30, no Espaço Nimas, ciclo Ingmar Bergman: Sorrisos de uma Noite de Verão (6€)
  • às 21h00, na RTP2, Entre Imagens - José M. Rodrigues (25’)
  • às 21h25, na RTP2, Visita Guiada - Museu Machado de Castro e Convento de Santa Clara-a-Nova (25’)
  • às 21h30, na Casa da Achada, O pianista (2002, 150 min.) de Roman Polanski. (0€)

Terça-feira, dia 18

  • às 13h30, 15h30, 17h30, 19h30 e 21h30, no Espaço Nimas, ciclo Ingmar Bergman: O Sétimo Selo (6€)
  • às 14h00, no Auditório Municipal Maestro César Batalha, Galerias Alto da Barra, Oeiras, Masterclass da História do Cinema O Melhor do Cinema Inglês (1935-2000): Breve Encontro, de D. Lean (senhas a partir das 13h30) [segunda sessão às 17h00, senhas a partir das 16h00]
  • às 15h30, na Cinemateca, Voando Sobre um Ninho de Cucos, de M. Forman
  • às 15h30, na RTP2, Entre Imagens - António Júlio Duarte (25’)
  • às 16h00, na RTP2, Visita Guiada - cálice de São Geraldo (25’)
  • às 16h30, no CAM (Centro Arte Moderna da Gulbenkian), visita às reservas do CAM (5€)
  • às 19h50, na ARTE, Le Vatican et l'argent (documentário; 61’)
  • às 17h00, no Auditório da Biblioteca da F. Ciências Tecnologia, Universidade Nova, Caparica, CineClube: Sunset Boulevard (Crepúsculo dos Deuses), de B. Wilder (0 €)
  • às 17h00, no Auditório Municipal Maestro César Batalha, Galerias Alto da Barra, Oeiras, Masterclass da História do Cinema O Melhor do Cinema Inglês (1935-2000): Breve Encontro, de D. Lean (senhas a partir das 16h00)
  • às 20h55, na ARTE, Le Vatican: le grand chambardement (documentário; 45’)
  • às 21h00, na RTP2, Menina Limpa Menina Suja - a obra de Ana Vidigal (57’)
  • às 21h40, na ARTE, Comment nous avons construit le métro de Moscou (documentário; 53’)

Quarta-feira, dia 19

  • às 13h00, no Auditório da Biblioteca da F. Ciências Tecnologia, Universidade Nova, Caparica, conferência: Navigating the Journey of Life, por Jamail Larkins (0 €)
  • às 13h30, 15h30, 17h30, 19h30 e 21h30, no Espaço Nimas, ciclo Ingmar Bergman: O Sétimo Selo (6€)
  • às 15h30, na RTP2, Menina Limpa Menina Suja - a obra de Ana Vidigal (57’)
  • às 19h15, nos cinemas ZON Lusomundo Amoreiras, CascaiShopping, Dolce Vita Coimbra, Tavira Gran-Plaza, NorteShopping, Braga Parque e Vasco da Gama, A Bela Adormecida, de Covent Garden (12€)
  • às 20h02, na TV5, Le Grand Tour – Du Québec à la Louisiane (120’)
  • às 21h30, no Hot Club, "Just in Time" @HotClube (apresentação do 1º CD da etiqueta discográfica @HotClube), com Paula Oliveira (voz), TóZé Veloso (piano), "Binau" Moreira (contrabaixo), Manuel Jorge Veloso (bateria) + convidados (0€)
  • às 21h30, no Auditório da Biblioteca Municipal de Oeiras, conferência do ciclo Livros Proibidos: Admirável Mundo Novo, de Aldous Huxley, com João Lobo Antunes e Ricardo Costa (moderador) (0€)

Quinta-feira, dia 20

  • às 13h00, no Salão Nobre do Ministério das Finanças (local bonito, mas muito mal frequentado), Clarinete e Percussão (Edward J. Miller, Nikola Resanovic, Lino Guerreiro, Scott Lindroth, J. B. e Fredrik Högberg), por Nuno Silva (clarinete) e Marco Fernandes (percussão), Solistas da Metropolitana (0€)
  • às 13h25, na Casa-Museu Medeiros e Almeida, Pausa para a Arte: A Arte de Bem Dormir (0€)
  • às 18h00, na Casa da Achada, Os livros da minha vida: No caminho de Swann, 1º volume de Em busca do tempo perdido, de Marcel Proust com Eugénia Leal.
  • às 18h30, na Sociedade Portuguesa de Autores, Homenagem a Astor Piazzolla, por Liviu Scripcaru (violino), Ana Cláudia Serrão (violoncelo) e Savka Konjikusic (piano), Solistas da Metropolitana (0€)
  • às 18h30, na Culturgest, conferência do ciclo O neoliberalismo não é um slogan – histórias de uma ideia poderosa: A hegemonia neoliberal: do Chile aos Consensos de Washington e de Bruxelas, por João Rodrigues (senhas a partir das 18h00, com transmissão em http://www.culturgest.pt/)
  • às 20h15, na Mezzo, John Lee Hooker (32’)
  • às 21h00, no auditório da Casa das Histórias Paula Rego, Conversas da III República: 40 Anos de Democracia, com Teolinda Gersão, Dulce Maria Cardoso e Eugénio Lisboa

A seguir:

  • Dia 21, às 13h00, na Câmara Municipal de Lisboa, Duo de Viola e Fagote (Willy Hess, Philippe Hersant e Michał Spisak), por Irma Skenderi (viola) e Roberto Erculiani (fagote), Solistas da Metropolitana (0€)
  • Dia 21, às 14h30, no auditório do Museu Nacional do Teatro, recital de poesia (poemas de Fernando Pessoa, Cesário Verde e Alexandre O’Neil), pelo actor Sinde Filipe (0€)
  • Dia 21, às 15h00, na Casa Fernando Pessoa, Dia Mundial da Poesia na Casa Fernando Pessoa: Mensagem, pelo actor Carlos Martins da Fonseca
  • Dia 21, às 15h30, na Cinemateca, Duas Horas na Vida de uma Mulher, de A. Varda
  • Dia 21, às 16h00, na Mezzo, Príncipe Igor, de A. Borodine (2013; Bolchoï) (132’)
  • Dia 21, às 18h00, no Palácio Foz, recital de piano (L. van Beethoven), por Marta Menezes (0€)
  • Dia 21, às 18h30, na Casa Fernando Pessoa, Dia Mundial da Poesia na Casa Fernando Pessoa: Trios para Oboé, Trompa e Piano (Reinecke e Herzogenberg), com Sally Dean (oboé), Nuno Vaz (trompa) e Anna Tomasik (piano), Solistas da Metropolitana
  • Dia 21, às 19h00, na Cinemateca, O Delfim, de F. Lopes
  • Dia 21, às 19h00, no Auditório do Liceu Camões, Concerto Aberto Antena2 Clarinete e Percussão (Edward J. Miller, Nikola Resanovic, Lino Guerreiro, Scott Lindroth, J. B. e Fredrik Högberg), por Nuno Silva (clarinete) e Marco Fernandes (percussão), Solistas da Metropolitana (0€)
  • Dia 22, dia mundial da poesia, das 15h00 às 18h30, no Centro Cultural de Belém, Homenagem à poesia mexicana contemporânea
  • Dia 22, às 16h00, no Museu Nacional de Arte Antiga, Trios para Oboé, Trompa e Piano (Reinecke e Herzogenberg), com Sally Dean (oboé), Nuno Vaz (trompa) e Anna Tomasik (piano), Solistas da Metropolitana
  • Dia 22, às 21h30, no Centro Cultural e de Congressos de Caldas da Rainha, Homenagem a Astor Piazzolla, por Liviu Scripcaru (violino), Ana Cláudia Serrão (violoncelo) e Savka Konjikusic (piano), Solistas da Metropolitana
  • Dia 23, às 10h30, no Museu do Azulejo, visita orientada ao Museu e Convento da Madre de Deus (0€)
  • Dia 24, às 21h30, na Barraca (Largo de Santos, 2), Encontros Imaginários: Bernard Shaw, Marlene Dietrich e Attila (5€)
  • Dia 25, às 18h30, no Auditório do Instituto Cervantes, projecção: Manuel de Falla, músico de dos mundos, de José Luis Castiñeira de Dios (0€)
  • Dia 26, às 18h00, no Museu Nacional de Arte Antiga, obras em foco 2014: Virgem com o Menino (Andrea del Verrocchio; 1470-1480; Frankfurt Städel Museum) (0 €)
  • Dia 26, às 18h30 (ou às 19h00), numa sala de cinema UCI no El Corte Inglês, projecção do bailado Ilusões Perdidas, dançado pelo Bolshoi em 2 de Fevereiro de 2014 (11,20€)
  • Dia 27, às 18h30, no Museu Nacional de Arte Antiga, ciclo de palestras sobre obras-primas de pintura do acervo do Museu: A Conversação, de Pieter de Hooch, por António Mega Ferreira (0€)
  • Até dia 28, no Museu Condes de Castro Guimarães, inscrições para o curso Mesa Aristocrática e Sociabilidade nos Séculos XVIII/XIX, por Ana Marques Pereira (20€; 2 sessões, sábados 5 e 12 de Abril, às 15h00)
  • Dia 28, às 19h00, no El Corte Inglés, sessão do ciclo de conferências e debates Pensar Portugal: Sobre a Morte e o Morrer, com o autor Walter Osswald (0€, inscrição prévia em: Ponto de Informação, Piso 0, ou relacoespublicas@elcorteingles.pt)
  • Dia 29, às 21h30, no Café Saudade, Sintra, Leituras no Café Saudade (tertúlia literária): poesia de Sophia de Mello Breyner Andresen (O Nome das Coisas), dinamizadas por Vítor Pena Viçoso (0€)
  • Dias 5 e 6 de Abril, no Salão Nobre do Palácio Marquês de Pombal, Oeiras, X Encontro de História Local do concelho de Oeiras: O Quotidiano em Oeiras no Século XVIII (5€; tel. 214 404 851/91, dphm@cm-oeiras.pt - CM Oeiras / Divisão de Património Históricoe Museológico



Não deixe de consultar a matriz de exposições (clicando aqui pode descarregar ficheiro Excel).



13.3.14

as memórias vivas em "Ilusão".


Como saberão alguns, andámos nas últimas semanas envolvidos num projecto do Teatro da Cornucópia: levar à cena o espectáculo "Ilusão", a partir de textos vários do muito jovem Lorca, com encenação de Luis Miguel Cintra (que também participou como actor), envolvendo a demais estrutura-base da companhia, sendo o elenco composto por estudantes e amadores de teatro (com a excepção assinalada). Já por aqui explicámos o projecto, já falámos sobre o sentido do próprio espectáculo, já demos conta da grande experiência que tudo isto representou para quem teve a oportunidade de participar. Para fechar este ciclo de testemunho, deixo agora uma nota sobre o mergulho na memória que nos foi proporcionado por esta experiência.

Uma sociedade sem memória é uma impossibilidade humana. Nós não somos os calculadores racionais que alguns pensam que os humanos são, tomando furiosamente decisões para optimizar o lucro ou alguma vantagem equivalente. As sociedades de humanos são construções históricas, enraizadas numa experiência transmitida e partilhada, cujo respeito é o chão a partir do qual se levanta a possibilidade de mudança e de melhoramento. Este viver dentro de uma memória (que se espera seja dinâmica, não apego ao imobilismo) tem de traduzir-se em muitos processos separados, "regionais", específicos. Mas, em qualquer caso, actualizar a memória faz sempre parte da vida de uma comunidade humana que não tenha sido reduzida à escravatura do imediato sobreviver. Esta "actualização da memória" tomou um aspecto muito concreto nesta levada à cena da "Ilusão". Como? Pois, simplesmente, porque a base material da encenação e dos figurinos foi o reaproveitamento de elementos que já tinham servido espectáculos anteriores. O próprio encenador explicou à comunicação social que o piano vertical que está sempre em cena (e toca) é um elemento que está ali ao serviço desde a primeira peça apresentada pela companhia no Teatro do Bairro Alto (depois de ter sido oferecido por sua avó). Mais do que isso: cada um de nós vestiu algo herdado de outros espectáculos. Pessoalmente, mesmo se esta opção é uma forma de não encarecer o espectáculo (e isso não me choca nada), a circunstância traduziu-se num bonito mergulho na história e na memória da Cornucópia.

Como exemplo deste processo, vou dizer-vos de onde vieram os elementos que, vestindo-me e calçando-me, me ajudaram a compor a personagem "a sombra de Sócrates". (Agradeço à Cristina Reis e ao Luís Santos as indicações que suportam o restante deste texto.)



O que se trata é de identificar por onde andaram antes a túnica, o manto e as sandálias.

A túnica foi usada por Luis Miguel Cintra no espectáculo A Cidade, com base numa colagem de textos de Aristófanes. Esteve em cena no Teatro Municipal São Luiz, entre 14 de Janeiro e 14 de Fevereido de 2010. (Mais elementos no historial da Cornucópia. Eu escrevi sobre esse espectáculo aqui.)


(Fotografia de Pedro Soares)

O manto foi usado por Manuel Romano, no papel de Júpiter, no espectáculo Esopaida ou Vida de Esopo, de António José da Silva (O Judeu). Esteve em cena no Teatro do Bairro Alto entre 11 de Novembro e 19 de Dezembro de 2004. Esteve depois em Faro (2005) e no Porto (2006). (É aqui referido no sítio da companhia.)


Manuel Romano, como Júpiter, na Esopaida. (Fotografia de Luís Santos)

As sandálias foram usadas por João Grosso, no espectáculo Tito Andrónico (William Shakespeare), no papel de Saturnino. Esteve em cena no Teatro Nacional D. Maria II, entre 24 de Junho e 27 de Julho de 2003. É referido aqui no historial da companhia.

João Grosso em Tito Andrónico (Fotografia de Francisco de Almeida Dias)

E assim fomos conduzidos à memória de uma casa com memória. Um privilégio, porque sem memória não há futuro. Porque só com raízes faremos futuro.


o avião desaparecido.


Desapareceu um avião lá para o Oriente com duas ou três centenas de pessoas a bordo.
Andamos consternados.
Andamos, mesmo?!
Todos os dias "desaparecem" muito mais do que duas ou três centenas de pessoas, em todo o mundo, de fome, de doença por tratar, de abandono, a tentar emigrar.
E não se nota nenhuma consternação assim tão atenta.
Não andamos nada consternados: comemos mortos em vida todos os dias ao pequeno-almoço.
Andamos é curiosos pela novela tecno-detectivesca "como é que eles fizeram aquilo?". E "quem são eles?". E "o que foi aquilo?".
Só isto.
Lamento desiludir-vos, humanistas.

12.3.14

a Ucrânia e nós.

11:38

Já expliquei que nada no assunto Ucrânia me parece linear ("Um apontamento Ucraniano"). Contudo, o que tem acontecido nesse país merece uma reflexão mais geral sobre os processos de contestação. Deixo, por hoje, só a minha contradição de partida.

Por um lado, a forma violenta como se processou a mudança de poder na Ucrânia deu acesso aos comandos do Estado a uma série de forças indesejáveis, nomeadamente extremistas de direita, incluindo saudosistas dos partidários de Hitler, sendo que algumas dessas forças não hesitam em usar a violência para abrir caminho. Isso poderia ter sido evitado com uma transição pacífica e negociada, ou se, pelo menos, o anterior poder tivesse respeitado mais lealmente as oposições.

Por outro lado, provavelmente nada teria acontecido se as oposições se tivessem mantido pacíficas. O anterior grupo dirigente estava agarrado às suas cadeiras e nunca mudaria no essencial o seu estilo autoritário (para dizer o mínimo). É quase certo que só a violência permitiu desestabilizar a anterior situação.

Vale a pena obedecer só para evitar a violência e as suas consequências? Ou "perdido por cem, perdido por mil"? As respostas "burocráticas" não ajudam a explicar nada. E, um destes dias, podemos voltar a pensar nisto a partir do caso da Grécia: vendo as coisas da actualidade, valeu ou não valeu a pena agitar a rua num dado momento de um passado recente?

os que sujam a palavra consenso.

10:46

Manifesto: Preparar a reestruturação da dívida para crescer sustentadamente.

Passos Coelho enche a boca de consenso, mas só para exigir que os outros façam como ele acha que se deve fazer. Outras plataformas: acusa logo que prejudicam o país.

Também há os que só gostam da política quando ela é combate até à completa desgraça mútua. Esses desprezam um acontecimento como este manifesto: gente tão diferente a concordar num ponto essencial e a pedir que se discuta mais como se pode concretizar.

Há outra coisa que não percebo: o PS oficial faz o que pode para dar a ideia de que também não gostou do manifesto.


11.3.14

a caça ao homem dá desconto no passe ?

19:29


A Carris e o Metro (os meus meios de transporte mais frequentes quando não posso ir a pé) lançaram uma campanha onde, somados todos os materiais que fui vendo andando por aí , o apelo parece ser a que nós, passageiros, nos tornemos vigilantes dos outros passageiros.

A reacção mais imediata é "lá estão estes tipos a quererem que sejamos polícias uns dos outros". Em geral, tendo a não alinhar nessa reacção, por uma razão muito simples: efectivamente, quem não paga por um bem comum onera todos os que pagam e, tendencialmente, coloca em risco a própria sustentabilidade desse bem. Temos muita tendência a escandalizar-nos com qualquer iniciativa de controlo distribuído (pressão social, cidadã, contra o uso fora das regras), mas temos demasiada tolerância face aos espertos que beneficiam individualmente da possibilidade, que oferecem a si próprios, de decidirem por suas próprias mãos o que é ou não é justo. Por exemplo, é popular ridicularizar a "factura da sorte", mas é pouco popular pedir disciplinadamente factura para diminuir a fuga ao fisco e a consequente sobrecarga dos que não podem fugir. Não compro o argumento de que quem não paga é quem não pode pagar: porque sei que, em muitos casos, isso não é verdade; porque não se resolve o problema das más políticas de rendimento e/ou de protecção social autorizando os pobres a roubar nos serviços públicos. Isso só poderia servir para agravar a tendência para criminalizar a pobreza, algo que já está subjacente a uma certa direita que aprecia a lei da selva.

Contudo, esta campanha é chocante. Por quê? Desde logo porque ela não apela a uma atitude de responsabilidade partilhada por um bem público: se eles querem privatizar os transportes, que lógica teria pedirem compreensão do valor de um bem público? Segundo, porque apela ao espírito pidesco mais básico: aqueles olhos são o quê? Os olhos do Big Brother montados nas nossas cabeças? Estão à espera de que façamos o quê: que demos pauladas nas pessoas que não validam os títulos de transporte? Que chamemos a polícia? Querem mesmo desencadear perseguições pelos corredores do Metro, onde passageiros cumpridores atacam passageiros sem bilhete? Quererão obrigar os prevaricadores a usar estrelas de David no braço para serem mais facilmente reconhecidos no futuro e mais prontamente controlados? O apelo que transparece dos materias espalhados por todo o lado é um apelo selvagem.

Qual a alternativa? A alternativa não é pontual, nem imediata. A cultura de protecção do bem público tem de ser promovida, em primeiro lugar, respeitando o próprio bem público. Quem anda sempre a dizer mal do que é público - muitos desses tomaram mesmo a direcção das empresas responsáveis por aquilo que detestam por ideologia - não tem legitimidade nenhuma para apelar ao civismo. A cultura de responsabilidade e a luta de cidadania contra o oportunismo não se pode confundir com uma campanha de caça ao ladrão. Se o passageiro sente que os carrascos da própria ideia de serviço público nos querem transformar em bufos e vigilantes, o que podemos sentir - pelo menos foi o que eu senti - é repulsa. Este é um daqueles casos em que a legalidade fica manca sem legitimidade.


se eu vos disser que isto é a beleza da biologia, ficam muito zangados comigo?

10.3.14

«o mundo é um brinquedo sem dono»



«o mundo é um brinquedo sem dono»



(para o Luis Miguel Cintra, com Lorca ao fundo)


não é o dono, Federico, que complica:
que as cheias devastem as habitações
enquanto corpos secos povoam as terras,
que os animais do campo escrevam os contos edificantes
esquecidos pelos bichos das repúblicas,
que deve isso ao dono ou à sua ausência?
quem viu, Federico, que a ferida estava no brinquedo,
no próprio brincar sem folguedo, foi o Luis Miguel,
com peças várias da tua herança,
esquecendo por momentos a teologia do dono,
arriscando mesmo um certo panteísmo
para mostrar a diversidade dos jeitos,
a pluralidade dos modos em que somos
brinquedos quebrados, sim,
mas tão-somente das mãos e juízos uns dos outros.

é terrível a vida simples:
o mundo é um brinquedo sem o conforto do dono,
mas contigo nós atravessámos a cidade como navios do deserto
transportando a água que calou por momentos os calvários dentro de nós.



(9 de Março de 2014, dia das últimas representações de “Ilusão”, no Teatro da Cornucópia.)


***

Mais sobre o projecto: http://maquinaespeculativa.blogspot.pt/2014/02/uma-ilusao-na-cornucopia.html.
Mais sobre o espectáculo: http://maquinaespeculativa.blogspot.pt/2014/02/ilusao-na-cornucopia-varios-lorcas-um.html)



Máquina. Auto-organização social. Computação ubíqua 2.0: abordagens sociais, políticas, éticas e artísticas.



Hoje, 10 de Março, das 14h00 às 18h00, no Anfiteatro da Fundação da Faculdade de Ciências da Universidade de Lisboa.

Mais informação aqui
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