17.1.14

a distância entre a ciência e as empresas.


Pires de Lima lamenta distância entre a ciência e as empresas. Pires de Lima disse não ser possível “alimentar um modelo que permita à investigação e à ciência viverem no conforto de estar longe das empresas e da vida real”, referindo o elevado nível de doutorados “per capita” em Portugal por oposição ao baixo número de doutorados nas empresas.

Claro que, falando de casos ainda mais graves, e perigosos para a calmaria nacional, como a Filosofia - mas a Filosofia não é ciência! é "conversa", razão pela qual nem nos devia fazer perder tempo... tal como a História, ou o Latim ou Grego...

Segundo André Barata (na sua página o FB), "A nível nacional, foram aprovadas apenas 4 bolsas de doutoramento em filosofia."

Quando ao episódio anterior do Investigador FCT, João Gomes André contou as cabeças e afirmou: «Em Filosofia ganharam... dois estrangeiros. E ambos na área da Filosofia da Linguagem. Portugueses, népia. Restantes áreas da filosofia, népia.»

E o Ministro da Economia, em socorro do Ministro Crato, quer mandar-nos para as empresas: que tal formar filósofos em sistema dual, entre a escola e a empresa, para se habituarem ao mundo da realidade?


Deixo-vos um texto que publiquei aqui há algum tempo, antecipando este discurso dos "empreendedores" para nos calcar a pedra em cima.

***

PEÇO IMENSA DESCULPA DE NÃO SERVIR DEVIDAMENTE O EMPREENDEDORISMO

Peço imensa desculpa de não ser operário qualificado. Sei lá, metalúrgico, talvez. Ainda há empregos para metalúrgicos? Não sei, mas metalúrgico parece-me uma profissão sólida, um operário à séria, um aristocrata da classe operária.

Pois, mas eu não sou metalúrgico. Um metalúrgico deve fazer falta à economia, não é? Já um médico, provavelmente não. Um médico é apenas uma ocasião de despesa: pessoas que querem cuidar da saúde, ou tratar a doença, ou minorar as penas, acabam por ocasionar mais despesa, coisa que só podem concretizar com a ajuda de médicos, enfermeiros, especialistas nisto e naquilo. Mas, enfim, apesar da despesa, há sempre quem não dispense um profissional da saúde, talvez médico ou enfermeiro seja uma boa profissão para fazer pela vida.

Só que eu, além de não ser metalúrgico, também não sou médico, nem enfermeiro, nem operador de nenhuma daquelas máquinas que fazem parte da parafernália dos meios auxiliares de diagnóstico. Podia ser advogado, que fazem sempre falta, nem que seja contra a nossa vontade, porque há sempre contendas e necessidade de nos desembaraçarmos delas. E um advogado é um especialista nas partes mais recônditas do Estado, uma espécie de meio médico e meio engenheiro da grande máquina da vida colectiva. Coisa em grande, portanto, além de ser coisa a que temos de recorrer em tanta tralha miúda.

Má sorte a minha: também não sou advogado. E, a esta altura, além dos advogados que pensam que eu não faço ideia do que eles sofrem (mas faço), e dos arquitectos que queriam construir o mundo e estão todos desempregados porque não há dinheiro para colar dois tijolos, e dos metalúrgicos que pensam que eu penso que a vida deles é fácil, e dos médicos e dos enfermeiros que pensam que eu brinco com a saúde, há uns tantos outros que imaginam que eu sou um inútil para a sociedade.

E pensam bem. Um tipo que diz que é filósofo, mas o que vem a ser isto. Para já, em Portugal ninguém é filósofo. Um tipo que estudou engenharia e se inscreveu na Ordem é engenheiro. Que estudou medicina e deu os passinhos necessários até estar nos registos centrais do império, é médico. E por aí adiante. Um tipo que estudou filosofia e se dedicou à filosofia é… “doutorado em filosofia”, ou “professor de filosofia”, mas não filósofo. Filósofo é só para os mortos de respeito. Só um delirante diz que é “filósofo”. É isso mesmo que eu sou e digo que sou. Mau, decerto, mas filósofo.

E é esse o problema. Como filósofo – e apesar de respeitar os colegas que fazem pela vida e tentam arranjar ocupações que sejam vendáveis – não me dá jeito nenhum criar uma empresa para vender filosofia. O empreendedorismo, comigo, está tramado. Aí tenho logo um diploma de inútil. Nada do que eu faço dá exactamente para ganhar dinheiro na praça – e quem não serve para “mexer a economia” é um parasita. Já o outro dizia que os historiadores não servem para nada. Mas a filosofia ainda serve menos para coisa alguma. É pior ser filósofo do que ser teólogo, porque pelo menos o teólogo trabalha com um assunto graúdo: mesmo que não exista, o assunto é graúdo. Já o filósofo trabalha com assuntos com que qualquer comentador televisivo se desembaraça bem sem mais demora. Se o outro tivesse escolhido fazer o curso por equivalências em filosofia, faria uma lista de discursos como material de equivalência e encontraria alguém para lhe dar razão.

Talvez eu devesse enviar currículos a propor-me para empregos na economia real. Se não fizer isso, nem sequer posso mostrar que estou interessado na vida activa e sou considerado um parasita sem emenda. Estou a percorrer a lista telefónica à procura de empresas que me pareçam potencialmente interessadas em recrutar filósofos. Já vou na letra Z e ainda não catei nada que me cheire. Faltará muito para chegar ao fim da lista?

Então, só me resta, mais uma vez, pedir desculpa por não ser operário metalúrgico. Não, que disparate, operários metalúrgicos são gente que até poderia fazer greve se fosse o caso. Indiferenciado. Indiferenciado é que é: a máxima flexibilidade, a máxima disponibilidade, a máxima liquidez: ir pelo cano é a ocupação preferida do indiferenciado… e como isso é agradável a quem tem de “fazer mexer a economia” (a sua economia). Porque a filosofia, vendo bem, nunca serviu para nada. Claro, podemos suportar o Sócrates e o Platão, o Hobbes e o Hume, o Russell e o Heidegger, e, vá lá, mais meia dúzia, para enfeitar o mundo: mas doze ou treze por milénio chegam bem. Agora, andar por aí e não ser pessoa que possa, ao menos, criar uma PME, isso é que não se compreende.

Má sorte a minha não terem fechado a tempo os cursos de filosofia.

(Publicado originalmente aqui)


16.1.14

uma ideia para Portugal.



Anselm Kiefer, Volkszählung (1991) [fotos de Porfírio Silva]

aposta na ciência ?


Espero que não seja disto que estão a falar.



Zico e o filósofo.

14:09


Pedro Galvão e a ética e os animais e nós. Uma pequena entrevista que é uma grande demonstração da utilidade de ter filósofos a pensar nos problemas da cidade: serenidade; capacidade para identificar as partes de um problema e olhar para o assunto sem amálgamas; critérios para olhar para o mundo que, podendo até não ser os nossos critérios, fornecem um padrão de razoabilidade.

Entrevista a Pedro Galvão: 'A preocupação com o destino do Zico foi absolutamente desproporcionada'.

e não se pode estrangulá-los?

11:27

Claro que pode:

"A nível nacional, foram aprovadas apenas 4 bolsas de doutoramento em filosofia."

(leio na página FB do André Barata; ontem deixei dados globais; estamos à espera que a FCT explique o que quer dizer com aquela história de que até aumentou o investimento)

15.1.14

se querem investigar, emigrem para as Maurícias.


A Fundação para a Ciência e a Tecnologia divulgou ontem os resultados do concurso nacional de bolsas. Aos poucos vamos percebendo quais são os números agregados e o que significam.

Parece que a mancha geral tem este aspecto:

Quanto a bolsas de doutoramento, dos 3433 candidatos foram aprovados 9% (298).
No que toca a bolsas de pós-doutoramento, de cerca de 2100 candidatos terão sido aprovados 210 (10%).

Para termos a noção do que isto significa: nas bolsas de doutoramento, se for correcta a suposição de que serão este ano atribuídas todas as cerca de 400 bolsas previstas no primeiro concurso para Programas Doutorais (o que não é de todo certo), o resultado global significa um retrocesso a números de 2003. Sem essas bolsas, este é o pior número de sempre (desde 1994).

(Acrescento. O Público tem números ligeiramente diferentes, mas não muda nada na substância.)

12.1.14

Coriolano: Shakespeare e a nossa crise.

13:23

(Foto de Victot Hugo Ponte no sítio do TNDMII)

Ontem fomos ao Teatro Nacional D. Maria II ver "Coriolano", de William Shakespeare, peça escrita nos primeiros anos do século XVII e que agora é apresentada como uma reflexão pertinente sobre as nossas crises actuais. É dito que as escadas onde tudo se passa nesta encenação são como as escadas do Palácio de S. Bento, onde funciona o nosso parlamento. Ainda bem que disseram, porque não se nota: mas anota-se a intenção.

Um texto do programa, depois de citar uma frase da peça - "A fome é grande, o povo está revoltado" -, diz que Coriolano é o "protagonista antipático que a genialidade de Shakespeare torna simpático a nossos olhos". Duvido que Shakespeare tenha querido tornar Coriolano simpático ou antipático aos nossos olhos: acredito mais que tenha querido baralhar os dados para nos obrigar a pensar, em vez de nos quedarmos sentados nos preconceitos habituais. De qualquer modo, a tentativa de dar um aspecto "subversivo" a este espectáculo neste momento, parece-me uma leitura claramente desajustada: se esta peça, em vez de ser entendida como uma reflexão sobre os perigos que corremos, fosse entendida como um programa, ou como um desafio, seria uma peça anti-democrática. Se há ideia central em "Coriolano" é a ideia de que a representação do povo na assembleia é pura demagogia e manipulação, acompanhada da ideia de que o povo é fraco e deita tudo a perder quando não se deixa conduzir pelas classes mais astutas que sabem como as coisas se fazem. Mesmo que o texto de partida seja mais complexo, a encenação reforça este elemento anti-democrático: ridiculariza a populaça e os seus representantes. Daí que, francamente, estranhe que o espectáculo esteja a ser entendido como uma espécie de oportuna reflexão sobre a nossa crise. Quer dizer: o espectáculo pode até ser uma reflexão sobre a nossa crise, mas, nesse caso, será mais um aviso contra os perigos de deixar o povo falar do que um apelo a uma melhor participação do povo. E, isso, se é sobre as nossas crises actuais, seria uma reflexão atirando bastante ao lado do alvo.

Quanto ao resto: gostei das interpretações que dão vida às personagens que se destacam individualmente e gostei do movimento geral, que não se perde em rodriguinhos e trata apenas do essencial, sem distracções inúteis.