5.7.13

o meu burrico desvalorizou.


Na segunda-feira passada, ia eu com o meu burrico a caminho da feira, encontrei o compadre Manel que me disse: "Compadre, se me quiser vender o burrico dou-lhe 10 contos de réis por ele." Agradeci e segui.

Na terça-feira, encontrámos de novo o compadre Manel, desta feita junto ao chafariz cá da terra. Disse-me, voltando à mesma tecla: "Compadre, venda-me o burrico que lhe dou 5 mil réis." Gracejei qualquer coisa e andei. E pensei cá para mim: andas variando, compadre.

Comentário dos nossos comentadores políticos de serviço: o meu burrico desvalorizou 50% num só dia.

Só que o meu burrico continua o mesmo, nem mais gordo nem mais magro. E preciso dele para o trabalho, é isso que ele me vale: o meu burrico não está à venda. As variações de humor do compadre Manel só teriam importância se eu tivesse de vender o burrico. Não servem para determinar como se resolve a crise. (Como não estamos a financiar-nos nos mercados e estamos com os dois pulmões emprestados pelo Banco Central Europeu, o nosso burrico não está à venda, apesar das larachas do compadre Manel. Quem tiver ouvidos para ouvir, qu'ouça.)

3.7.13

apontamentos sobre o caos.

14:48

1. Paulo Portas morreu. Quer dizer: meteu-se dentro do esquife e lá esperará pelo fim dos seus dias. Sim, porque os partidos mais pequenos só servem para alguma coisa se forem de confiança. (Era bom que os "grandes" também fossem de confiança, mas em política o tamanho conta.) E Paulo Portas, com ou sem razão nas guerras que travou, deixou de ser um parceiro de confiança para o PSD. No imediato, pagou a Passos Coelho na mesma moeda: desconsideração leva como troco desconsideração. Talvez Portas pense que "outro PSD" até lhe agradeça ter despachado o incompetente PPC, mas engana-se: qualquer PSD, de futuro, pensará duas vezes antes de se colocar na mão de Paulo Portas.

2. Passos Coelho chegou a este ponto porque, além de ser incompetente, é um enorme mentiroso. Ganhou as eleições a dizer às pessoas que não eram precisos sacrifícios, já que as dificuldades se deviam à má governação de Sócrates. Começou aí a alienar a genuína confiança que as pessoas precisam de ter nos governantes - e minou as condições para pactuar com os outros partidos as melhores escolhas em momentos difíceis, quando ignorava olimpicamente todas as opiniões diferentes da de Gaspar. Até Seguro, que chegou com vontade de ser manso com o governo da direita, por causa da sua estratégia de distanciamento de Sócrates, tanto pontapé levou do governo que acabou por ter de se afastar da sua preferida afabilidade. Esta crise política não é sequer culpa da oposição, nem mesmo, lamento dizê-lo, da luta popular: é culpa do autismo (que me perdoem os autistas) e da impreparação de PPC.

3. No meio disto tudo, e quanto ao essencial, a esquerda continua a ver passar os navios. Como já aqui escrevi muitas vezes, o PS tem muitas ideias, provavelmente até muito boas, mas ainda não se percebeu qual é "a sua ideia" para o país. E isso nota-se. A esquerda da esquerda dá poucos sinais de perceber que o maximalismo não leva a lado nenhum e, provavelmente, não aprendeu nada com a estratégia pela qual levou Passos Coelho às cavalitas ao palácio de S. Bento. Se o PS, assustado com isso, se virar para o CDS, vai pagar um preço assustador, porque precisamos de encontrar um caminho que substitua o afrontamento pelo diálogo social e deixar a esquerda de fora é tornar isso ainda mais difícil.

4. Precisamos de gigantes no governo, anões não servem. E gigantes com apostas claras, capazes de um contrato de verdade e justiça com o povo. Verdade e justiça. Afinal, dar resposta a um problema que se encontra equacionado numa frase que está em exposição permanente no meu blogue há bastante tempo: «O atraso de Portugal é grande. A economia é deficitária. Mesmo que se eliminassem todos os lucros da grande burguesia e se procedesse a uma melhor distribuição da riqueza, o produto nacional não asseguraria, ao nível actual, a acumulação necessária para um desenvolvimento rápido e uma vida desafogada para todos os portugueses. Para o melhoramento das condições de vida gerais será necessário aumentar a produção em ritmo acelerado. E isso obrigará não só a investir como a trabalhar mais e melhor.» São palavras de Álvaro Cunhal, em discurso ao VII Congresso do PCP, em Outubro de 1974.

uma maioria, um governo, um presidente.



1.7.13

o que significa Maria Luís nas finanças.

17:51

Significa que já nem os ministros deste governo acedem aos pedidos de Passos. Creio firmemente que Paulo Macedo fez bem em recusar.

(Isto não é uma notícia. É uma análise. Não acredito que Passos seja tão bronco que não tenha convidado Paulo Macedo. E este recusou: não acredita no chefe, nem no resto da equipa, nem na coerência da coligação. E é suficientemente honesto para não ser capaz de fazer as palhaçadas com que Gaspar entretinha os correlegionários.)

revelada nova equipa nas finanças.


(rir para não chorar)







duas postas sobre Gaspar no mesmo dia é obra.

17:01

Depois de swap, ou, mentiras ajustáveis com rabo de fora, há que acrescentar...

Gaspar, o ministro de Estado que fazia gala de não ter sido eleito coisíssima nenhuma, levou longe demais o desprezo pelas instituições: ser governante e mentir ao parlamento, ser ministro e deixar que a sua "ajudante" minta no parlamento (ou andar a enganá-la e empurrá-la para isso), usar um assunto como os contratos especulativos para fazer baixa política e ao mesmo tempo proteger alguém que tinha andado com a mão nessa massa - não é que repugne a alguém deste governo, incluindo o secretário-adjunto que mora em Belém. Não, não foi por isso que Gaspar foi borda fora. Gaspar foi borda fora porque há eleições, muitas eleições à vista, e o "que se lixem as eleições" de Passos era apenas mais uma das inúmeras mentiras de Passos. Gaspar, na sua redoma, tornou-se inconveniente. Não esperem milagres. Embora, se o sucessor for Paulo Macedo, podem esperar mais algum bom senso. Também, "mais algum bom senso" nem sequer é difícil.

swap, ou, mentiras ajustáveis com rabo de fora.

10:00

Governo admite que contratos swap foram abordados em reunião com Teixeira dos Santos.

Afinal, os responsáveis do Ministério das Finanças andaram a mentir sobre as suas responsabilidades no caso dos contratos swap. Eles foram alertados, mas não mexeram as canetas para tratar do assunto, talvez por a Secretária de Estado estar descansada sobre o assunto, já que tinha confiança no que tinha andado a fazer. Agora, caída a máscara, dizem que sim mas talvez: afinal houve informação, mas não era completa.
Mais, mais extraordinário: estes senhores, quando chegaram ao governo, esperavam que o governo anterior deixasse escrito como se deviam resolver os problemas. Em comunicado, o Ministério das Finanças "esclarece" que a informação deixada pelo governo anterior "sobretudo, não apontava para nenhuma solução" para o problema dos riscos orçamentais dos contratos. A informação deixada pelo governo anterior "não apontava para nenhuma solução"?! É mesmo isso que estes governantes escrevem no comunicado?! Percebemos agora: se calhar o Dr. Gaspar e a sua Secretária de Estado não esconderam o assunto tanto tempo para o usar na guerrilha política; se calhar só o esconderam este tempo todo porque estavam à espera que Teixeira dos Santos mandasse uns apontamentos a explicar o que havia a fazer para resolver o problema.