06/05/18

Corrupções várias.



O artigo de António Barreto, "A corrupção e suas variedades", incorre no pecado capital de muitos outros comentários: mete tudo no mesmo saco. A sua tese, no fundo, é que o PS é um partido corrupto. Colectivamente corrupto. Por quê dar uma especial atenção a AB, quando tantos outros propalam o mesmo? Porque AB não é um mero rabiscador de colunas que nunca são mais do que produtos laterais de programas pretensamente humorísticos para se poder ser político sem pagar o preço de o ser. Porque AB, quando deixou de controlar a frustação pessoal por não ter concretizado o sonho de ser SG do PS, perdeu os mínimos de razoabilidade em qualquer apreciação sobre o PS - uma forma de corrupção intelectual grave em alguém com a história e o currículo de AB.
Não seria preciso a AB fazer longas pesquisas na internet sobre a existência de grande corrupção em figuras de outros partidos portugueses. Mas isso não lhe interessa nada. Interessa-lhe o PS e ponto. E essa parcialidade é o rabo de fora que denuncia a espécie do gato, a mostrar que o que lhe interessa é atacar o PS e não atacar a corrupção. E essa corrupção intelectual é cancro na democracia: manipular o tema da corrupção apenas como instrumento de ataque a um partido é, afinal, defender a corrupção, porque é criar as condições para criar uma corrupção má (a dos adversários) e uma corrupção boa (a dos que têm as ideias com que simpatiza). Esse é o ecossistema onde a corrupção melhor se defende.
A existência de corruptos num partido ou num governo é preocupante, qualquer que seja o partido ou o governo. Mas pretender que os corruptos agem com o conhecimento, ou mesmo com a conivência, dos outros membros desse partido ou desse governo, e afirmar isso assim como tese geral, é simplesmente uma atoarda completamente irresponsável, uma afirmação gratuita e sem fundamento. Poupar a corrupção é um enorme perigo para a democracia. Querer usar a corrupção de alguns para decretar a morte de um partido, não é menor ameaça à democracia. AB devia controlar o seu ódio ao PS e ser um pouco mais racional. O seu texto é de uma demagogia infame. O seu texto é um exemplo extremo daqueles que usam as "mãos limpas" para meter tudo no mesmo saco e, desse modo, atacarem a democracia enquanto criam verdadeiras cortinas de fumo que verdadeiramente só favorecem os corruptos. Porque só aos corruptos pode interessar que se meta tudo no mesmo saco.
Os políticos não são todos iguais. Mesmo os que parecem ex-políticos, mas nunca curaram as suas frustações políticas, não são todos iguais. Alguns são especialmente culpados de sobreporem as suas raivas à honestidade intelectual.


Porfírio Silva, 6 de Maio de 2018


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6 comentários:

Anónimo disse...

Caro Porfirio Silva,

Subscrevo na integra as suas considerações relativamente à prosa de AB.

Mas, dito isto, julgo haver da parte do PS alguma ingenuidade ( para dizer o minimo ) no tratamento do caso que serve de móbil a AB. É que, ao contrário do que o SG defende desde a primeira hora, este não é um mero caso de justiça. A corrupção de um ex PM é virtualmente impossivel sem a conivência ( nem que fosse por mera omissão...) de grande parte da estrutura governativa, i.é, do PS. Daí que eu compreenda muito bem o desconforto de JS. Fazer de conta que estamos perante um assunto que apenas respeita a JS, fica mal ao PS

MRocha

Victor Nogueira disse...

Não foi Gorbatchev, desaparecido dos mass mídia, que rejeitando o vodka acabou a publicitar a garrafeira da Coca-Cola?

António disse...

" a corrupção de um ex PM é virtualmente impossivel sem a conivência ( nem que fosse por mera omissão...) de grande parte da estrutura governativa, i.é, do PS...".
Desculpará, nunca integrei governo de espécie alguma, mas para mim essa sua asserção só muito virtualmente é segura. Como pode saber? E se as actividades ligadas à corrupção correrem até à margem as funções de 1º ministro?
É dar o incerto por certo, quanto a mim.
E quanto a mim ainda, António Costa não divergiu agora muito do que disse desde o início do processo, vai para 4 anos: disse então, sem emitir outro juízo, querendo, para defender o PS, separar as águas, que à justiça o que é da justiça e à política o que é da política.
O juízo que agora emitiu foi condicional, com uma base hipotética: a serem verdadeiras as acusações ( o que significa, a provarem-se, o que pelos vistos ninguém acha necessário aconteça num tribunal, bastando o pelourinho politicamente inquinado dos media), são reprováveis tais actuações.
Mas como todos já sabem a verdade ( a resposta que atiram logo a quem invoca o princípio da presunção de inocência, é a de costume: não se faça de ingénuo, pois não viu e ouviu as gravações?) para quê todo o trabalho e os anos que um julgamento segundo a lei vai levar? Enforque-se já os réu e proíba-se o partido a que pertenceu.

arber disse...

A ideia de um PS estruturalmente corrupto, parecido com o PSOE e como ele destinado a desaparecer, perpassou pelo último "Quadratura do Círculo".
Aliás, não tenho dúvidas de que este será o tema forte do ataque da direita até às próximas eleições, e daí não compreender a ajuda que recentemente lhe deu Ana Gomes, cujo ódio a Sócrates (porquê?!...)aliás nunca escondeu.

Jaime Santos disse...

Como não li o que diz António Barreto, abstenho-me de mais comentários além do óbvio de que ele há muito tem um 'axe to grind' em relação ao PS, como dizem os anglo-saxónicos.

Se não fosse o caso de José Sócrates, arranjaria outra coisa qualquer para bater no seu antigo Partido...

Não sei se concorde inteiramente com MRocha. Não existem indícios de que qualquer ministro de Sócrates ou outros governantes ou assessores estivessem envolvidos nos crimes de que Sócrates é acusado.

O MP atirou com o barro à parede dizendo que alguns antigos Ministros teriam cometido inadvertidamente ilegalidades, mas não referiu que ilegalidades seriam e não acusou mais ninguém, logo uma tal alegação é espúria, para sermos brandos.

E, cabe lembrar, Sócrates ainda não foi julgado quanto mais condenado (estamos ainda na fase da instrução).

Como o julgamento irá levar vários anos, é necessário que se reflita entretanto se os mecanismos desenhados para impedir a corrupção num modelo colegial de Governo como é o nosso são os adequados.

E mais, é necessário refletir igualmente como poderemos evitar aquilo que se pode designar por 'corrupção sistémica', atos que não sendo ilegais, levam ao benefício de alguns enquanto prejudicam a maioria. A porta giratória entre a política e os negócios só ajuda a perpetuar tais situações...

Mas, para não ficarmos simplesmente no reino das generalidades, acho que cabe ao PS fazer duas coisas. Em primeiro lugar, Sócrates, culpado ou inocente, deveria ter direito a um processo justo e não está a tê-lo, fruto das sucessivas violações do Segredo de Justiça. O Partido da Liberdade e da Democracia só pode pugnar pela defesa intransigente do Estado de Direito, neste e noutros casos, envolvam eles ou não políticos ligados ao PS.

Por outro lado, há um conjunto de atos já admitidos por Sócrates (mentiras à imprensa, empréstimos de contornos pouco claros, tentativa de fazer do seu livro um best-seller ou lá o que foi) que não constituindo ilícitos de natureza criminal, correspondem a graves atropelos do código ético pelo qual se deveria pautar a atuação de um político num regime democrático.

Tais atos devem ser condenados sem tergiversações e nesse sentido, a desfiliação de Sócrates é bem vinda e só contribui para limpar o ar dentro do PS...

Anónimo disse...

« Não existem indícios de que qualquer ministro de Sócrates ou outros governantes ou assessores estivessem envolvidos nos crimes de que Sócrates é acusado.»

Precisaqmente, Jaime Santos. E é nessa não existência que apoio a minha tese de que JS é mero chamariz num processo de tiro ao PS. Se não é o PM quem adjudica os contratos com a parque escolar, como é que ele poderia ter beneficiado com eles o Grupo Lena sem que mais ninguém estivesse envolvido ? Faço-me entender ? E sobre esta questão meridiana que tem o PS a dizer ? Nada!

MRcoha