17/10/14

“Pílades”, de Pasolini, e de Cintra.


Esteve no Teatro Nacional São João, está agora no Teatro Nacional D. Maria II, o mais recente espectáculo do Teatro da Cornucópia, “Pílades”, de Pasolini. Vi no Porto, vi o ensaio geral em Lisboa. No Porto estava frio e a sala é um pouco escura, mas gostei. Em Lisboa, gostei mais, gostei muitíssimo. Venho recomendar esta ida ao teatro. E, entretanto, deixo-vos as reflexões que me provocou mais este trabalho do meu encenador preferido, Luis Miguel Cintra. Até porque, julgo eu, não perdem nada em pensar no que vão ver antes de o verem.




UMA TRAGÉDIA POLÍTICA

Como se fosse um texto grego clássico, “Pílades”, de Pier Paolo Pasolini, é como uma continuação da Oresteia de Ésquilo. Nessa peça da história mitológica grega, Agamémnon, rei de Argos, regressado da guerra de Tróia, vai ser assassinado por sua mulher Clitemnestra, de conluio com o seu amante Egisto, que tinham tomado conta do poder na cidade. Orestes, apoiado por sua irmã Electra e seu amigo (ou mais do que amigo) Pílades, vinga o pai Agamémnon, matando a mãe Clitemnestra e o seu amante Egisto. Esta peça começa quando os corpos de Agamémnon e Clitemnestra foram retirados da praça e sepultados – e quando os protagonistas Orestes, Electra e Pílades vão dar corpo a um drama político.

Pasolini, um comunista, cristão, heterodoxo em qualquer dos casos, com uma sexualidade que, a seu tempo, era também ela heterodoxa, escreveu “Pílades” em 1966 – e isso nota-se nos pormenores, mas a temática é mais pungente agora do que nunca. Não é um texto sobre a Grécia antiga, é um texto sobre a política total no seu tempo de “ocidental”. Vale a pena, contudo, começar pelo que é mais estreito e menos universal, porque também ajuda a entender. Argos é a Itália, o momento é depois da Segunda Guerra Mundial e da morte violenta de Mussolini, a democracia é o Partido da Democracia Cristã a governar apoiado no Partido Socialista (que sempre foi um dos partidos mais à direita na “família” socialista europeia) e desse modo (em homenagem à guerra fria) excluindo do poder o Partido Comunista Italiano, um dos partidos mais fortes e mais arejados de ideias que existiram no comunismo ocidental. Numa peça que é, sem rebuços, filosofia política escrita por um militante de tantas causas, este contexto imediato não deve ser ignorado – mas as questões mais profundas são outras.



A TRISTEZA DEMOCRÁTICA

Orestes, filho de reis, vai ser o novo chefe de Estado. Eleito. Um “príncipe democrata”. Um parlamento em funções. Pílades vai desiludir-se com esta democracia e fazer-se líder revolucionário. Electra, que começou por apoiar Orestes, vai liderar a reacção. O princípio desagregador é a própria realidade desta democracia – que está aqui para representar a “democracia burguesa”, esta democracia em capitalismo, como continuamos a ser.

(APARTE. Aviso aos mais jovens: usamos aqui uma linguagem que já não se usa, uma linguagem que alguns dirão, com um certo desprezo, ser “marxista”, mas que era a linguagem corrente de muita gente que pensava o mundo quando Pasolini viveu, escreveu e morreu.)

A democracia que aqui está em causa é uma democracia importada: Orestes inspirou-se em Atenas para a instituir em Argos, tal como a Itália copiou a América vencedora da guerra. É uma “democracia americana” que se impõe, o que desgosta Pasolini, como diz o Coro: “O rendimento de cada um aumentou para o dobro. As lojas da nossa cidade multiplicaram-se: os nossos produtos impõem-se nos mercados mundiais, como se tivessem sido abençoados e trouxessem consigo o sinal prepotente da nossa nova fortuna. As casas velhas foram deitadas abaixo e novos prédios se erguem entre as barracas que restam. O dinheiro que corre é como a juventude que não tem tempo de pensar noutra coisa a não ser em si própria. E todos nós participamos nesta ânsia de crescimento. Cada novo lucro é mais um passo a separar-nos dos velhos Deuses e da sua injustiça.” Sim, são estas coisas de que todos gostam que desgostam Pasolini na democracia, porque assim se vê, com tristeza, o que faz a turba gostar da democracia.

A democracia perde vida e torna-se rígida, o formalismo perde substância, como mostra o Coro quando diz para Orestes: “tu és o inventor da tua liberdade; (…) mas (…) para nós, essa liberdade tornou-se, pelo contrário, uma lei: tomou o lugar da religião, e da religião lhe vêm as certezas absolutas”. E acrescenta, a verbalizar o problema do poder dentro da própria democracia, que se trata “de um poder democrático que nós, na realidade, detemos pela força”. E o povo sente esse poder como força que lhe pesa, sem que lhe pareça fazer muita diferença a reivindicada democraticidade.
Pílades vai cansar-se de uma democracia que prolonga as velhas divisões e que se tornou um esqueleto sem carne. Pílades vai tornar-se um líder revolucionário.

O revolucionário fala contra Orestes em nome dos excluídos da democracia capitalista, aqueles que, alegadamente, não estão melhor do que no antigo regime: “não entendes aqueles que continuam como no tempo dos Reis, aqueles que trabalhavam nos teus campos, como ainda trabalham, que nada têm para contrapor à sua velha fé selvagem, nem sequer a riqueza ou um sonho de riqueza”. O projecto de Pílades, na medida em que haja um projecto (o que me parece duvidoso) é um projecto de igualdade: “Cairão todas as barreiras que se crêem inabaláveis, como essa barreira que separa os jovens dos velhos. (…) Cairão depois as barreiras entre operários e intelectuais.” Só que, por vezes (ou essencialmente?) o revolucionário, que é também reaccionário, pode simplesmente ser uma força de negação: “talvez não fale em nome de coisa nenhuma, mas somente contra tudo”, “não há em mim acto ou palavra que não seja de negação”, e isso pode ser, afinal, apenas a negação da Razão (a isto voltaremos).

Tendo este Pílades sido inventado por Pasolini, a revolução de Pílades não é muito certinha segundo os bons manuais. O exército de Pílades: “camponeses, na sua maior parte; o resto, operários do mais pobre que há, desempregados, imigrados dos campos cheios de filhos; e os bêbados, os que exploram as mulheres, os ladrões.” Bom, mas esta, sendo uma descrição de Orestes, pode estar eivada de má vontade. Ou então Pasolini, na sua radicalidade, pessoal e política, já não se contenta com o proletariado como sujeito da revolução, passa para o “lumpenproletariat”, que os próprios comunistas não acolhem na sua visão da revolução.

(APARTE. Como já ninguém fala desta maneira, façamos a tradução: o “lumpenproletariat”, numa certa linguagem marxista, designa sectores da população que, embora miseráveis nas suas condições de vida, são também desprovidos de consciência política, ou sequer consciência dos seus próprios interesses como grupo social, e, por isso, prontos a serem manipulados pela burguesia contra o próprio proletariado, sendo, ainda, susceptíveis de caírem numa certa imoralidade que repugna os valorosos revolucionários.)

(APARTE. Neste espectáculo, não sei bem onde está o “lumpenproletariat”: está no exército irregular de Pílades, como pretende Orestes, ou está numa posição excêntrica a todo o esquema de poder da peça? Luis Miguel Cintra, como tantas vezes faz, intercala em “Pílades” outros textos de Pasolini e, com esse recurso, introduz uma “senhora”, assumida por um rapagão um tanto atoleimado, que anda por ali grande parte do tempo sem pescar grande coisa da tragédia em curso. A tragédia política à frente do seu nariz e ela a pescar e a cantar: será essa personagem o “lumpenproletariat”, dormente face às lutas do mundo?)



Seja como for, os chefes de facção, mesmo o chefe da facção revolucionária, são, todos, gente bem, gente da alta. Quando Pílades avança sobre a cidade, para levar a sua revolução a Argos, fala como o intelectual burguês que faz de chefe do proletariado, que acha que lhe cabe pensar em nome desse proletariado: “Agora que estou prestes a conquistar-te como um rebelde, como chefe de gente que não pode pensar em ti como eu penso – eu, que estive do lado dos poderosos – sinto que nunca te amei com tão incurável amor.” Pílades é mais um burguês a querer ser a vanguarda do proletariado, ao ponto de declarar a sua condição: “um homem rico sonha ser um homem pobre”. Será como querer ser operário, em vez de intelectual, para poder pertencer ao comité central do partido do proletariado?

Já se disse: Orestes é um democrata: “Agora, um tribunal, também ele livremente eleito entre o povo de Argos, irá decidir se devo continuar a ser Rei, e como reinar.” É isso, a partilha do poder, que escandaliza a reaccionária Electra, que acautela Orestes contra esse “quebrar a corrente que nos une a um passado onde reina a luz”. E o passado tem os seus instrumentos, que Electra identifica: “Sim, vou ter comigo os escravos voluntários dos tiranos”.


Electra representa os que, perante a desilusão com o novo regime, se viram para o Passado, para os Reis que foram o poder, para o culto das Fúrias, para a religião. O Coro, que julgo representar neste momento o parlamento, os eleitos que governam, rendidos como estão a tomar a razão de Estado como a nova religião, aconselham Orestes a fazer uma aliança com Electra. Isso seria como uma espécie de aliança entre diferentes partidos burgueses, para fazerem face à revolução, que o Coro diz assim, falando para Orestes: “Nós, teus companheiros, e os companheiros de Electra, somos pessoas iguais: nada de real nos divide.” E a própria Electra vai propor essa aliança, com a contrapartida negocial de repor as antigas divindades, “a reconstrução do templo e do culto das Fúrias”. E Orestes aceita a aliança. O príncipe da deusa Razão, Atena, aceita uma aliança com a irracionalidade, em nome da preservação do seu poder: “Vamos precisar, irmã, que elas [as Fúrias], de baba na boca, nos incutam, aos gritos, sentimentos de amor irracional e de morte idiota: amor à pátria, morte aos nossos pobres inimigos”. Electra resume assim a aliança: “As Fúrias no templo, Atena no Parlamento…” e o Coro (o próprio parlamento) aprova, incentivando Orestes: “Abraça a tua irmã reencontrada e com ela a parte mais ardente e obscura da cidade”.


O PRAGMATISMO DISSOLVE A DEMOCRACIA

Em resumo: as alianças que permitiram a democracia desfazem-se todas. “O povo | unido | jamais será vencido” – ou nem por isso. Pílades colaborou com Orestes na instauração do novo regime e depois separa-se. Também a reaccionária Electra foi aliadas de Orestes, como este diz: “minha irmã Electra, que tanto me ajudou (…) a matar os tiranos, hoje já não está connosco. (…) os seus amigos e aliados encontrou-os ela, precisamente, entre os que outrora nós ambos mais odiávamos”. E, afinal, Electra acaba aliada a Orestes para conter Pílades.

(APARTE. Convém, de vez em quando, ir fazendo as contas ao quadro político italiano do tempo de Pasolini, que foi mencionado no princípio deste texto. E, se vos parecer bem, vão fazendo paralelos com o mundo de hoje.)

Como se desfez tão larga aliança? Mais: como se fazem e desfazem alianças tão estranhas e tão contrárias? Como se tornam amigos os inimigos e inimigos os amigos? É o pragmatismo excessivo da luta pelo poder. Pílades, no fim, depois de consumada e compreendida e aceite a sua derrota: “Mas eu, dando-te ouvidos [à Razão, Atena], lutei simplesmente para me apoderar do poder! E agora vejo que essa é a mais culpável das culpas. A ideia de me apoderar do poder (embora não propriamente por ele) é, só por si, a mais culpável das culpas…” Se a luta pelo poder explica tudo, então explica demasiado; e, explicando demasiado, não explica nada. Como se diz, ficamos apenas com o poder pelo poder.

“O poder pelo poder”, eis um chavão.

Não desdenhem tão apressadamente dos chavões.

Vejam.

Eis outro chavão: é o problema da alternância sem alternativa.

É que, afinal, são todos um bocado iguais de mais. E como isso pode fazer mal à democracia…
Pílades é Orestes, essa é que é essa. O Coro diz a Orestes: “nós não temos medo de Pílades; temos medo do que, em Pílades, provém de ti. Acaso existiria Pílades, se tu não existisses?”

Pílades diz aos seus revolucionários, quando Orestes aparece para conversações: “Eu, companheiros, não sou um bárbaro… E não é por acaso que o meu maior inimigo é o meu maior amigo.” Ele está a referir-se a Orestes. Nessa mesma conversa, Orestes diz a Pílades: “és parecido com Electra!”

(APARTE. Esta peça de Pasolini é umas das que ele queria para um “teatro da palavra”. Um teatro sem sombra de entretenimento, um teatro de ideias, um combate pela alma do mundo, ou, talvez melhor, pelas vísceras do mundo. Podemos pensar que essas ideias de estética e de política são coisa de esquerdistas radicais. Mas não é assim necessariamente. Lembremo-nos do “teatro estático” de que fala Fernando Pessoa, no que foi publicado como Páginas de Estética e de Teoria Literária, e talvez não andemos longe: “Chamo teatro estático àquele cujo enredo dramático não constitui acção — isto é, onde as figuras não só não agem, porque nem se deslocam nem dialogam sobre deslocarem-se, mas nem sequer têm sentidos capazes de produzir uma acção; onde não há conflito nem perfeito enredo. Dir-se-á que isto não é teatro. Creio que o é porque creio que o teatro tende a teatro meramente lírico e que o enredo do teatro é, não a acção nem a progressão e consequência da acção — mas, mais abrangentemente, a revelação das almas através das palavras trocadas e a criação de situações.” Neste Pílades há conflito, mas não nos é mostrado verdadeiramente um enredo a desdobrar-se, no sentido em que não nos é dado a ver como de um estado do mundo se passa a outro estado do mundo. Os sucessivos estados do mundo simplesmente sucedem-se. Somos nós que imaginamos a acção, quer dizer, o que tiveram de fazer as personagens para que o mundo tenha mudado. O que teve de fazer o mundo para que as personagens mudassem. Podemos deduzir mais ou menos a acção a partir do que é dito, mas essa responsabilidade é nossa e é pesada. É-nos mostrada a palavra e uma sucessão de quadros mais ou menos estáticos e, por isso – apesar de Austin, “How to do things with words” – fui buscar a designação de Pessoa, porque este teatro só se compreende pela pura palavra.)

E como falar de política hoje, a partir de um teatro político?



A POLÍTICA É SUJA?

Luis Miguel Cintra, o encenador-filósofo, tem dito, a propósito deste espectáculo, que “a política tornou-se numa coisa suja” e, julgo que sintonizado com Pasolini, tem passado a mensagem de que este “Pílades” quer dizer que “o mal é o poder”.

Parece-me estreita essa leitura. E julgo que, passada assim, essa visão de Pílades nos empurra para um certo desaproveitamento do significado desta peça.

Há muito quem queira que os cidadãos se desinteressem da política. Que o teatro não vá, inocentemente, fazer-lhes o jogo. Porque esse desinteresse enfraquece a política democrática face aos que preferem (e têm meios para) comprar a política e as decisões políticas. Para enfrentar essas forças, temos de recusar essa armadilha da antipolítica. Temos de, como dizia o outro, “sujar as mãos”. Sujar as mãos é correr o risco de sermos muito menos do que perfeitos. Correr o risco do erro e da dor que ele provoca. Temos de correr o risco da política. Isso passa, também, por recusar uma visão unilateral do poder.

Quando Pasolini e Cintra dizem que “o mal é o poder”, estarão a falar do “poder sobre”, do domínio de alguém sobre alguém. Concordo que não é a esse aspecto do poder que uma política democrática deve aspirar. Mas há outro sentido de “poder”. É o “poder de”, o poder de fazer, o poder de realizar – esse poder que falta às pessoas e às comunidades a quem tem sido roubada a autonomia, que têm sido paralisadas pela incerteza que gera medo e paralisia. É este “poder de” que temos de reconquistar, porque está no cerne da própria política democrática, porque só esse “poder de” pode fazer com que não sejamos sufocados pelos poderes não-democráticos que puxam os cordelinhos.

E, já agora, sempre invoco Pasolini contra Pasolini e Cintra, neste particular que é o maldizer o poder. Pasolini, escrevendo sobre este seu texto, comentou a dado momento a dualidade das deusas tradicionais, que ora são Fúrias (divindades de irracionalidade selvagem e reaccionária), ora são Euménides (divindades, também da irracionalidade, mas que se associam à Razão como o seu necessário contraponto em capacidade de sonho e de sentimento). Ora, Atena, a deusa da Razão, tem uma estranha relação com as divindades da irracionalidade, que são capazes de se mudar de Fúrias em Euménides e de Euménides em Fúrias. E, assim, acontece que as Euménides, que num dado momento apoiam Pílades e a revolução, apoiam depois Orestes e o “progresso” burguês. Ora, sobre isso escreve Pasolini: “Pílades, assim, abandonado pelas deusas (observe-se que são as mesmas deusas da democracia liberal a inspirar a revolução socialista) não tem mais nada a fazer, e só lhe resta uma única verdade: o horror pelo poder.” Quer dizer: o horror pelo poder, que Pílades manifesta, é o amargo de boca da derrota.

Assim, esse horror pelo poder é outro ingrediente da impotência do revolucionário, onde acaba esta história. Consumada e, afinal, compreendida a derrota, diz Pílades: “Pergunto-me a mim mesmo porque é que, sendo uma tragédia, não se fecha com novo sangue? Pergunto-me a mim mesmo que sentido tem a intriga de uma vida que tanto buscou algumas verdades desfazer-se agora em pura e simples incerteza?” É essa fuga da política, como aceitação da derrota, que recuso. Embora a compreenda.




A TRAGÉDIA DA RAZÃO É O ESQUECIMENTO DA CARNE

Esta é, como se vê, uma tragédia política. Democracia burguesa, reacção, revolução. Há, contudo, uma camada mais profunda: a razão e o irracional como forças subjacentes à vida das comunidades políticas.

Atena, a nova divindade, trazida por Orestes, aquela que Orestes reclama tê-lo iluminado, é a Razão. Orestes vem para libertar a nação da pobreza e da religião: ele julga poder fazer isso porque Atena é uma deusa sem religião. O que subjaz à tragédia política é a tragédia da razão – por isso a peça conclui com uma frase de Pílades: “Maldita sejas tu, Razão, malditos todos os teus Deuses, e todos os Deuses.”

O racionalismo hipertrofiado entende-se como o substrato do progresso. O opositor está nas “forças mortais do Passado”. O passado é entendido como um peso, de que precisamos livrar-nos. A Razão é fulminante, dirige-se como uma seta para a verdade, seja lá isso o que for. As intervenções de Atenas são sempre repentinas: “Em pouco tempo – no espaço de uma noite! – a cidade cresceu, mais do que em séculos e séculos de vida.” A razão-imperial não quer saber da história. A revolução tão-pouco. Esquecem-se de que muito do passado fica no futuro (não somos instantaneamente reprogramáveis como se fossemos robôs).

(APARTE. A “Revolução Cultural”, de Mao Zedong, na China, começou em 1966, ano em que Pasolini terá escrito esta peça, que foi dada à estampa em 1967.)

Para uma certa concepção da Razão, os seres humanos concretos nunca são sujeito da história, mas apenas o seu material. A astúcia da razão, em tonalidade hegeliana, fala pela boca de Orestes dizendo a Pílades: “Pois fica sabendo, que pela segunda vez na nossa história, Atena me apareceu… E que por ela soube desse futuro que agora precisamente se concretiza. Não és tu que deves fazer a verdadeira revolução de Argos, mas sim ela, como fez a primeira. Apareceu-me lá no fundo da realidade, da real realidade, Pílades, a que nasce da acção do homem e da história não sonhada.” Quer dizer, o que faz o correr da história são as consequências não intencionadas, sequer pensadas, da acção humana no mundo e entre os outros homens.

O tema da luta entre a Razão e o Passado, vejo-o como o tema das instituições. E esse tema é o parente pobre, impensado, desta tragédia política. (Essa é, aliás, a nossa habitual tragédia política: que o pensar das instituições seja atropelado pela ideia de que “o mal é o poder”.)

O passado podia ser o compromisso entre os cidadãos de uma mesma comunidade, a solidariedade, o laço que não se troca por mais eficiência económica. O respeito pelo passado podia ser, por exemplo, o respeito pelo sistema de pensões, em vez de tratar os “velhos” e os reformados como aqueles que estão mais à mão de cortar. Esse “respeito pelo passado” seria respeito pelas pessoas concretas. Mas o reaccionário confunde o Passado com o regresso a um tempo anterior, como afirma Pílades: “Para todos nós, a maior atracção é o Passado, pois é a única coisa que conhecemos e que amamos verdadeiramente.”

Curiosamente, passa por Orestes aquilo que verdadeiramente dilacera o significado das instituições, que é a luta entre, por um lado, uma concepção hiper-racionalista da acção, em que a razão se impõe instantaneamente, como se fosse transparente, unilateral e inequívoca, sem lugar para incertezas, e, por outro lado, uma concepção mais modesta da razão, uma concepção histórica que compreende uma elaboração lenta e sinuosa das razões e das acções de uma comunidade nas suas instituições. A concepção hiper-racionalista da acção justifica que, em nome de um raciocínio, se destrua a base normativa da vida de uma comunidade e os direitos das pessoas como pessoas. Por exemplo, em nome da suposta eficiência do “mercado livre” podem destruir-se todas as protecções dos trabalhadores numa relação laboral, com a desculpa de que, a prazo, todos ganharão com isso – sendo que essa “promessa” é garantida por uma determinada teoria económica “racional” e apesar de nunca em lugar algum essa promessa ter sido cumprida. Já uma concepção mais modesta da razão e da acção não aceitaria aventuras que, justificadas por teorias económicas, destruam os laços comunitários enraizados naquilo que, nas instituições, é “tradicional”. A cesura entre estas duas concepções de razão passa por Orestes, o qual, por um lado, se reconhece como herdeiro das instituições enquanto tradição (“sou filho de Rei, e por isso muito mais imerso no negrume e nos sanguinários deveres das velhas normas”) e, ao mesmo tempo, quer romper com as instituições para aceitar o deus racional que é Atena, porque “ela pede-vos esquecimento. Pede-vos que esqueçais o quê? O nosso Passado. Mas o Passado não pode morrer! Então ela… Transfigurou as mais feras e obscuras divindades do Passado…”. Atena, declara ele, libertou-o do passado.

De onde vem esta incompreensão das instituições? Vem da falta que a Razão tem de Carne. Atena, a deusa Razão, é aquela que “não tem pais”. Aquela que, contrariamente às pessoas e aos outros deuses, “não nasceu (…) de um amor entre dois desconhecidos”, “nada sabe do calvário que é uma carne a crescer”, que “recordações, não as tem: apenas conhece a realidade”.

Essa pobre realidade que deve merecer que sujemos as mãos.

Sujai as mãos. Ide ao teatro, ver este portentoso “Pílades”.

Ide.

(Também o cenário da Cristina Reis é lindíssimo. Nele as palavras pensam. E nós com elas.)

(As fotografias são de Luís Santos.)

Para saber mais, no sítio da Cornucópia.

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