31/10/14

carta de Luis Miguel Cinta sobre Pílades e o resto.



Luis Miguel Cintra escreveu uma reacção ao meu post "Pílades", de Pasolini, e de Cintra. Trata-se do meu comentário ao espectáculo que ele encenou para a Cornucópia e está agora no Teatro Nacional D. Maria II. LMC colocou-o no Facebook, porque a caixa de comentários aqui do blogue não é amigável. Eu também tentei, mas o texto dele não cabe numa caixa de comentários: não cabe em número de caracteres - e não cabe porque é demasiado interessante para ficar em posição secundária relativamente ao meu texto. Com sua autorização, copio para aqui o que LMC escreveu. Deixo, ao fundo, o link para a sua localização original.
"Pílades" pode ser visto no TNDMII até 9 de Novembro.

***

Querido Porfírio

A mesma atitude que te faz candidatar-te a interveniente da ILUSÃO (para quem não souber: o espectáculo que fizemos na Cornucópia com actores não profissionais), onde como filósofo que és, te pus de Sócrates por homenagem a ele e a ti, essa mesma razão te faz escreveres com toda a generosidade do mundo uma crítica tão importante ao Pílades, a tocar em todos os pontos importantes da peça, e ao contrário do que seria normal, felizmente achas que vale a pena: generosidade ou curiosidade, prazer de viver, tanto faz. Infelizmente é raro. Muito obrigado.

À tua maneira também tu és Pílades. Lindo, tanto trabalho, ver o espectáculo várias vezes, pensar, ler o texto, e tudo tão inútil, ineficaz… (ó eficácia, ó veneno) mas achaste que te merecemos esse amor, esse entusiasmo, e a vida é feita de coisas excessivas. Não do equilíbrio. Gostas de viver. Gostas com certeza, por infantilidade até, graças a Deus, que te tivéssemos mascarado de Sócrates. Quem te tivesse visto, como nós teus colegas no palco vimos, tão atrapalhado a tentar ralhar com o teu Efebo, percebia logo aquilo de que falo, não tens medo de te atirares para a frente. Quem não arrisca não petisca. Gosto de ti por esse lado. E uma mosca sabe que a tua crítica é a afirmação da tua amizade e simultaneamente a forma de me responderes porque , graças ao facebook, fui percebendo quanto te empenhaste também e para mim (e é um elogio) com toda a ingenuidade, na campanha recente de António Costa nas eleições do Partido Socialista e me fui metendo contigo como eleitoralista, tu que ao mesmo tempo me chamas filósofo e sabes que não voto, e te põe triste que não adira à tua atitude. Mas será ela contraditória?

Nunca tiveste de me explicar que defendias a Democracia Parlamentar. Não me surpreende, é o que acontece com alguns dos meus amigos mais velhos e sensatos, mas sabes quanto me aflige a falsidade, a mentira de todo o processo, a sua decadência: o jogo das campanhas, todo o lado publicitário, convencer as pessoas em vez de as deixar escolher, criar competição, etc,. É por razões que o sistema trai, fingindo que não lhe conheces os podres, que apoias o “nosso” candidato (sim, passa pela cabeça de alguém que eu não esteja do mesmo lado, e apesar de alguma decepção não o apoiei publicamente quando o elegemos para a Camara de Lisboa?), que te envolves nele. Por enquanto é apenas candidato dentro do seu partido… não entendo campanhas eleitorais dentro do partido como se fossem nacionais, ou já não há militantes? Tu, generosamente queres o bem, nem que seja o menor mal e se for preciso passas por cima de “pormenores”. Ir às últimas razões, isso é que te move, mas é isso que o sistema nunca permitirá, porque não pode deixar a nu as razões de fundo que lhe poriam a nu a mentira em que assentam. Não me espantaria que, aproveitando (e bem…) as tuas capacidades e o teu entusiasmo, te venham a propor um cargo de chefia onde serás melhor que outros, mas onde um dia te ouvirei a voz magoada dizer: eu queria mas não posso. Ou perceba que foges a encarar-me porque terias de confessar: eu já não sou o Sócrates da tua Ilusão.

Voltando ao nosso PÍLADES. Será possível não gostar do outro filósofo antigo, do peripatético senhor, que tanto contribuiu para a maneira como ainda hoje pensamos? A pergunta não é, infelizmente retórica. Apesar de isto ser irrefutável, é possível, sim, é possível não gostar nem deixar de gostar. È possível não saber. A grande maioria dos homens livres não sabe quem foi Sócrates. Mas há o Google, que nos dispensa a cultura por baixo preço nas telefónicas. Por isso nenhuma eficácia está em causa. Progredimos. E alguns portugueses saberão mais, acharão que se fala do senhor que presidiu ao Partido Socialista, há poucos anos no mesmo cargo que António Costa vai ocupar e que até trouxe a um pequeno almoço em Lisboa o Bill Gates, que me dizem que já não é o dono do Mundo, mas é um gajo fantástico, até anda de sapatos de borracha e jeans, super inteligente, que mandou, teve o poder de fazer ganhar tempo aos cidadãos do mundo, ou seja lutar contra a morte. Em vez de estudar, carregar numa tecla, em vez de perder tempo em transportes para nos encontrarmos com os outros, estar em contacto permanente com qualquer um. Mas associam-no também a um evidente incómodo porque foi nessa altura que começaram a sentir mais claramente que o Estado lhes estava a ir ao bolso.
E sabemos que há uma função ANIMAL que se confunde com vida: comer. E se foder se pode sem dinheiro, comer já é mais difícil. Talvez seja por aí que a felicidade se actualiza.
Falas-me do poder de. Isso é bom. Mas isso não é poder, é liberdade. Achas que o nosso António Costa, quando se Deus quiser for 1º ministro, conquistará a liberdade de? Terá, quando muito, algum poder de criar mais progresso, melhor aproveitamento dos recursos, criar mais riqueza, nem que seja para todos, mas sabemos que a acumulação de capital, que pode gerar mais progresso, não é feita para todos, e que para que isso aconteça, têm que estar de acordo os detentores do dinheiro.

Perante esta situação, mesmo tendo os dois o mesmo objectivo, a vida nos separa. É disso que o PÍLADES do Pasolini fala. Nas duas atitudes, a de Orestes e a de Pílades, na separação de que terá sido ou devia ser o par amoroso, estão simbolizadas duas maneiras de actuar. A trágica alternativa do nosso tempo. E é preciso entendê-la. É a falta de ideologia que temos de combater. Criar em cada pessoa a necessidade de entender-se, de decidir com a sua própria cabeça, ver o que o mundo contemporâneo civilizado lhe veda: a consciência do tempo onde para os seres humanos impera a Morte. “Pulvis est et in pulvis reverteris”. Porquê, perguntarão, que se lucra com isso? Menos dias bem passadas, mais desconforto. Pois, depende do que desejamos.

Sou demasiado ambicioso para não ver no Homem e na vida humana uma coisa tão extraordinária que só com uma explicação metafísica me pacifico. Só nalguma contemplação da vida e na alegria de me ter sido dado nela participar, me encontro com o meu mais profundo desejo: ultrapassar-me, que os homens vão sempre mais longe na consciência do absoluto que lhes foi dado conhecer. O meu desejo é contribuir para mudar as mentalidades, no sentido oposto ao do aperfeiçoamento técnico, ao progresso. Para que hei-de querer progresso? O que eu quero é ser feliz. A arte pode maravilhosamente dar experiências de felicidade: tu sabes do que falo, a nossa ILUSAO tê-lo-á sido. Mudou um bocadinho da maneira de pensar de muita gente. Perguntam-se as pessoas: ao Pílades que lhe acontece no fim da peça? Fica isolado, sozinho, estéril? Talvez. Não se suicida. Mas tu que viste e pensaste graças à peça do Pasolini no seu trajecto por oposição ao de Orestes, já ficaste menos sozinho, menos isolado, menos estéril. Antes de votar já saberás melhor o que estás a fazer. E terás visto uma cenografia, umas pessoas em cena, uma beleza que não está prevista na Diferença que a Democracia prevê que possa ser integrada no sistema, não se pode prever, mandar. Diferença. Mas que, eu sei, se o António Costa ganhar, será apesar de tudo mais alargada. Porquê? Porque a vida faz-se de pessoas e não de partidos ou esquemas de gestão e planeamento. E acontece que o António Costa é filho de um dramaturgo, a sua mãe soube e gostava de estar em contacto com a vida real, foi uma boa jornalista, ele próprio tem uma biografia de lutador político de oposição mesmo já dentro do regime que sucedeu ao 25 de Abril. Foi educado para além do sistema educativo. A educação, isso já me interessa. Pelos que vêm depois. Porquê? Porque a minha própria vida mo ensinou.

Fui excepcionalmente bem educado por razões alheias ao poder: o Dr. Sérvulo Correia, chefe eficacíssimo do Liceu Camões, porque tinha o poder de, e à luz de uma ideologia que lhe permitia pensar que tinha de haver elites para mandar como deve ser, para o progresso, e quem sabe se, na cabeça dele, para a felicidade, juntava nas melhores turmas, formadas pelos alunos de boas famílias ou os que tinham melhores notas, os melhores professores. Assim fui fabricado, porque não sendo possível a pura competência técnica, os professores da oposição que juntou, que a tinham, e com quem convivi, também nos ensinaram a pensar, coisa imprevista. E comigo muita gente que ocupou postos de poder ou não, ficou a querer assumir responsabilidades públicas: o António Rendas é agora o Mega Reitor das Universidades, o António Guterres é quem se sabe, o Nuno Júdice é o diplomata e o poeta que se sabe, o Ramos Machado vi-o Embaixador no Cairo, etc. Gente da minha turma. E foi assim que o poder do Dr. Sérvulo Correia de educar bem alguns alunos deu frutos bons mas não conseguiu o que, honesto e honrado como era, queria, que a História seguisse um rumo diferente. Mas o Dr. Sérvulo Correia com o seu poder de também criou, até naqueles alunos, vontade de transformar o Mundo para melhor, nestes casos, pelo menos, um sentido de responsabilidade diferente. Por certo não terá conseguido que o mesmo se dissesse de todos os alunos, sobretudo das turmas “más”. O meu sentido de responsabilidade vai mais longe ainda, ajudar a criar mudanças individuais, porque aquilo de que falamos não pode resolver-se pelo progresso e pela eficácia. Mas agradeço-lhe ter pensado em construir pessoas como primeiro valor. Os movimentos de massas assentam no desprezo por cada indivíduo. A ideia de que tem de haver leaders, de que o povo não sabe o que é bom para si próprio, isso que nos dias de revolução tanto discutimos, em vez de tomarmos o poder,, tem uma resposta muito clara, aprendida com a vida e Pasolini como artista. Porque o povo deixou de ser povo, o pro gresso não o deixou ser quem era e a sua maneira de viver já não corresponde ao seu corpo, ao seu desejo. As casas não são as que ele inventou, a velha cidade tornou-se gigantesca, as pessoas não têm relação directa com a natureza, as suas relações não são as que inventaram, são copiadas dos modelos que a civilização, o progresso, inventou para fazer dinheiro, para lhes trocar a liberdade por dinheiro. O prolongamento do actual regime de Democracia Parlamentar e a negociação de uma aparente paz só adia o problema. Aí está porque ponho em cena o PÍLADES de Pasolini, e vou de facto à loja do chinês onde se compra mais barato sem publicidade pelo meio, correndo o risco de falhar, porque alguma coisa de automático se interpõe entre o projecto da companhia (que teve neste caso a cumplicidade até do Director do Teatro Nacional S. João), e aquilo a que se poderia chamar o público: as pessoas que gostaríamos que o vissem. Isto porque o espectáculo não conseguiu despertar a curiosidade das pessoas do Porto, ou apenas de muito poucas. Em contrapartida, provavelmente por razões circunstanciais, ou porque dependeu de pessoas diferentes, ou porque a cidade de Lisboa é diferente, em suma , porque um país se faz, para além do regime político, sobretudo de pessoas vivas, cada uma diferente, com pessoas e não com percentagens de números de espectadores, em Lisboa há muita gente que nesta primeira semana de espectáculo tem tido curiosidade pelo menos de nos ir ver.

Penso sincerissimamente que alguma mudança radical do sistema político terá de acontecer, porque o Democracia Parlamentar já não sabe responder à nossa sociedade. A Democracia fez-se para espelhar a vontade de cada cidadão. O actual sistema político serve-se da democracia para anular cada cidadão num massificação que destrói a felicidade humana e substituiu-a pelo poder de compra. No meu caso a maneira de colaborar na mudança, de amar a vida e os que viverão depois, é agir de acordo com aquilo a que a minha educação me levou, o gosto de cada pessoa como mistério sagrado. Isso passa por ajudar a criar desejo de um absoluto que eu nunca verei mas talvez alguém um dia veja. Combater o cinismo. A mentira social.

Dizes que sou “encenador filósofo”. Mas juro que não sei nada de filosofia. Penso, ok, isso é verdade. Mas tu que és filósofo ainda não pensaste no que te digo? Ensino o Padre Nosso ao Vigário?

Escolhemos maneiras de actuar diferentes. A nossa discordância é um exemplo de como o tema e a função deste espectáculo, são pertinentes nos dias que vivemos. Não tem um carácter elegíaco, tem uma capacidade de intervenção que o sistema (político, pois) lhe nega. Obrigado pelo que até agora não previste mas já fizeste com a participação na campanha António Costa. Obrigado por me teres feito responder-te. Faz parte daquelas coisas que não entram nas urnas de voto, a lealdade para com quem nos é leal, o respeito pelo outro. A liberdade.
Ser cristão ajuda depois a não ter medo de ser vítima.

Luis Miguel Cintra

https://www.facebook.com/porfirio.silva.56/posts/4516612290099?pnref=story

6 comentários:

jose neves disse...

LMC, mais um desiludido da vida quando o determinismo fatal, a certeza absoluta do fim bate à porta, é fatal; ficam trágicos.
Quando chega esse momento os pensadores, aqueles que pensam o sentido da vida, é-lhes fatal; olham para trás.

Porfirio Silva disse...

Não concordo com essa interpretação acerca de de LMC. O cepticismo é necessário. Não basta, mas é necessário. E o mesmo digo da crítica radical.

jose neves disse...

Caro,
E porquê esse "cepticismo" chega sempre no tempo de descrentes e com o sentimento de "vencidos da vida"?
Quem, de certo modo aqui, faz critica radical à democracia representativa e ao progresso é, precisamente, LMC.
E é por via desses desencantamentos, algo radicais que, regra geral, os pensadores politico-filósofos, à falta de futuro olham para trás, o local mítico onde é sempre possível pensar e ver a felicidade.
E LMC, ele o diz, queria era ser feliz.

Porfirio Silva disse...

Quem acredita no progresso como se acreditasse em Deus, espanta-se com os que criticam "o progresso".
Eu não acredito no "progresso" quando é só progresso dos "de cima".
Quem acha que está "tudo bem" na democracia representativa, escandaliza-se com os críticos da democracia representativa.
Eu creio que a democracia representativa tem, nos nossos dias, graves problemas - e, por isso, quero deixar-me questionar pelos críticos.
Não vejo LMC a olhar para trás, nem o vejo reaccionário.
E fico preocupado quando, em nome do progresso e da democracia, não percebemos que, exactamente, o que todos querem é ser felizes.
Quando as ideias nos impedirem de perceber que todos querem é ser felizes (embora não saibamos bem o que isso é), nesse momento as nossas ideias tornaram-se perigosas.
Cuidado, não tomemos por simples o que é complexo, nem tomemos por preto-e-branco o que é de muitas cores.
(Já agora, não percebo em que sentido LMC seja um "vencido da vida".)

josé neves disse...

Caro,
Eu não afirmei que LMC seja, é ou foi um "vencido da vida". Penso o contrário, digo é que ele, hoje, tem esse sentimento. Aliás, o mesmo penso quanto aos que se auto-intitularam "vencidos da vida" no Sé. XIX e o seu problema foi estarem, no seu tempo, à frente do tempo cultural do país.
O mesmo posso dizer acerca do que diz acerca de quem "acredita no progresso como se acreditasse em Deus". Também aqui nada do que digo o pode levar a concluir que acredito cegamente no progresso. E igualmente, também não pode deduzir da minha crítica que acho que está "tudo bem" na democracia representativa. Acho até que, com o liberalismo individualista Hayekeano, tudo virou para pior do que antes.
E chateia-me que filósofos conhecedores como José Gil ou Miguel Real e outros, ainda não tenham percebido, teoricamente com Protágoras e praticamente com Péricles que, a aplicação de uma ideologia-politica sobre a polis é, necessariamente, a mais relativista de todos os exercícios filosóficos.
Andaram, afanosamente ufanos e excitados, a trabalhar para derrubar Sócrates sem pensarem bem, como era sua obrigação de filósofos, o que seria o futuro com passos coelho.
Agora, provavelmente desiludidos, sentem-se algo como LMC.

Porfirio Silva disse...

Ok, clarificou algumas questões, respondendo-me. Óptimo.
Quanto às capacidades de previsão dos filósofos: pois, há muitos barretes para enfiar, concordo.