10/10/13

a propósito de uma imagem de Nossa Senhora de Fátima como passageira da TAP.


A notícia é, basicamente, esta: A imagem de Nossa Senhora de Fátima, viajando para Roma, vai «ocupar um lugar como um passageiro» durante a viagem de avião, em vez de ir no porão.
Esta notícia provocou "por aí" (redes sociais, blogosfera) reacções de escândalo ou escárnio. Sendo sério o assunto - quero dizer, sendo sério que este facto provoque estas reacções - deixo aqui uma breve opinião que escrevi noutro lugar. (Declaração de interesses: sou agnóstico.)


Muitas tradições tratam certos objectos como entidades especiais devido ao significado que esses objectos acumularam no processo de partilha de uma história comum das pessoas nessa tradição. Muitas tradições religiosas fazem isto, mas muitas tradições não religiosas não se distinguem delas neste aspecto. Só alguém que despreze profundamente o carácter histórico e simbólico da cultura humana pode espantar-se com isto.
Em nome da "razão", muitas correntes de pensamento desprezam esse carácter histórico (esse carácter institucional) das sociedades humanas. Por exemplo, o chamado "neoliberalismo" em economia comete esse erro, porque pretende que somos "calculadores de oportunidades", egoístas racionais instantâneos, em vez de perceber que somos membros de comunidades com história e tradição. E, como membros de comunidades com história e tradição, partilhamos símbolos e os seus significados, os quais vão sempre muito além da materialidade imediata e míope.
Do ponto de vista do debate interno às religiões, a única questão relevante aqui é a da idolatria. Adorar uma estátua de uma santa pode ser classificado como idolatria, mas esse é um debate interno ao universo religioso. Querer entrar nesse debate a partir de uma posição anti-religiosa é uma pretensão que me escuso a qualificar, para não ter de explicar o meu entendimento do conceito de má-fé.
A nossa sociedade está a ser destruída pelo aviltamento do simbólico. Os símbolos da república estão a ser conspurcados pelo desprezo dos valores republicanos. Algumas pessoas, empurradas por esse generalizado desprezo pelo valor do simbólico, só vêem objectos-sem-nada-mais-que-matéria à sua volta. Merecia um novo ensaio sobre a cegueira.

6 comentários:

Jaime Santos disse...

Porfirio, discordo em parte do que diz. Se alguem, pela importancia ritual de um simbolo (por aquilo que ele representa, mas tambem pela historia daquele objecto em particular), decide, dentro da sua crenca religiosa, que este nao deve viajar como uma mercadoria e pagar por isso, quem sou eu para criticar tal coisa (o simbolo e afinal aquilo que une, neste caso, julgo eu, o terreno e o sobrenatural). Mas nao entendo porque chama o aviltamento dos simbolos republicanos aqui a colacao. Se quisermos fazer o paralelo, esse aviltamento no campo religioso vira do desprezo dos valores religiosos pelos proprios crentes, nao de uma eventual chacota por parte dos nao-crentes, que tomam este episodio como um mero exemplo de supersticao (e falham o alvo)...

Porfirio Silva disse...

O aviltamento do simbólico atinge todas as famílias. O engano é pensar que podemos aviltar o simbólico dos outros sem rebaixar o nosso próprio regime simbólico. A questão não está em termos de valorar positivamente os símbolos dos outros, a questão está em tratar os símbolos dos outros como se eles não fossem símbolos. É como dizer que a bandeira nacional de França não é uma bandeira nacional, mas um mero pano: nesse raciocínio, não faz sentido pretender que o nosso "pano" é uma bandeira nacional. Podemos lutar contra a "bandeira francesa", mas isso respeita a pertença do símbolo à categoria de símbolo. O que critico no texto é que se pretenda negar a certos símbolos "dos outros" o estatuto simbólico, dizendo que são meras coisas.

Teresa Ferrer Passos disse...

A propósito de uma imagem de Nossa Senhora de Fátima como passageira da TAP:
Uma imagem representativa de uma entidade que respeitamos, amamos, veneramos, não deve ser tratada como um objecto material sem valor simbólico. Não fazia sentido colocar Maria, Mãe de Jesus Cristo, no porão do avião. Mas, o escárnio que se desenvolveu no Facebook - devido a ser considerada uma honra a colocação da imagem de Maria num lugar ocupado por qualquer viajante - denota a grande falta de sensibilidade humana pelos sentimentos dos outros.Teresa Ferrer Passos

Porfirio Silva disse...

Teresa Ferrer, para estarmos completamente de acordo eu gostaria de a ver declarar o seu respeito também por outros símbolos, que não apenas aqueles que a si mais a tocam. Que lhe parece?

Teresa Ferrer Passos disse...

Toda a imagem (escultura, pintura, retrato, etc)que representa uma ideia, um sentimento, uma comunhão, deve ser respeitada como algo de sagrado. É que possui uma dimensão maior do que o simples objecto. Por isso, também os símbolos da República, designadamente, devem ser tratados com respeito, com dignidade. Teresa Ferrer Passos

Porfirio Silva disse...

Certo, Teresa. Nesse caso, esse seu ponto de vista coincide inteiramenre com o que eu próprio expressei na posta.