08/05/12

romper com a troika.


Soares diz que PS tem de romper com a troika.

A ideia de "romper com a Troika", expressa como ideia de um interruptor, ligado/desligado, agora-sim-agora-já-não, cortar agora e cortar a direito, "romper" - é uma ideia demasiado simplista para o que está em causa.
Há uma distância entre ter engolido as condições enfiadas mais ou menos à força na nossa goela pelos homens do fraque, que deixaram ao país pouca margem para escolher, e ser ideologicamente entusiasta de Troika e mais ainda, como já se identificou publica e expressamente Passos Coelho. Certo, há essa diferença e ela importa. Mas os países não são "peixes binários", nem o vento sopra no modo tudo ou nada. Há uma complexa equação e há uma série de incógnitas em jogo, que envolvem múltiplos actores e múltiplos níveis institucionais. Querer que ignoremos isso e demos passos maiores do que a nossa perna é pura irresponsabilidade. E aqueles que pagariam o preço real da ousadia, nas suas condições de vida, se "rompêssemos" com quem nos empresta o dinheiro assim como quem dá cá aquela palha, merecem mais respeito.
Um federalista como Mário Soares (nisso, sigo-o) não ignora nada disto, nem atira as culpas para o papão da perda de soberania nacional. Mas deveria ter sempre presente que não é simples o trabalho que há a fazer para deslocar as placas tectónicas do pensamento único. As palavras de ordem demasiado simples ficam, em geral, aquém do esforço de pensamento e concertação que precisamos para resolver situações complexas. É que, como me lembrava há poucos minutos, desde Belgrado Zagreb, o meu amigo Z., "os grandes navios viram muito lentamente". E convém não os atirar contra os icebergues.

5 comentários:

ACÁCIO LIMA disse...

Lapidares considerações.

Boa Tarde.
Boa Semana.
Com Muito Apreço

ACÁCIO LIMA

Anónimo disse...

Porfírio,

Uma transformação política começa muitas vezes por um acto simples. Pode ser até uma simples enunciação.

Se o pressuposto for o de analisar tudo o que está em jogo antes de passar ao acto nunca se passa ao acto, já que a análise pode bem passar para o domínio do infinitesimal onde a distância entre 1 e 2 é infinita.

A diferença, no entanto, entre uma passagem ao acto que seja uma demonstração de impotência e uma que seja uma transformação dos acontecimentos depende da capacidade dos sujeitos do acto assegurarem a continuidade da novidade que inseriram na história.

Se o acto morrer consigo mesmo e deixar a situação intacta, quer dizer, não provocar uma saída da mera gestão de assuntos correntes, então foi um acto falso se, no entanto, houver consistência e continuidade em cima do acto originário face ao qual a gestão de assuntos correntes, a situação, que era o universal, se transforma num unilateral - dentro de um contexto que agora o excede e não mais se deixa capturar todo ele por esse ex-universal [tornado num unilateral] - então estaremos perante um verdadeiro acto [político].

Cumprimentos.

João.

Anónimo disse...

Gostaria de recomendar-lhe a leitura do texto de Peter Hallward "Politics of Prescription".

Posso dizer por mim que é muito raro andar a recomendar leituras aos outros no entanto, e abrindo aqui uma excepção, julgo que é um texto de interesse geral para quem se interessa por ciência política. O interesse deste texto é que ele sai da rotina do pensamento apolítico da política que as teses do fim da história nos tem legado nestes tempos e cuja manifestação dominante é a da redução economicista muito simpática ao liberalismo expressa, por sua vez, no 'mantra' "não há alternativas".

Se o interessar pode encontrar o texto ["Politics of Prescription"] disponível para visualização ou download em:

http://sites.google.com/site/imwgucberkeley/Home/peter-hallward-and-the-politics-of-prescip

Para uma perspectiva talvez mais à esquerda é também muito interessante o seguinte texto de Zizek:

http://www.lacan.com/zizbadman.htm

bem...afinal já são duas recomendações...

cumprimentos,

João.

Porfirio Silva disse...

João, obrigado pelas recomendações de leitura. Infelizmente não leio tudo o que gostaria, mas, felizmente, consigo evitar ler quase tudo o que poderia ser apenas reforço do que eu já penso.

Quanto ao passar ao acto e não analisar demasiado antes disso: é preciso ter coragem, hoje, para não andar a dizer aquilo que as pessoas, angustiadas, querem ouvir. É preciso deixar de dizer coisas simples, para não induzir as pessoas a pensar que há soluções simples. Porque, de facto, não há.

Anónimo disse...

"Quanto ao passar ao acto e não analisar demasiado antes disso: é preciso ter coragem, hoje, para não andar a dizer aquilo que as pessoas, angustiadas, querem ouvir. É preciso deixar de dizer coisas simples, para não induzir as pessoas a pensar que há soluções simples. Porque, de facto, não há."

Porfírio,

De acordo.

No entanto o que é talvez curioso observar é que hoje romper com a troika é o que parece menos simples, enfim que o mais simples é continuar com a troika. Que dizer, quem é que oferece soluções simples e enganadoras, os que querem continuar com a troika ou os que querem romper com a troika? Parece-me que não é claro e distinto.


Diria assim que um acto político verdadeiro embora se possa revestir de pressupostos tidos como simples não é, no entanto, uma simplicidade, até porque o que exige de si, quer dizer, do acto, do seu pressuposto político, é que este se sustente na própria diferenciação que ele introduz.

A questão portanto, a meu ver, retomando o recorte que fiz de sua resposta, não é tanto como refere o Porfírio que se aja sem analisar demasiado mas que se chegue a um momento em que se diga: "já se analisou demasiado".

Cumprimentos,

João.