24/05/12

enquanto os financeiros alemães inventam o tuga como euro português...


Os líderes da União Europeia encontraram-se ontem ao jantar e concordaram que as suas discordâncias não permitiam mais do que encomendar ao senhor Herman van Rompuy, presidente do Conselho Europeu, um estudo sobre perspectivas muito futuras de mutualização das dívidas soberanas na Europa. Como vem acontecendo com as cimeiras às dúzias dos últimos anos, isto provavelmente não quer dizer nada. É por isso que nem se nota muito a falta de Durão Barroso, que ainda aparece nas fotografias mas sem que se leia eco algum de alguma coisa que ele tenha proposto que tenha sido considerado relevante por alguém.
Claro que tudo isto é assim porque os teóricos da soberania dos Estados-nação, de direita e de esquerda, continuam a ter força suficiente para impor uma arquitectura institucional da União Europeia que não deixa fazer nada sem que se chegue a um perfeito consenso entre toda a gente sentada à volta da mesa. Sintomas - não causas, nem efeitos, mas sintomas - desse clima intelectual, que patina sempre nas mesmas poças de lama, são coisas como a extraordinária abertura que Pedro Lomba dá ao seu artigo de hoje no Público. Dizer - dizer não, passar a escrito - que a União Europeia é um território "cujas fronteiras ninguém sabe identificar com precisão", é um sintoma da falta de percepção institucional dos que confundem a União Europeia com a vaga "Europa". Se fosse mais claro para todos que pagamos todos os dias os delírios soberanistas de gente que não percebe que o conceito de "Estado" não tem a mesma idade do Condado Portucalense, mas que é uma construção, e que as construções servem para o que servem e podem ser deitadas fora se for necessário e conveniente, poderíamos então passar a outra fase do debate.
Esse é um ponto que o líder do PS percebe bem. O que António José Seguro está a fazer, bem, na qualidade de SG do PS, é tentar colocar o debate nacional em perspectiva europeia. O Parlamento aprovou ontem uma resolução retintamente segurista que "recomenda ao governo que proponha e apoie medidas de natureza institucional e políticas que vinculem juridicamente aos Estados Membros da União Europeia e que conformem uma agenda de crescimento e de criação de emprego na União Europeia". Só o PS votou a favor (votação final global), tendo-se abstido a maioria de direita e votado contra a esquerda da esquerda. No debate ponto por ponto, alguns aspectos da proposta do PS foram rejeitados por votação conjunta PSD, CDS, PCP/PEV e BE; outros mereceram a abstenção do Bloco; outros foram "substituídos" por texto da direita. Claro que, tivesse a recomendação ao governo sido aprovada tal qual o PS a propôs, isso não seria a salvação da pátria: a saída da crise não se faz com passes de mágica. Contudo, esta é a linha de procura em que o PS deve prosseguir e insistir: a saída para a nossa crise só pode ser uma saída europeia; o discurso simplista da esquerda da esquerda, quando se aproxima muito do mero "não pagamos", só poderia piorar a nossa situação, no imediato e a prazo (como até o líder grego do Syriza já dá sinais de perceber); a boleia que os fanáticos do liberalismo económico estão a apanhar da troika equivale a pedir mais chuva quando estamos alagados; a alternativa é outra orientação europeia, que não será fácil de construir, mas para a qual é preciso trabalhar, combinando rigor com mais justiça social e com políticas económicas focadas no emprego e na qualidade de vida das pessoas.
A estratégia europeia de Seguro não faz milagres. Aliás, nada faz milagres. Mas é a única via possível, em dois sentidos. Por um lado, é a única coisa que o PS pode fazer neste momento, consciente de que não pode contribuir para uma turbulência institucional que se pagaria com mais sofrimento de todos (esquecer isso foi o pecado da coligação negativa PSD, CDS, PCP, BE, quando entregaram a nossa cabeça numa bandeja aos mercados). Por outro lado, a manobra europeia é a única coisa que interessa a uma efectiva mudança de quadro que alivie a corda que nos aperta a garganta. Essa possibilidade foi o vento fresco que Hollande trouxe à Europa, por muito que isso desagrade aos comentadores raivosos com o despedimento de Sarkozy.

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