18/05/11

o facilitismo em perspectiva


Ninguém abomina mais do que eu o facilitismo. Mas também abomino a conversa da treta sobre facilitismo. A conversa que por aí vai sobre facilitismo nas Novas Oportunidades bem podia ser colocada em perspectiva.
Desde logo, uma formação elementar em lógica deveria fazer compreender que o argumento "eu conheço uns casos de facilitismo" não é argumento para ajuizar de um programa. Em primeiro lugar, porque "uns casos" não é base para avaliar o que se passa em centenas de milhares de casos. Na verdade, muitos dos casos invocados de facilitismo são de ouvir dizer. Depois, porque quem assim fala pressupõe, com demasiada facilidade, que tem competência (e informação correcta) para avaliar o que é e o que não é facilitismo. É típico: "ELES são todos uns ignorantes, EU é que os topo".
Valeria a pena, para colocar em perspectiva, fazer o paralelo seguinte. Aqui há uns anos, Portugal quase não dava equivalências a doutoramentos realizados no estrangeiro, e as que dava eram o cabo dos trabalhos (comissões complicadas, tempo infindo para analisar o objecto). Havia o reconhecimento propriamente dito e havia, separadamente, a equivalência. Podia percorrer e chegar ao cabo do calvário do reconhecimento ("toma lá, és doutorado"), mas, mesmo assim, sem equivalência, que estava dependente de uma comparabilidade relativamente forte com alguma coisa que existisse entre nós, o "ser doutor por extenso" podia não ser mobilizável, por exemplo, para prosseguir uma carreira docente decente no ensino superior. Argumento, claro: a qualidade. Era para preservar a qualidade! Não queremos cá doutoramentos que não satisfaçam os altíssimos critérios da academia nacional, que é a melhor do planeta e arredores.
Algumas vezes (as mais das vezes?), estes mecanismos têm uma explicação muito aborrecida: há sempre os que, estando do "lado de dentro do sistema", arranjam a desculpa do facilitismo para evitar que outros cheguem ao mesmo sítio.
Que tal vermos tudo isto em perspectiva?

7 comentários:

Anónimo disse...

O "eu conheço uns casos..." ou o "tenho ouvido que..." são exemplos exemplares (repetição intencional) de preguiça mental, ou melhor, de facilitismo intelectual.
O sr. João foi a Londres ver o filho, na vinda o avião faz uma escala técnica em Paris, ninguém sai do avião. O sr. João entretem-se a espreitar pela janela, é noite e chove, da escuridão vê sair um mecânico que atravessa a zona iluminada. O mecânico coxeia. O sr. João conta a viagem aos amigos, "e depois vim por Paris" e que tal? ora.. chove sempre, as francesas de noite nem se vêm, os tipos então, uma cambada de coxos.

Rui P. Guimaraes disse...

Uns casos? Sr Dr., so nao ve quem nao quer: http://www.youtube.com/watch?v=lMohuiM7Qfk&feature=player_embedded

Porfirio Silva disse...

Rui,
Tirando coisas genéricas, o que é que esta senhora que aparece no vídeo diz?
Que muitos candidatos apareciam lá porque o Centro de Emprego punha isso como condição para manter o subsídio de desemprego. Descontando a imprecisão com que isso é dito, há de facto prestações sociais que estão associadas a obrigações de prosseguir uma formação. E depois, isso é mau?
Diz que o coordenador queria saber os números previstos para a certificação para certos períodos. E depois, o que há de estranho nisso?
Não vejo nenhuma fundamentação, não vejo dados, não vejo informação nenhuma, nem relevante nem irrelevante, no que se diz nesse vídeo que aponta. A senhora que dá o depoimento sente que havia muita pressão no trabalho dela. Pois, há muita pressão, hoje em dia, no trabalho de quase toda a gente. Simplesmente, o Rui ficou tocado por estas declarações genéricas por elas irem no mesmo sentido do seu pensar ou sentir. Mas elas não se tornam mais concretas nem mais relevantes por causa disso.

Ao seu "só não vê quem não quer" eu responderia com um "quem quer muito, até vê o que lá não está".

(Entretanto, faça-me o favor de parar com essa coisa do "Sr. Dr.", está bem?)

Rui P. Guimaraes disse...

Engracado, esses sentimentos tendenciosos que levam um a so ver ou ouvir aquilo quer. A mim, pareceu-me ouvir o seguinte:
inicio - "...foi uma das 5 fundadoras do Centro de Novas Oportunidades de Setubal. Saiu ha dois anos desiludida com um processo de certificacao de adultos em que ja nao acredita"

0:31s - "...por culpa do proprio processo, [o formador] tem de encontrar competencias [nos formandos] quer elas existam quer nao...

conclusao - "...onde diz que o processo [de certificacao] perdeu nas estatisticas... Desvirtua o processo completamente..."

Peco ja desculpa se mais ninguem ouviu isto.

Entao se calhar o melhor e mesmo ler, ainda sobre o facilitismo:
http://aeiou.expresso.pt/melhor-aluno-chegou-a-faculdade-sem-acabar-o-liceu=f604904

Porfirio Silva disse...

Rui,

Eu vi no vídeo aquilo que sublinha. Mas isso nem factos são, são opiniões. Aparentemente, para si opiniões que coincidam com as suas são factos.

Entretanto, não demorou muito tempo a começar a desconversar (a acusação de que eu tenho "sentimentos tendenciosos" é um mimo revelador).

Entretanto ainda: se se acha muito esperto por aproveitar a caixa de comentários para ir deixando links que lhe interessam, deixe-me dizer-lhe que prefiro que seja o próprio Rui a perceber que isso é parasitagem. Embora inútil ("ninguém" lê comentários a posts velhos) é parasitagem, uma coisa desagradável em "conversa" de qualquer género, mesmo numa caixa de comentários.

Rui P. Guimaraes disse...

Sr. Porfirio Silva,

"a acusação de que eu tenho "sentimentos tendenciosos""? Entao o que e que sua mensagem queria dizer com "quem quer muito, até vê o que lá não está"? Fiquei sem perceber quem e que estava a acusar quem...

Mas eu ja vi que me enganei no Porfirio Silva e por isso peco desculpa e nao o volto a incomodar.

Pensava que era um tal de Porfirio Silva, doutorado em filosofia e investigador. Como tal dei-me ao trabalho de colocar referencias para noticias relevantes ao topico em causa porque pensei que lhe interessava. Mesmo sendo um topico "velho" de ha dois dias, nao quer dizer que o assunto seja velho e vai ver que ha de haver quem ca venha ler isto depois de uma pesquisa no google.

Mas pronto, nao lhe "parasito" mais o blog...

cumprimentos

Porfirio Silva disse...

Cito o Rui: « (...) dei-me ao trabalho de colocar referencias (...)». Não é o primeiro, nem será o último, a pensar que "links" são "referências". Mesmo na comunidade "académica" há quem pense que acumulando "referências" está feito: já nem interessa nada o valor das "referências", bastando acumulá-las.
É sempre giro ver o verniz de certos comentadores a estalar...