30/05/11

ideias demasiado boas



As ideias demasiado boas às vezes são perigosas. Elas têm pernas e se as deixamos andar por aí podem fazer em cacos muitas coisas importantes. Em boa verdade, historicamente, é mais a esquerda utópica a ter responsabilidades por ter lançado para o mundo ideias demasiado boas que depois deram aborrecimentos. A direita, pelo menos na versão conservadora, é mais de tentar travar qualquer ideia boa, até por normalmente as ideias boas serem especialmente boas para quem não está tão instalado nas coisas boas.
Isto não é da minha parte um puro exercício de lengalenga. Vem a propósito de uma das tais ideias boas que Boaventura Sousa Santos apresenta no seu recente livro "Portugal - Ensaio contra a autoflagelação".
Reza assim, a páginas 104, quando está a dar ideias para fazer florir a democracia participativa, e destaca algumas das que terão dado melhores resultados em outras aragens, outras paragens, entre outros povos:
«(...) fiscalidade participativa em que, acima de um certo patamar de financiamento de serviços do Estado, os contribuintes possam vincular parte dos impostos que pagam ao financiamento de certos serviços (por exemplo, saúde, educação, transportes públicos) ou à proibição de serem utilizados para o financiamento de certos serviços (por exemplo, compra de material de guerra, participação em acções bélicas, energia nuclear).»
Interessante, não é? À luz de certos debates políticos recentes, imagine-se como seria se os contribuintes portugueses pudessem, digamos, exigir que os seus impostos não fossem usados em unidades do SNS onde se faça a interrupção voluntária da gravidez.
Acho que a democracia participativa, aliada à democracia representativa, tem as suas potencialidades - mas, usada como uma espécie de democracia à la carte, em que cada um pode escolher o que quer comer sem cuidar de não atropelar a vida comum, pode ser problemática. Particularmente, pode ser uma forma de promover a permanente guerra civil de todos contra todos.
Acho que vale a pena reflectir com cuidado em tão boas ideias.


2 comentários:

Luisa disse...

Temo pela sobrevivência do conceito e do valor: solidariedade social.

Anónimo disse...

A ideia de Boaventura Sousa Santos viola o princípio da não consignação de receitas fiscais. Quase que transforma os impostos em taxas. A direita conservadora, ou a esquerda não conservadora podem votar em programas políticos que se comprometam com ideias como a que o Porfírio refere sobre o SNS e o aborto, se isso constar de programas de partidos. Consignar receitas fiscais, era, estou de acordo consigo, um perigo demasiado grande: Kenneth Arrow, Nobel da Economia, demonstram que dos óptimos individuais não pode, em questões particulares emergir um óptimo social.
Henrique S. Azevedo