27.10.16

financiamento dos partidos.

17:35


Temos de falar disto, porque o debate público sobre o financiamento dos partidos evidencia quão persistente é entre nós o pensamento salazarista.

O financiamento público dos partidos é o único caminho para livrar essas instituições das malhas do financiamento privado. Tal como foi uma reivindicação histórica da esquerda que os deputados fossem pagos pelo Estado, para evitar que só os ricos pudessem ser eleitos, também deve haver meios para que os partidos não fiquem dependentes da boa vontade de quem tem dinheiro.

Coisa diferente é o custo das campanhas eleitorais: deve baixar. Não só para poupar dinheiro público, mas também para fazer mais política de conteúdo e menos política de espectáculo.

Já agora: por muitas responsabilidades que tenham os partidos nas coisas que não correram bem, cabe sublinhar que não há nenhuma experiência histórica de democracia sem partidos. Os partidos prestam um serviço público. Como tal, deve ser sempre melhorado esse serviço e melhorados esses partidos. Mas não se percebe que aqueles que rejeitam (e bem) que o Estado pague escolas privadas em concorrência com a escola pública queiram, ao mesmo tempo, que os partidos fiquem dependentes do financiamento privado.

27 de Outubro de 2016

26.10.16

Educação Física e Filosofia.

23:36


Educação Física e Filosofia. Duas questões mais parecidas do que possa parecer. Leiam com atenção este texto da Bárbara Wong: Oh, não! A Educação Física conta para a média… Acaba assim - e cito:

Agora, o Governo decidiu e bem que a nota de Educação Física volta a contar para a média final do secundário. Bem, porque nem a disciplina, nem os seus professores são de segunda. Aliás, a disciplina é de primeiríssima e deveria ser cada vez mais importante porque contribui para que tenhamos filhos com mais saúde, logo, a longo prazo e se se mantiverem os hábitos adquiridos nestas aulas, hão-de ir ao ginásio por sua iniciativa, combinar uns jogos de basquete ou de futebol com os amigos, não terão tantas doenças, envelhecerão mais saudáveis, etc, etc.

Mens sana in corpore sano. E por falar em mens sana, para quando a Filosofia até ao final do secundário em todos os cursos? Sim, porque esta também não é de segunda e contribui para termos meninos menos acríticos e com mais valores. Para uma sociedade melhor. Fica a sugestão.

PS: Eu nunca soube dar um pino, fazia mal a roda, tinha medo do salto sobre o cavalo e, no meu tempo, não se aprendia a dançar, uma pena.

Duas notas, de momento só sobre a Educação Física.
Primeira, claro que "Educação Física" não é "Desporto Escolar": não é para "premiar campeões", não é para dar má nota a quem não consiga um triplo salto mais longo do que a Patrícia Mamona ou não marque mais golos do que CR7. É para educar a nossa relação com o corpo, a coordenação, os bons hábitos dessa base material do ser que não vale menos do que a mente. E quem pergunta "mas os que têm um problema físico vão deixar de entrar em medicina por causa da educação física?" - esses lembrem-se de que não se trata de premiar o desempenho desportivo, mas o empenho na cultura física necessária à formação integral do ser humano. E isso precisam todos, qualquer que seja o físico que tenham. Sendo certo que é preciso repensar as modalidades e as práticas de avaliação da Educação Física, mas...
Segunda nota: se não contar para a avaliação, a Educação Física será "posta à sombra" e desvalorizada. Temos de remar fortemente contra o tal "afunilamento curricular" que pretendia que só interessava o Português e a Matemática.

E da Filosofia falamos outro dia. Mente sã em corpo são!

26 de Outubro de 2016


*** ADENDA***

 
Acrescento esta nota depois de ler algumas das reacções a este texto.

A Educação Física não interessa para alunos que vão para o Ensino Superior fora de áreas de Desporto?! Mas, então, a coordenação sócio-motora, mobilidade e estabilidade corporal não serão necessárias em qualquer profissão - ou melhor dito, em qualquer vida saudável?

A obesidade já deixou de ser um problema? Ou estará mesmo a precisar cada vez mais de ser combatida nos seus fundamentos, que estão ao nível da falta de educação física, de educação para o equilíbrio alimentar e para estilos de vida saudáveis? Ou já se esqueceram dos discursos que fazem acerca dos excessos da vida sedentária? Serão esses problemas só daqueles que vão para cursos de Desporto?

Era bom que ninguém, traumatizado/a com más recordações da "ginástica" de há 40 anos, deixasse de pensar em que mundo vive e o que pode significar "educação" nos dias de hoje.



23.10.16

O beco do PSOE.

12:25


Olhando para a situação do PSOE face ao país, ocorre-me o seguinte. Faltou a Sánchez um elemento fundamental de compreensão dos desafios que enfrentava, o que faz uma grande diferença face ao que ocorreu em Portugal.
António Costa, em Portugal, disse claramente desde a noite eleitoral que não inviabilizava o governo da direita se não tivesse uma alternativa. Sánchez, pelo contrário, desligou as duas variáveis fundamentais da equação, ao afirmar que não deixava passar Rajoy sem ter garantida uma alternativa. Desse modo, Sánchez fez com que fosse o PSOE a pagar a grande factura do impasse, aparecendo como responsável por não haver nem governo à esquerda nem governo à direita - quando, na verdade, está longe de ser o único responsável. Mas ilibou o Podemos das suas responsabilidades, ao ser pouco prudente e ao não ter sido claro nos seus limites.
Sánchez também falhou a compreensão do tempo: note-se que o PS só embarcou na moção de rejeição do programa de governo de Passos Coelho II depois de ter assinados os acordos das esquerdas, o que estabeleceu um limite temporal claro para a assinatura desses acordos.
Agindo com pouco esclarecimento, Sánchez acabou por colocar o PSOE num beco onde a saída que vai impôr-se como recurso (deixar passar Rajoy) é um enorme risco - apesar de ser o que alguns sempre quiseram. Infelizmente, apesar do processo português ter sido anterior ao processo espanhol, Sánchez não quis ou não soube compreender o que se passou por cá - talvez por ter passado ao lado da complexidade do que por cá se fazia. É uma pena, porque teria sido importante ter um governo de esquerda em Espanha.

23 de Outubro de 2016

19.10.16

Desigualdades Socioeconómicas e Resultados Escolares

16:29


(O texto que se segue foi produzido pelo Ministério da Educação, nesta data, a propósito do estudo “Desigualdades Sócio-económicas e Resultados Escolares II”. Parece-me de interesse relevante para compreender alguns aspectos da realidade da educação em Portugal - essa é a razão para o colocar aqui.)



A Direção-Geral de Estatísticas de Educação e Ciência (DGEEC) acaba de publicar o estudo “Desigualdades Socioeconómicas e Resultados Escolares II”, que foi jáapresentado em reunião do Conselho das Escolas. O documento surge na sequência dapublicação, em fevereiro último, da primeira parte deste trabalho (relativa aos alunosdo 3.º ciclo).

Neste estudo são relacionados os resultados escolares dos alunos com as qualificações académicas das suas mães e com o nível socioeconómico dos agregados familiares,apurado através do escalão da Ação Social Escolar, desta vez utilizando os dadosrelativos aos alunos do 2.º ciclo do ensino público.

Na generalidade, as conclusões relativas aos alunos de ambos os ciclos são semelhantes, sendo de destacar:

  • No total nacional, o nível socioeconómico dos agregados familiares é um preditor do sucesso escolar, na medida em que os alunos oriundos de famílias de baixos rendimentos apresentam taxas de sucesso mais baixas;
  • No total nacional, as habilitações académicas das mães são um preditor do sucesso escolar, na medida em que os alunos que têm mães com menores qualificações apresentam taxas de sucesso mais baixas;
  • Persiste, ainda assim, uma variação regional e local nos resultados apresentados, sendo detetáveis assimetrias entre distritos e conjuntos de escolas, evidenciando que, para os mesmos níveis de rendimentos dos agregados e de qualificações das mães, é possível encontrar taxas de sucesso mais elevadas em alguns distritos e conjuntos de escolas;
  • Esta observação mais uma vez evidencia que há outros fatores que influenciam o sucesso escolar dos alunos, fatores esses que interessa explorar, e que contrariam a relação causa/efeito entre o contexto socioeconómico e o sucesso escolar dos alunos, genericamente comprovado.

Sabendo, como este estudo também revela, que o sucesso escolar é condicionado por fatores externos, o papel da Escola é crucial. Assim, a colaboração e responsabilidade da comunidade, a nível local e regional, são essenciais à construção do sucesso escolar e ao compromisso com o ensino e a valorização da aprendizagem. De facto, neste âmbito, importa sublinhar uma das afirmações constantes da nota introdutória do estudo agora apresentado:

“as estatísticas apresentadas no estudo sugerem também que o nível socioeconómico não equivale a destino, ou seja, não determina de forma inapelável o desempenho escolar dos alunos. […]. Existem portanto outros
fatores importantes em jogo, além do nível socioeconómico, fatores que importa investigar localmente e de forma mais aprofundada” (p. 3).


Nesse sentido, os resultados obrigam a que se continue a centrar a ação naquela que constitui uma das funções primordiais da escola pública: o nivelamento de oportunidades entre crianças oriundas de diversos meios socioeconómicos e a promoção da mobilidade social.

A intervenção tem, pois, de continuar a ser o resultado de uma combinação coerente entre políticas educativas, de formação e de âmbito social alargado. Só assim é possível, como tem sido feito, promover o apoio aos primeiros sinais de dificuldade, numa lógica de proatividade assente no princípio de que são as comunidades educativas que melhor conhecem os seus contextos, dificuldades e potencialidades.

É, por isso, importante um compromisso social em torno do sucesso escolar e a necessidade de uma apropriação coletiva que conduza a uma estratégia concertada de melhoria dos resultados, assente num recentrar da ação na melhoria das aprendizagens.

Deste modo, destacam-se algumas medidas já em curso:

  • .O convite às escolas para elaborarem planos de ação estratégica com o objetivo de que sejam elas próprias a construir soluções locais tendo em vista a melhoria das aprendizagens dos alunos. Deste convite resultaram 663 planos num total de 2936 medidas;
  • A dinamização de formação contínua de apoio à elaboração dos planos de ação estratégica e à sua implementação que, com a colaboração dos Centros de Formação de Associação de Escolas (CFAE), se prevê que envolva 35.000 docentes em dois anos;
  • A promoção do envolvimento das Comunidades Intermunicipais (CIM) na dinamização destes planos. Desta forma, é potenciada a convergência entre as iniciativas das CIM no domínio da Educação e os planos elaborados pelas escolas, tendo como finalidade a melhoria das aprendizagens, a diminuição do insucesso e do abandono escolar;
  • O reforço dos mecanismos de acompanhamento individualizado dos alunos, em concreto, através da implementação do Programa de Tutorias no Ensino Básico, que abrangerá cerca de 25 mil alunos, num total de 10 mil horas semanais.


(O Estudo “Desigualdades Sócio-económicas e Resultados Escolares II” pode ser
consultado no site da Direção-Geral de Estatísticas da Educação e Ciência)

19 de Outubro de 2016

16.10.16

a sociedade do ruído.



Temos ideias feitas sobre muitas coisas correntes. Às vezes, as ideias feitas são erradas. Outras vezes, estão certas mas não temos modo fácil de as testar. De vez em quando, é possível confirmar pequenas coisas.

A crítica (uma das críticas) que muitos fazem às "redes sociais" é que elas são pasto para a superficialidade numa forma extrema. Sendo certo que colhemos muita informação relevante nas ditas redes, é fácil descartar aquela crítica dizendo que "há de tudo, como na mercearia". Só que, na realidade, a febre com que muitos se comportam nas ditas redes pode ser ilustrada de muitas maneiras.

Acabei de fazer um teste. Não no ambiente frequentemente agressivo do Twitter, mas no mais pacato Facebook. Publiquei a imagem acima, acompanhada da seguinte mensagem: «Os comentários a este "anúncio" são bem o retrato de muita coisa que se passa no FB... Há quem diga que é mentira, que a mudança de hora não é este fim-de-semana, que já bastam as mentiras dos políticos... Quer dizer, muito mais "opiniães" do que gente a ler e a interpretar o que lá está.» Quer dizer: o texto, basicamente relatando o que tinha visto na página de outra pessoa, já apontava para a armadilha, não a explicando, mas assinalando a sua existência. Mesmo assim, muitos comentários vieram fazer a caridade de me expplicar que a hora não mudava este fim-de-semana... Julgo poder concluir que muita gente não percebeu o jogo da imagem... e que, do mesmo modo, muita gente nem leu o texto de acompanhamento (ou não o entendeu).

Dispenso-me grandes considerações. Sem excessiva teoria, este pequeno experimento mostra o jogo de aparências em que vivemos nestas "redes de nodos esburacados", nodos pelos quais passa muita informação que não deixa nada de consistente. Qualquer dia explicarei melhor como enquadro isto no problema "redes vs. instituições".

16 de Outubro de 2016