26.1.26

A Montanha, de José Luís Peixoto



Acabei de ler “A Montanha”, de José Luís Peixoto.

À partida, parece ter um assunto: pessoas com cancro. Aquelas coisas que se leem antes de ler o livro, que são objeto da nossa bisbilhotice na livraria quando estamos a decidir comprar, indicam que o livro está povoado de pessoas com cancro, que são consideradas por terem essa experiência… de vida… e de morte. A promessa é razoavelmente clara e deixa-nos à espera de uma certa densidade emocional em torno de experiências que se nos apresentam sempre como experiências-limite: experiências-limite para quem as vive, promessas de experiências de susto para quem as lê, ou ouve, ou acompanha. O livro estará povoado de pessoas com a experiência do cancro. De variados cancros.

A Infopédia diz que “romance” é um “género narrativo ficcional em prosa, mais longo que a novela e o conto, em que as personagens são apresentadas com maior densidade psicológica, e o tempo e o espaço são categorias mais elaboradas”. Outras fontes acentuariam a complexidade do enredo, personagens que evoluem, a construção de um ambiente (uma época, um lugar, um contexto histórico ou social).

“A Montanha” é um romance. Neste “A Montanha” há um romance. Há a complexidade que se pode encontrar em personagens de um romance. Há um enredo. Há um contexto em que nos afundamos (vá: em que nos aprofundamos).

O que pode acontecer é que as personagens complexas que evoluem talvez não sejam aquilo que passamos grande parte do livro a pensar que sejam. Talvez o que está a evoluir – quem está a evoluir – não seja quem nós pensamos que está a evoluir. Talvez se possa dizer que passamos grande parte do livro a pensar que o “contexto” é um, quando, afinal, é outro.

Durante boa parte do livro, pensamos que a trama do romance se cruza com uma certa e determinada teoria sobre a literatura. Faz, mesmo, sentido, que assim seja, porque a forma como as pessoas com cancro nos aparecem (nos são apresentadas) está sintonizada, ou mesmo sincronizada, com essa tal teoria acerca da literatura. Parecemos estar a ser levados por histórias de vidas cuja narração se justifica, ou pode ser espelhada, naquela teoria sobre literatura. Acreditamos estar numa viagem intelectual onde se pensa o trabalho do escritor olhando para um produto concreto do trabalho de um escritor concreto. É a teoria a dizer coisas verificáveis sobre a prática. Um milagre, caramba!

Só que, num determinado ponto do caminho, o que parecia mais uma caminhada numa longa série de caminhadas de um mesmo estilo, desvia-se do compreensível a essa luz. Suspeitamos que podemos ter-nos perdido numa vereda e estarmos a experimentar dificuldades respiratórias que afetam o funcionamento do nosso cérebro e prejudicam a nossa lucidez para aperceber as circunstâncias. O território da estranheza instala-se como um plano próprio do romance. Andamos às voltas, imaginamos possíveis luzes que sejam capazes de dar sentido ao que estamos a ler, mas não parecem funcionar: não são particularmente iluminantes e sentimos que estamos a deslocar-nos para uma obra que se desviou para o campo do fantástico. Eu não tenho experiência com este Autor e não tenho ferramentas para perceber se ele costuma descarrilar assim, o que se torna um pouco mais preocupante quando ele insiste amiúde que está a fazer coisas que faz recorrentemente em todas as suas obras romanescas. 

O narrador, em todas estas convoluções, age como alguém que lida com grande destreza com uma rede de relações humanas complexas, onde alguns nodos são as tais pessoas com cancro, outros nodos dessa rede sempre profissionais de várias especialidades que lidam com essas pessoas com cancro. O narrador domina toda essa rede de relações, baralha e torna a dar os elos, amparado na tal teoria sobre literatura, é o mestre da obra, vê de cima e com uma brutal capacidade de distanciamento aquele mundo que observa, descreve e escreve. É o seu romance e ele é o romancista. 

Mas, contudo, há o tal momento onde a estranheza se entranha. Onda a estranheza passa a dominar. Onde avançamos mais devagar, procurando sítio para pisar sem os pés se enterrarem: isto é, vamos avançando hipóteses acerca do que aquilo é.

E, mergulhados nessa estranheza, chegará o momento de ver a luz. É o momento do esclarecimento. É certo que esse esclarecimento se fará à custa de todas as qualidades do narrador, que teremos de rever radicalmente. Mas chega esse momento, o momento do esclarecimento. Só que, então, será preciso repensar tudo acerca de qual é o contexto, de quais são as personagens que evoluem, que evolução é essa. A hipótese simples acerca da relação entre uma teoria da literatura e o enredo romanesco deste romance deixa de ser uma hipótese simples e encontra outros mundos. É uma revelação. É uma revelação interior, porque denuncia radicalmente a incerteza fundadora de tudo o que possamos pensar que sejam as nossas certezas. Não é só o leitor que anda muito enganado. Outros grandes enganos estruturam o terreno.

Poucas vezes me terá acontecido isto: voltar a ler, no dia seguinte, os dois últimos capítulos do romance. Não que não tivesse compreendido a volta que aí se dá. Eu tinha compreendido. Mas não tinha compreendido. Precisava de voltar a percorrer esse caminho. Para gozar, mais completamente, a solidez da coerência com que a obra cose o turbilhão de mudanças que nela se opera.

Esta “A Montanha” não é “A Montanha Mágica”. Talvez, também, porque o embotamento dos sentidos sociais, que n’A Montanha Mágica está nas personagens, aqui está no leitor. No leitor d’A Montanha. Que ficamos a dever a José Luís Peixoto.



Porfírio Silva, 26 de Janeiro de 2026
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