31.1.15

polícia bom / polícia mau.

23:06


O FMI aconselha Governo a manter cortes nos salários e nas pensões.
O governo faz-se de firme e diz que o FMI não está a ver bem a coisa.
Parece que o governo de submissos agora até faz voz grossa ao FMI.
Ingenuidade.
É o velho truque do polícia bom e do polícia mau.
O FMI faz de polícia mau, o governo faz de polícia bom.
O FMI faz de polícia mau PARA o governo fazer de polícia bom.
Mas a polícia / a política é a mesma.
É que Passos, quando entra em modo campanha eleitoral, é todo contra a austeridade, lembram-se? Depois, revela a sua verdadeira face.
Se os portugueses fossem no conto, Passos, depois das eleições, voltaria a dar razão ao FMI.
O polícia bom e o polícia mau voltariam a cair nos braços um do outro.
É assim que eles trabalham na conhecida rábula.


30.1.15

o que está em causa na Grécia é o interesse nacional, não é uma questão partidária.

10:30


Neste artigo "O PS pode ter começado a perder as eleições", o articulista efabula acerca do que hipoteticamente seria a posição de António Costa sobre a Grécia e a Europa. Ataca António Costa por posições que António Costa supostamente tomou - mas não se dá sequer ao trabalho de citar as declarações de AC que justificariam o que escreve: se elas tivessem sido proferidas, claro. Poderia recortar, tirar do contexto, fazer interpretações abusivas - mas nem isso. Simplesmente elabora no ar.

Na base dos equívocos deste conselheiro de Durão Barroso (terão sido os seus conselhos a conduzir o homem ao seu estatuto de presidente falhado da Comissão Europeia?) está a incapacidade para perceber o que está em causa.

Um homem que "tão bem" (!!!) aconselhou Durão Barroso... continua a não perceber essa coisa simples: sem respeito mútuo e igualdade entre todos os Estados Membros, a União Europeia acaba mal. O PS não defende os interesses nacionais na base de relações partidárias. O que interessa ao PS, na questão da Grécia, não é o Pasok ou o Syriza. O que interessa ao PS na questão da Grécia é que todos os Estados-Membros da União Europeia sejam tratados como iguais, que todos tenham direito a defender os seus interesses, que todos participem de boa-fé e empenhadamente na procura do interesse comum. O povo grego falou, vamos conversar: eles e nós todos. Isso é de interesse para Portugal, porque nós também queremos da UE outra atenção aos nossos problemas. Se a vontade da Grécia em mudar as coisas resultar, isso vai ajudar Portugal no futuro. Se a tentativa grega falhar, a nossa margem vai estreitar também. Por isso é que o PS está interessado no bom encaminhamento das negociações com a Grécia. E o governo também deveria estar, por ser do interesse de Portugal: só não está por Passos Coelho se interessar mais pelo ataque ao PS do que pela defesa do país na Europa.

A defesa do interesse nacional na Europa não se faz com base em "famílias políticas", faz-se com base nas convergências objectivas dos interesses de Portugal com os interesses de outros países. Há países governados por "partidos irmãos" cujos interesses divergem dos interesses de Portugal. Enquanto há países governados por outras famílias políticas que têm interesses convergentes com os interesses portugueses. Onde devemos procurar as alianças? Na convergência objectiva de interesses nacionais, em primeiro lugar. As "famílias políticas" servem, como acrescento, para amaciar as dificuldades negociais, quando isso funciona - e nem sempre funciona. Esse ponto essencial é esquecido por Passos Coelho, que tem do interesse nacional uma visão ideológica e partidária: sempre pretendeu usar a troika para realizar as suas experiências ideológicas, escorado na submissão "humilde" ao ministro das finanças alemão. O que é preciso entender é que a Europa tem de regressar ao funcionamento democrático das instituições, funcionamento democrático esse que foi interrompido pela troika, um corpo estranho enterrado no corpo da UE, tornando o método comunitário uma aparência.

O nosso camarada (alemão do SPD) que preside ao Parlamento Europeu, Martin Schulz, foi a Atenas, encontrou-se com o PM Tsipras e gostou do que ouviu. O Público relata assim: «“Raramente senti durante o meu mandato que tive uma discussão tão construtiva e aberta”, disse, citado pelo diário grego Kathimerini. “Há a impressão na União Europeia de que o novo Governo grego vai tentar seguir um caminho à parte”, mas “descobri hoje que não é o caso”, afirmou, após o encontro.» Isto é a família socialista e social-democrata a jogar um papel positivo neste cenário complexo. É disso que precisamos. Não precisamos nada de conselheiros de Durão Barroso a quererem empurrar-nos para as mesmas tolices que Durão Barroso andou a fazer durante a crise, levando Passos Coelho pelo braço.

Precisamos é desta visão: enterrar o "método troika" e regressar ao método comunitário, a sério, é a única forma de salvar a Europa. E de nos salvar a nós. De restituir a Europa aos europeus. E, para que isso aconteça, é bom que aconteça já com a Grécia. Perceberam agora, austeritários ideológicos, por qual razão a Grécia importa tanto?


28.1.15

erros grosseiros. também ditos "erros Cratos".

15:29


«A onda de críticas ao processo de avaliação das unidades de investigação científica levou o Governo a recuar e a pedir uma sindicância ao processo de avaliação levado a cabo pela European Science Foundation, apurou o Económico. (...) O processo não é reiniciado, mas serão analisados os casos em que foram denunciados erros grosseiros.»

Não foi a troika que mandou destruir o consenso nacional em torno da prioridade à ciência.
Tal como não foi a troika que mandou inventar uma experiência desastrosa com a colocação de professores e perturbar profundamente o arranque do ano lectivo.
Mas, entre a ideologia escondida sob a capa de incompetência e a incompetência escondida sob a capa de ideologia, o ministro Nuno Crato tornou-se um ícone da fórmula governativa patrocinada por Passos Coelho.
Agora, vão começar a catar os erros grosseiros. Para isso, pelos vistos, vão pagar para corrigir os disparates que tinham sido pagos em primeira instância por encomenda do governo. Espero que aproveitem para analisar também o erro grosseiro que consiste em ter um ministro cuja incompetência dá uma "má educação" a toda a gente que deveria poder olhar para ele como um exemplo.


[Adenda. Há por aí um blogue que acha que o texto acima é um ataque pessoal a Nuno Crato. Isso só confirma algo que já se sabia: há uma certa direita que nunca conseguiu perceber a diferença entre um ataque político e um ataque pessoal. Deve, aliás, ser por isso que desse lado se pratica tanto a confusão entre essas duas coisas. Será defeito ou feitio?

27.1.15

"estadistas" do calibre "conto de crianças".

16:23


Ideias do Syriza são "conto de crianças", diz Passos Coelho.

O PM fala da Grécia e das escolhas políticas dos gregos com total falta de sentido de Estado. Falar do programa que outro Estado Membro quer aplicar no governo e, para tal, usar a expressão "conto de crianças" - é uma falta de respeito e um mau principio como início de conversa para estadistas que se sentarão à mesma mesa no Conselho Europeu.

A linguagem grossa não deveria servir sequer para a política interna, mas há quem não perceba que em política europeia os excessos são ainda mais prejudiciais. A aspiração de PPC a ser o polícia europeu da austeridade leva-o a um papel ridículo, agitando-se para ser mais grosseiro e radical do que qualquer líder europeu.

Em definitivo, PPC entrou prematuramente em campanha eleitoral e esqueceu a ponderação exigida a um chefe de governo responsável. Passos Coelho passou a funcionar como mero chefe de facção. Uma lástima, mas não espanta.

25.1.15

e o PASOK?

23:10


E bem verdade que o "partido irmão" do PS na Grécia foi levado com a água da chuva.

E isso quer dizer o quê? Quer dizer que os partidos que se esquecem de representar os seus... serão atirados para a valeta.

Tenho muita pena, PASOK - mas é assim que funciona a democracia representativa.

É responsabilidade dos partidos nunca deixarem de oferecer alternativas aos povos a que pertencem.

piratearam o facebook do deputado comunista Miguel Tiago?



No Facebook do deputado do PCP Miguel Tiago lê-se a seguinte posta: «Se, como parece, a burguesia grega tiver de facto reagrupado no SYPIZA, lá terá o capitalismo mais um balão de oxigénio, quando só mesmo a sua morte nos libertaria o caminho.»

Eu preferia não fazer nenhum comentário. Mas faço. Há em algumas esquerdas quem se ocupe principalmente a desejar que as outras esquerdas se espalhem ao comprido. Quem se ri e aproveita com isso? Não a esquerda, certamente.

A minha esperança é: piratearam o facebook do deputado comunista Miguel Tiago.

alguns dos meus poemas gregos. hoje, não por acaso.

20:22



As mulheres de Delos

O lago sagrado no centro de Delos está seco.
Secou a água, secaram os deuses, secaram os homens.

Vista a vida nas casas das famílias desta cidade,
é tarde para perguntar às mulheres de Delos

por quê.


***


A explicação do espiritual


O azul move-se em colunas entre o mar e o céu,
espesso como o som das cigarras o dia inteiro.
Linguagens humanas várias movem-se
leves na mesma conversa;
as mulheres nadam ao largo,
os homens ficaram a falar em casa,
os do mar cuidam dos de terra,
os de terra cuidam dos do mar,
os conhecidos dos desconhecidos
e sobre todos paira a cítara que Hara lida no terraço.
O sol amassa todo o arquipélago num único ponto do tempo,
fora do presente.
Isto e nada mais são todos os deuses do Olimpo.
A explicação do espiritual é tão simples como uma salada grega:
a diversidade é o logos da unidade.


Imagem: Ísis em Delos.



***


a invenção de Apolo

Delos, exausto no teu seio, pergunto-te: como pôde
uma ilha inteira sem uma sombra
tornar-se uma casa de deuses?
Respondes-me, muito mais claramente que o oráculo,

em prosa,
porque a poesia é para as questões inúteis e obscuras,

que um santuário é um campo de batalha
onde os deuses nos venceram,
uma ilha purificada pela proibição de nascer e de morrer.
Um santuário é uma promessa de deserto.
Delos, exausto no teu ventre, pergunto-te: como pôde
uma ilha cercada de ausências,
sem plantas nem carneiros, sem mel nem vinho,
como pôde a aridez em símbolo produzir deuses?
E Delos responde-me que Apolo
fez o centro do mundo, um nada em pedra,
com a matéria do lugar geométrico do melhor cruzamento das rotas.
E Apolo levanta-se do túmulo para protestar
que culpa pode um pobre deus ter
de terem feito do seu templo
o primeiro banco da Antiguidade.


Imagem: lugar do templo de Apolo em Delos


***


a ilusão panóptica

No mar da madrugada contornamos a temida Babel.
Todos nadando no mesmo azul

dizemos sem palavras a mesma porção do mundo.
À míngua de equívocos fenece a torre erecta

mas Babel espera apenas que regressemos
a terra; só na nossa ilusão ela está quieta.


***




As Cíclades


duzentas e vinte ilhas mal contadas fizeram de ti,
Delos, casa de Apolo, o centro do universo.

nunca tão claramente o comércio dos homens
foi a agricultura da semente dos deuses.

agora, vazia a ágora,
o deserto do presente é de novo e finalmente eterno.

[imagem: Delos, casa de Cleópatra]
***




a pedra suspensa


A pedra que pesa suspensa sobre a cabeça de Tântalo
não se explica a si mesma.

Os palácios do Príncipe, marcados
como espaços vazios nos atlas da cidade,

não testemunham deuses irados nem catástrofes naturais:
o silêncio na parte comum do mundo é uma invenção

humana
incompreensível.
***




(Textos e imagens © Porfírio Silva)

Mais em Monstros Antigos. Ou aqui.


Hoje a Grécia. Lições antes do voto.

11:42



Acredito que, mesmo antes das eleições, o Syriza já mudou os dados da situação na Europa.

Mesmo que não ganhe, o Syriza já mostrou que a vontade política de traduzir as aspirações das pessoas pode fazer caminho. Se temos democracias representativas, os partidos têm de dar às pessoas a oportunidade de verem representadas as suas posições. Se os partidos não são capazes de fazer isso, a democracia representativa é uma farsa.

Os partidos têm de juntar o que as pessoas querem com a inteligência da estratégia para lá chegar. Os partidos não são meros repositórios das reivindicações, são o colectivo onde as pessoas se podem juntar para dar inteligência de futuro ao que queremos "já" mas precisa de tempo para ser construído. Os sistemas políticos democráticos onde os partidos não percebem isto... acabam mal.

O Syriza poderá, também, dar uma nova oportunidade à Europa se, vencendo as eleições, souber mostrar a todos que há sempre alternativas - mesmo na complexa situação que vivemos, mesmo nesta Europa desigual onde o sonho de um continente dos povos está sempre a ser adiado (ou, pior, atacado).
Que o Syriza ouse querer governar (e não apenas protestar), que o Syriza ouse querer governar na Europa (em vez de sugerir a porta falsamente fácil da saída do euro ou da própria UE), que o Syriza esteja a fazer o trabalho de negociar e aceitar a União Europeia como espaço onde tem de ser possível negociar, atendendo quer à vontade dos povos quer aos constrangimentos da realidade - é uma lição. Que espero seja compreendida por todos os que se reclamam da família do Syriza.

Note-se que eu não pertenço à família política do Syriza. Os meus "camaradas" na Grécia não perceberam que os partidos não subsistem se deixaram de representar a realidade da vida das pessoas que fizeram esses partidos. Os partidos não subsistem se deixarem de representar. Isso também é uma lição para mim. E para os meus.

Entretanto, noto um pormenor. Muitos estão desejosos de que o Syriza tenha maioria absoluta. Compreendo o anseio. Mesmo havendo pequenos partidos de esquerda moderada que podem fazer maioria com o Syriza, muitos por cá verbalizam o seu anseio por uma maioria absoluta para o Syriza. Entre esses, alguns (ou muitos?) que por cá estão sempre desconfiados das maiorias absolutas, que dizem ser um risco de excessos. Até nisto a Grécia e o Syriza podem dar uma grande contribuição: ajudar mais e mais pessoas a perceber que para governar não basta ter programa, é preciso também ter condições institucionais e políticas para o fazer. Quando se começa a pensar em termos de fazer, e já não apenas em termos de propor, o raciocínio muda. Para melhor: ganha aderência acrescida à realidade.

Bem vistas as coisas, a Grécia volta a ensinar muita coisa à Europa em assuntos de democracia.E ainda nem fecharam as urnas.

os ensaios abertos do Teatro da Cornucópia.



O Teatro da Cornucópia vai apresentar, a partir de 12 de Fevereiro, o seu novo espectáculo "Lisboa Famosa (Portuguesa e Milagrosa)", a partir de uma mistura de cenas de diferentes Autos quinhentistas e seiscentistas (de Gil Vicente, Anónimos, Baltesar Dias, Afonso Álvares, etc.). Aí se fala da vida social da cidade de Lisboa (ou de muitas cidades, a propósito de Lisboa), passando por motivos como os Santos populares e milagres de Santo António, fado, sardinha assada, porto de mar, com gente de todo o mundo, mas também terra dos corvos de São Vicente, dos terremotos, da fome e da mentira e corrupção.

O Teatro da Cornucópia tem vindo a alimentar, com carinho e inteligência, uma relação com o público que, por fugir à lógica comercial, se torna genuína e maravilhosamente subversiva. Um novo passo nessa relação são os "ensaios abertos". Hoje foi o primeiro. Fomos lá e estamos aqui a dar conta.

Recebendo as pessoas que quiseram ir assistir ao ensaio de hoje, Luis Miguel Cintra explicou que não querem ter a mera relação comercial com os espectadores. Querem cumplicidade. Que maravilhoso conceito, este de cumplicidade! Maravilhosa cumplicidade, por quê? Porque, creio eu, "cumplicidade" começa por ter um tom negativo, como se fosse relação de criminoso com criminoso, conspirando para o mal, numa certa escuridão, fazendo planos para prejudicar alguém. Mas a compreensão profunda entre humanos transforma essa noção numa outra cumplicidade: uma cumplicidade à luz do dia, uma cumplicidade sem planos, sem estratégias, sem truques. Uma cumplicidade sem um objectivo, apenas uma atitude: disponibilidade, confiança, querer que o outro possa falar e crescer no meio de toda a fauna e toda a flora do mundo. A cumplicidade dos amantes distribuída por tanta outra gente. Luis Miguel Cintra não fez estes rodriguinhos, não quero estar aqui a dar-lhe essa responsabilidade, mas fez-me pensar assim quando disse que queria a cumplicidade entre pessoas na vida e que também queria cumplicidade entre público e companhia de teatro.

E disse mais: este espectáculo é mesmo sobre a cumplicidade. Os Autos quinhentistas e seiscentistas que dão a carne para este espectáculo eram praticados em círculos fechados, na corte, em casas de nobres, em igrejas, círculos restritos onde havia mais contacto e mais interacção entre quem representava e quem circunstanciava. Até por, muitas vezes, não serem peças completas, fechadas, e terem uma estrutura que facilitava essa ligação (como se dá quando se canta). E este espectáculo quer soprar na fogueira dessa cumplicidade recriando esse ambiente. Pelo que pude ver neste ensaio aberto, acho que consegue.

Cintra explicou o significado dos ensaios abertos. O público vê o espectáculo a construir-se, a entrar nos actores. Vendo os ensaios, o público pode sentir as palavras a encorpar, a fazerem corpo com o corpo dos actores. A ideia é que a Cornucópia faça ensaios abertos em quatro momentos diferentes da construção de um espectáculo: (1) o primeiro contacto com o texto, quando se está à mesa a ler os textos; (2) quando se sai da mesa e se começa a passar para a implicação do corpo nas palavras, quando os actores, para usar a expressão de Cintra, comaçam a dizer o texto como se fossem palavras inventadas por eles próprios; (3) quando o jogo já está estabelecido, esboçado, mas não funciona ainda inteiramente, quando ainda se experimenta, corrige, repensa, quando ainda nem toda a gente sabe inteiramente o seu papel, se engana ou esquece, ou ainda anda com os papéis na mão; (4) quando se está próximo do ensaio geral, com todos os elementos a funcionar, incluindo as roupas como finalmente completam o boneco das personagens.

O ensaio aberto de hoje correspondeu à terceira fase das quatro enunciadas acima. O próximo ensaio aberto de "Lisboa Famosa (Portuguesa e Milagrosa)" será no dia 7 de Fevereiro, correspondendo à quarta fase. Para assistir não é preciso jogar no euromilhões: basta telefonar para lá e marcar um lugar. Vale a pena, pelo menos para quem gosta de perceber melhor como funciona o teatro por dentro. Para mim, depois da experiência da Ilusão, é sempre uma emoção voltar àquela casa. (Mas uma emoção não desprovida de razão.) Aprende-se ali tanto de tanta coisa... Voltar a ver Cintra a desdobrar a dramaturgia ali à nossa frente... é uma delícia para todas as partes da pessoa que somos.

O teatro que se faz na Cornucópia é, sempre, para quem queira pensar e não, simplesmente, entreter-se. Mas, por vezes, nota-se nas encenações de Cintra o desejo de atingir um dos cúmulos da arte, que é juntar a máxima metafísica na máxima leveza aparente. Desta vez, dizem eles sobre este espectáculo que aí vem: "Espectáculo leve, brincado, uma brincadeira ligeira que pode ser uma óptima introdução ao português antigo e à primeira fase do teatro português."

Faz-me lembrar aquela frase: "o mundo é um brinquedo sem dono". E a metafísica regressa a galope.

Não se distraiam dos ensaios abertos da Cornucópia.