9.1.15

algumas perguntas e respostas sobre violência e religião.

14:30

A mortandade no Charlie Hebdo tem a ver com religião?
Tem.

Esses atentados têm a ver com a religião muçulmana?
Têm.

Todos os muçulmanos são fanáticos?
Não.

Ser muçulmano implica apoiar a violência para defender valores religiosos?
Não.

O fundamentalismo religioso é exclusivo dos muçulmanos?
Não.

As religiões maioritárias no Ocidente também têm uma história de violência religiosa?
Têm.

O cristianismo está, na actualidade, isento de tentativas de dominar ideologicamente as sociedades?
Não.

Há, hoje em dia, cristãos que apoiam a violência como meio de afirmação da sua religião?
Há.

Todos os católicos ou cristãos apoiam meios violentos para propagar as suas ideias?
Não.

Só as religiões têm culpas no cartório por promoverem meios violentos para impor ideias?
Não.

O fenómeno religioso pode ser claramente separado de outros processos sociais, de forma a identificar a religião como causa única e pura de certos actos?
Não.

O mundo é mais complexo do que parece. Ver o mundo a preto e branco ajuda a tornar o mundo a preto e branco, mas não ajuda a mais nada que seja positivo.

a superioridade da liberdade.

11:00

Fazer humor com os humoristas que morreram por fazer humor.
Por não haver nenhuma justificação para calar o pensamento.
Aqui está a superioridade de quem entende a liberdade.

«Charlie procura a sua próxima primeira página: 'Uma liquidação em dia de saldos, isso é que era...!'.»

8.1.15

JE SUIS CHARLIE.

14:21



JE SUIS CHARLIE


Eu podia negar. Responder-te que não
fui eu que falei a fala livre.
Abanar a cabeça como se eu não
tivesse desenhado palavras no chão da cidade.
Como se não carregasse o fardo da responsabilidade
de avançar contra o vento.
Eu podia renunciar - mas apenas no sentido
de esse ser o outro caminho,
a porta de uma estrada que eu não tento.
Tive que dizer-te que sim, era eu
a mão que tu procuravas para cortar
"oui, c'est moi"
E agora o meu corpo frio voa
e a minha mão desenha no ar
tudo o que ainda tinha por inventar.

Há um traço imenso a ligar todos os nós
da corrente dos que morrem
sempre que morre a liberdade do outro.
E tu, quieto, desenhas esse traço continuamente.

Porfírio Silva (sobre o 7 de Janeiro de 2015 em Paris)

7.1.15

Passos Coelho é como um relógio parado, que duas vezes por dia parece estar certo.

15:00

Passos Coelho é como um relógio parado, que duas vezes por dia parece estar certo.

Quando estava na oposição e em campanha eleitoral, Passos Coelho dizia que era contra o aumento de impostos, que o país não precisava de mais austeridade, que apertar demasiado o cinto podia matar o doente. Na oposição e em campanha eleitoral, Passos Coelho dizia que se estava a atacar o Estado Social, queixava-se de que havia desempregados sem subsídio, que se estava a atacar a classe média, que era preciso defender os reformados e pensionistas. Passos Coelho até se pronunciava contra a alienação de participações do Estado, dizendo que isso era vender os anéis.

Quando chegou ao governo, Passos Coelho fez tudo ao contrário do que prometera. Passou a aplicar a receita do empobrecimento, empobrecimento que defendeu com todas as letras como receita. Aumentou os impostos, apertou e apertou os nossos cintos, atacou a classe média, visou os reformados e pensionistas, deixou de achar que as privatizações fossem vender os anéis.

Agora, como está de novo em campanha eleitoral, Passos Coelho volta a adoçar o discurso e a vestir a pele de cordeiro, fazendo de conta que a partir de agora é que as coisas vão correr bem. O pior já passou, diz ele, enquanto atira para debaixo do tapete os problemas, aos quais tenciona voltar com a mesma receita se os portugueses voltarem (voltassem) a elegê-lo.

Tal como um relógio parado, que duas vezes por dia parece estar certo – por momentos, parece estar certo – Passos Coelho, sempre que entra em modo campanha eleitoral, esquece o seu programa de empobrecimento. Sempre que entra em campanha eleitoral, Passos Coelho “parece estar certo”. O pior é que, passada “aquela” hora, o defeito do mecanismo volta a impor-se, a verdadeira natureza do “relógio parado” (o verdadeiro programa) volta a tornar-se patente. Se lhe dermos essa oportunidade.