1.2.14

“Se eu fosse ladrão… roubava”.

10:54


Ontem à noite fui à Cinemateca ver o último filme de Paulo Rocha, o cineasta que morreu no final de 2012. Esta ante-estreia prenuncia uma próxima passagem ao circuito comercial. A sessão foi também de homenagem ao realizador, com a presença de vários intervenientes na obra, actores e outros. A Cinemateca recebeu, por testamento, tudo o que era de Paulo Rocha e estava relacionado com o cinema, deixando nas mãos desta instituição pública uma oportunidade e uma responsabilidade enormes.
Não vou tentar fazer uma crítica do filme, já que não sou competente para tanto. Apenas direi que o filme revisita a nossa história colectiva, pelo menos à escala do último século, revisitando a história de uma família (talvez importe que seja a família do realizador, talvez isso não importe assim tanto). E, quanto à forma, revisitando quase todas as longas-metragens anteriores de Paulo Rocha, fazendo do último filme um testamento global, uma síntese, uma releitura, um outro-mesmo olhar sobre a totalidade do mundo.
O filme intitula-se “Se eu fosse ladrão… roubava” e é de uma enorme complexidade, com várias camadas dificilmente captáveis numa primeira visualização. Apenas começamos a entender. Contudo, o filme é, indesmentivelmente, sobre o medo. Como é medonho e prenhe de sentido o medo. Ou, mais exactamente, sobre como mete medo essa tarefa necessária e talvez inglória de tentar perder o medo ao medo. O pai, a morrer, interpretado por Luís Miguel Cintra, diz ao filho a quem aquela doença do mundo aterra: “Vitalino, não tenhas medo, olha que o mundo é maior do que isto que se vê…” E essa declaração ecoa pelo filme todo. É o raio de luz dentro do breu.
Precisamos – continuamos a precisar – de olhar para o medo. O medo de cada um, o medo de um povo. O medo de sempre, mesmo que com vozes novas. Este filme faz isso, de forma vital, que nos deixa esmagados. Mas vivos.


31.1.14

esse bicho que morde as entranhas da esquerda.

19:05

Liderança, supermulheres, mitos e contraditórios, por Sara Falcão Casaca.

A unidade da esquerda, ou lá como se chama esse bicho, transformou-se num animal sem alma: é já largamente uma figura geométrica estudada para arremessar à cabeça dos concorrentes. Por isso (e porque, desde a minha bancada de social-democrata do PS sempre me bati por essa unidade alargada e plural) é preciso encontrar outros caminhos.

Deixem-se de paleio orgânico (quantos braços terá o bicho e qual o tamanho das pernas, nome que se poderia dar a coisas que se andam para aí a discutir) e escolham causas concretos e fundamentais. Dou quase sempre o exemplo da Europa: enquanto as esquerdas portuguesas não tiverem sobre a Europa uma posição comum que possa ser a melhor voz para um Portugal ao mesmo tempo sem sonhos nacionalistas e isolacionistas, aberto ao mundo e, também, sem ilusões acerca da "amizade" dos grandes, enquanto isso não existir não haverá esquerda capaz de governar esta terra.

Acrescento outra causa, grande e concreta ao mesmo tempo: a condição da mulher. A discriminação mais abrangente, mais profunda e mais enraizada culturalmente, e também mais violenta, é a persistente e resistente discriminação de múltiplas formas em desfavor das mulheres. E, do mesmo passo, contra todas as pessoas inteiras, que se sentem também atacadas por essa discriminação.

Caramba, ainda há quem duvide de que a Esquerda pode servir para alguma coisa, desde que lute por causas e não pelo formato do bicho?



30.1.14

o inconseguimento de Assunção Esteves.

16:30



Vai por aí um tsunami de escândalo e espanto com os termos usados por Assunção Esteves numa entrevista. O vídeo inserido acima é um dos exemplos das escolhas de palavras que têm dado pasto a esse barulho do diz-que-disse. Desculparão os meus amigos que muito se têm rido e gozado com estas palavras de Assunção Esteves, mas atrevo-em a perguntar: estão aborrecidos por a senhora falar difícil? Acho que deveriam estar mais preocupados com os disparates que por aí se dizem em substância.

Claro, já ninguém quer ler um livro de Heidegger porque é difícil, ou de Habermas, ou de Sartre, vindo depois que também há artigos de jornal que são difíceis (e dizemos mal) e poemas que são difíceis (e não lemos) e puxamos para baixo, para que todos falem fácil, escrevam fácil... pensem fácil.

Se há um demagogo qualquer (há vários) a dizer tolices semanalmente na TV, criticamos se vai contra as nossas opiniões. Mas até somos capazes de aceitar se gostamos das teses... porque é preciso ler a cartilha ao povo. O que queremos é conversa fácil.

Eu não falo como Assunção Esteves, sabe quem me conhece. Ela adora rodriguinhos. Pode não ser o meu estilo - não é. Mas isso não devia merecer o escárnio que por aí tem andado. Seremos já tão incapazes de ouvir um discurso com conteúdo que tropeçamos nas palavras e somos por isso impedidos de chegar às ideias propriamente ditas? Ou será que simplesmente nos vingamos de não percebermos os conceitos com piadas torcidas acerca do estilo?

Em questões de gosto, podemos ter preferências por este ou aquele estilo, mas não cabe diabolizar uma pessoa ou um discurso por questões de estilo. Principalmente em tempos de grande exigência como estes que vivemos, acho que devemos poupar as nossas raivas para as questões de fundo, de substância, em vez de gastar as energias em ataques vulgares contra a forma como uma pessoa coloca rendilhados no seu falar. Acresce que anda por aí muita gente, até com responsabilidades, que se calhar ficou irritada por não perceber toda a extensão do que ela disse - e depois vingam-se fazendo barulho. Estou cansado dos que exigem que se fale barato e se pense barato. E estou cansado de que, quando não se gosta de alguém, tudo vale para a achincalhar.

Acresce que, em minha opinião, a segunda figura do Estado diz, nestas breves palavras, coisas muito acertadas. O que nem sempre é o caso, ainda em minha opinião. Contudo, abomino estes "campeonatos de boxe": quando entendemos que alguém não está do nosso lado da barricada, tudo o que ela diga serve de pasto ao escárnio.

Pronto, podem começar a insultar-me.

27.1.14

ensaio sobre as teorias da inovação.

RECEITA PARA RELÓGIO DE PULSO COM MOSTARDA
(produto pluridisciplinar mítico).


1. Tome-se um relógio de pulso perfeitamente clássico. Acrescente-se mostarda. Em caso de um ataque de fome, o novo produto é indiscutivelmente muito mais útil do que o produto clássico. Trata-se de uma inovação. As mentes esclarecidas dar-se-ão imediatamente conta da sua valia, com base na adesão ao princípio geral da superioridade intrínseca das inovações. Contudo, dada a raridade crescente dessas mentes esclarecidas, deve prever-se um processo de demonstração da superioridade desta inovação particular em concreto (método delineado nos pontos seguintes).




À esquerda: Relógio de pulso clássico.
À direita: Relógio de pulso com mostarda.


2. Constrói-se um relógio de pulso com mostarda degenerado (isto é: sem mostarda). Torna-se trivialmente patente que mesmo o relógio de pulso com mostarda degenerado, apesar de não ser tão completo como o relógio de pulso com mostarda original, é tão útil para medir o tempo como um relógio de pulso clássico.





À esquerda, relógio de pulso com mostarda.
À direita, relógio de pulso com mostarda degenerado.



3. Considerando:
(a) que os novos relógios de pulso com mostarda são pelo menos tão bons como os relógios de pulso clássicos a fazer a única coisa que fazem os relógios de pulso clássicos (medir o tempo);
(b) que os novos relógios de pulso com mostarda têm uma valência completamente ausente nos relógios de pulso clássicos (culinária);
deve concluir-se pela superioridade dos relógios com mostarda.


Anexo: Cuidados a ter com indivíduos pouco sensíveis à inovação.
Parte I - Se ao cozinheiro se fizer notar o ligeiro gosto metálico que tomou o condimento, responda-se que há que atender ao facto de que nunca antes a mostarda se vira assim associada à medição do tempo.
Parte II - Se ao relojoeiro alguém apontar que os ponteiros estão parados, faça-se ver quão notável contributo deu o pertinente cozinheiro à nouvelle cuisine.


(Publiquei este texto pela primeira vez no Turing Machine a 14/nov/03, mas o passamento desse blogue deu-se há muito.)

o nosso país está a carburar muito bem.

Mas para onde está a ir?

Eis a resposta:

Somewhere, de Sofia Coppola; cena de abertura.
(Volume a 90%, por favor.)