11.1.14

Actas da delegação paduana.

13:14


ACTAS DA DELEGAÇÃO PADUANA (EXCERTO EUSÉBIO)


I

Quando as televisões espalharam a notícia
da morte de Santo António de Lisboa
e as mais perras das línguas se soltaram
por comoção mais do povo que cardinalícia
vieram primos, afilhados e toda a espécie de parentes
de cada canto da terra,
uns mais gentios, outros mais crentes,
a maioria assim-assim, gentes
de planetas longínquos, santos de outras religiões,
que são planetas ainda mais remotos
dentro das pessoas, vieram paixões,
variados praticantes da meditação, cada um com sua pose,
até um descendente de Fernão Mendes Pinto,
só não vieram adeptos da gnose,
um chinês – minto: um mongol dos antigos,
um mestre de uma ordem militar de um século anacrónico
(Dom Paio Peres Correia, por poucos anos torto neste filme
qual daltónico em fitas a pretos e brancos,
os mesmos que bebiam em suaves solavancos
todo o cálice de absurdo, como se o tempo fosse achatado
entre uma carpideira e um surdo),
e já Nuno Brandão inventava, à pressa, aquela peça
moderna e arrojada, credo, sem teologia nem nada,
de santos antónios em barros de várias cores,
alinhados nas prateleiras do el corte inglés
a fazer a bandeira garrida dos novos amores,
e entrou um peixe dizendo que vinha a recado
do Padre António Vieira, por via de seu testamento,
e que, sendo peixe miúdo, era legado
também dos graúdos e dos que mais devoram,
como se o sermão tivesse convertido alguém,
e estávamos neste clímax de raridades metafísicas,
castigando os poucos cépticos que restavam,
que nestes tumultos as dúvidas ficam sempre tísicas,


II

quando entrou sisudamente
na cidade uma delegação:
do Reino de Pádua mandavam dizer
que os conventos de São Vicente de Fora, em Lisboa,
e de Santa Cruz, em Coimbra, estavam muito atrasados
na pessoal história do santo,
já face à pregação contra os albigenses,
a sua mais espinhosa coroa de glória,
quanto mais comparados com a primavera
do teólogo, do místico, do asceta e do notável orador e taumaturgo
que verdadeiramente Lisboa não sabia quem era
se saber de alguém não é agarrá-lo pelos fundilhos
à porta da morte, a última porta de uma vida séria,
e olhá-lo com os nossos pobres olhos cansados de tanta dor e miséria
que são os olhos que olham sempre primeiro
para os pés do seu próprio dono.


III

Vista a afronta da paduana delegação
– um santo formoso, se o é, afinal, nunca renega o solo natal –
o povo, preclaro, expulsou a representação

hospes hostis
(não sendo para trabalhar a bem da nação,
já Eusébio o ouvira da boca do Professor Salazar,
não há cá Inter nem Milão, você é nosso não é para abalar,
– Santo António teve sorte, foi para Pádua –,
ir enriquecer para o estrangeiro, ora, não lembra ao demo,
não o faça o dinheiro olvidar que Moçambique é Portugal,
a pátria, pantera, a Pátria, o clube, Pantera,
o clube, que é a pátria da segunda circular – eh, mainato!)

o povo, pois claro, guardou em escuras caves seguras
as bandeiras dos visitantes,
«não fossem molhar-se desfraldadas,
nem com gotas! nem por instantes!»
mas rasgou os tratados ecuménicos
e iniciou subscrição para uma estátua
no exacto centro do terreiro do paço, de costas para as águas,
uma estátua que abençoasse os que partiam
à conquista, e travasse o passo, à conta de mágoas,
aos que chegavam ignorando as palavras secretas da irmandade do panteão.


IV

Vou rever o meu testamento vital:
tinha-me esquecido do problema do panteão:
isto ainda acaba mal: também o grego Ulisses ainda hoje ignora
que Joyce, my name is Joyce, James Joyce,
meteu a Odisseia num dia só, mais hora menos hora.
Que é quanto dura a vaidade, a nossa e toda.




10.1.14

um filósofo entre engenheiros.


O primeiro número de 2014 da Newsletter do DEEC (Departamento de Engenharia Electrotécnica e de Computadores) do Instituto Superior Técnico, que está agora em distribuição, diz que “pela primeira vez (…) entrevistamos alguém cuja formação de base não é em ciência ou tecnologia”. E acrescenta: “Porfírio Silva, doutorado em Filosofia, colabora num grupo de investigação em engenharia, no ISR. Temos oportunidade de entrever as ideias em que tem trabalhado, concretizadas na Robótica Institucionalista, uma abordagem para a robótica colectiva. Com exemplos simples, Porfírio Silva torna clara a relevância dessas ideias, quer para a robótica, quer para a filosofia. Finalmente, fala-nos da forma como vê a sua experiência de colaboração numa comunidade que não é (era?) a sua.”

Para facilitar a leitura, transcrevo aqui a dita entrevista. No final, deixo o link para o formato original deste número da Newsletter.

***

Porfírio, o que faz um filósofo num grupo de investigadores em engenharia?

A minha investigação de doutoramento procurou compreender como é que certas concepções acerca dos humanos se infiltraram em algumas práticas científicas, designadamente na Inteligência Artificial e em certos ramos da robótica. Por exemplo, nos primórdios da IA havia uma concepção demasiado intelectualista da inteligência, dando menos atenção a factores como as emoções ou o controlo do corpo situado num certo ambiente físico. Curiosamente, certos preconceitos científicos acerca do humano correspondem a preconceitos filosóficos muito enraizados. Pude verificar, com entusiasmo, que houve um avanço notável nessa matéria, em poucos anos, por exemplo na robótica colectiva ou na robótica do desenvolvimento. Isto levou-me a concluir a tese de doutoramento (em filosofia da ciência) com um atrevimento, que consistiu em propor uma nova abordagem para a robótica colectiva, aquilo que chamei Robótica Institucionalista: gerir colectivos de robôs com “instituições” inspiradas nas instituições das sociedades humanas. Isso levou o Pedro Lima a propor-me tentar, aqui no ISR, contribuir para tentar transformar essa ideia filosófica em alguma coisa de concreto em termos de robótica colectiva. Foi assim que vim aqui parar.

Antes de te pedir para exemplificar em que pode consistir essa concretização, gostaria que clarificasses a ideia filosófica. Vês o objectivo último de um colectivo de robôs como sendo a replicação de um colectivo de humanos? Ou vês a replicação de um colectivo de humanos como um meio, isto é, como uma possível solução para problemas que envolvem colectivos de robôs com os mais variados objectivos?

O que mais me interessa são os cenários mistos: humanos e robôs que partilham o mesmo espaço social. Nesse cenário, a ideia é procurar que os humanos possam comportar-se informalmente (quer dizer, sem precisarem de nenhuma preparação especial, porque os seus comportamentos habituais servem para a interacção com os robôs). Só assim os robôs podem sair de ambientes de especialistas e podem entrar no mundo quotidiano. Ora, isto implica conhecer os humanos, tanto como controlar os robôs. Creio que este problema terá aplicação corrente dentro de não muitos anos.

Podes então exemplificar o que seria um cenário real para a Robótica Institucionalista? Existe já algum colectivo de robôs a funcionar nesses termos ou é trabalho em progresso?

Estou a dar uma pequena contribuição para um projecto europeu liderado pelo ISR (MOnarCH), iniciado em 2013, que constitui exactamente o tipo de cenário que nos interessa: robôs, a funcionar na ala pediátrica de um hospital oncológico, respeitando os exigentes constrangimentos físicos de um cenário real desse tipo e respeitando os apertados critérios éticos dessa situação. Espera-se que os robôs se envolvam em situações com os pacientes (por exemplo, colaborando em jogos ou na escolinha que funciona no hospital), de tal modo que melhorem a qualidade de vida daquelas crianças. Claro que a minha abordagem é um contributo muito pequeno, mas procura usar conceitos institucionalistas (como normas sociais e papéis sociais) para conceber o controlo dos robôs nesse ambiente social. Quem tem dado um desenvolvimento robótico mais específico a esta abordagem é o José Nuno Pereira, que está no programa doutoral conjunto com a EPFL, e que só está à espera de defender a tese. Ele concebeu uma metodologia, a partir das redes de Petri, para construir controladores robóticos que combinam o controlo do comportamento individual dos robôs com o controlo do enquadramento institucional. Portanto, há uma direcção clara: usar conceitos institucionais para gerir ambientes mistos muitos robôs para muitos humanos, em cenários que tenderão a tornar-se correntes no futuro.

Os robôs actuais são (ainda?) muito diferentes dos que a imaginação humana foi criando. As limitações nas tarefas que podem ser realizadas automaticamente são claras para os engenheiros mas nem sempre para alguém de fora do meio. Foste surpreendido neste sentido? Estas limitações foram/são de alguma forma impedimentos para experiências que tinhas/tens em mente realizar?

Uma das coisas que me surpreenderam foi exactamente isto: é tudo tão difícil de fazer, especialmente com robôs reais! Há muita coisa que não se pode experimentar ao nível que me interessa (tendencialmente, populações de agentes encorpados, naturais e artificiais, heterogéneos e em grande número), porque não é fácil nem barato ter um grande número de robôs, nem é fácil fazer o controlo básico dos mesmos, especialmente se os queres a interagir com humanos. Do ponto de vista institucionalista não me interessam muito, por exemplo, os problemas de navegação ou de manipulação, mas sem isso é difícil fazer experiências de mais alto nível que tenham sentido. Por vezes temos de passar para a simulação, mas aí perde logo grande parte do realismo e facilmente atiras problemas para baixo do tapete.
Este parece-me, aliás, um problema mais geral. Acho que a “propaganda científica” (divulgação, para ser mais simpático) dá aos leigos uma imagem demasiado cor de rosa do que já se pode fazer, certamente para atrair o interesse das pessoas e o apoio à robótica, mas com potenciais efeitos perversos. Foi-me contado no Japão que, após as complicações com a central nuclear de Fukushima, a Honda recebeu uma quantidade enorme de mensagens protestando por eles não mandarem o robô ASIMO, um humanóide muito popular, para os locais contaminados, em vez das pessoas. Qualquer técnico sabia que isso não era possível, nem útil, mas o público tinha sido induzido em erro. Ao mesmo tempo, claro que havia imensa robótica envolvida na situação, mas as máquinas que interessavam naquele cenário não eram humanóides nem nada que se parecesse. Quer dizer: a percepção pública está contaminada por uma comunicação errada, que distorce a compreensão dos avanços reais e das dificuldades. Há imensa interferência dos algoritmos na vida real, mas em aspectos menos vistosos: por exemplo, a negociação automática já é responsável por cerca de metade da actividade nos mercados financeiros electrónicos globais, de tal modo que em muitos casos não é possível saber se estás a negociar com pessoas ou com computadores, mas isso tem menos impacto no imaginário das pessoas porque não envolve robôs fantásticos. Acho que é preciso reconverter o imaginário popular para o tornar mais compatível com o que os cientistas realmente pensam seja realista ou irrealista.

Achas que o ir além da simulação, o procurar situações realistas (preocupações naturais em investigação em engenharia), são mesmo importantes para a filosofia? Isto é, o desenvolvimento de ideias filosóficas depende deste tipo de concretização?

É provável que a maioria das pessoas acreditem que em filosofia o pensamento é “livre”, no mau sentido: pode pensar-se o que se quiser, desde que não se entre em contradição. Eu acredito, pelo contrário, que a maior parte dos cenários teoricamente concebíveis (acerca de como funciona o mundo) não passam de cenários; acredito na importância da contingência: há imensas coisas que podiam ser de inúmeras maneiras diferentes, mas na realidade são apenas de uma determinada maneira. Assim sendo, creio que qualquer ideia acerca do mundo só tem a ganhar se aceitar confrontar-se com a prática, com o teste do material. Claro que não pretendo reduzir a filosofia à experimentação, até porque a filosofia tem, com a sua especulação ordenada, contribuído para incentivar a exploração de caminhos muito úteis à ciência. Mas acredito que todo o pensamento ganha em encontrar espaços onde a experiência o pode colocar em causa. Há imensas soluções que parecem funcionar em simulação, mas passam mal o teste de serem aplicadas no real físico. Julgo ser um enorme privilégio para um filósofo ter um espaço de investigação onde se procurem dar concretizações “de engenheiro” a pelo menos alguns aspectos das suas ideias filosóficas.

Para terminar, gostaria de saber como vês, dessa tua posição que me parece de charneira, o relacionamento humanidades / ciências. As dificuldades de comunicação entre as duas culturas apontadas pelo C. P. Snow há meio século continuam actuais? Como tem sido a tua experiência?

A comunicação continua a ser difícil, não só entre as humanidades e as ciências, mas mesmo entre diferentes disciplinas científicas. E acho que a situação só tem vindo a piorar. O enorme terreno da investigação é cada vez mais dividido em talhões diferentes, cada vez mais especializados, com linguagens cada vez mais divergentes. Estando a trabalhar numa zona de fronteira tenho tido a experiência, por exemplo, de como é difícil escrever um artigo usando ao mesmo tempo conceitos da filosofia, das ciências sociais e das ciências da computação, porque o resultado é de difícil leitura para toda a gente. Tal como é difícil fazer passar projectos que se coloquem nessa intersecção. Julgo que se trata de um problema grave, porque a excessiva especialização e a separação das linguagens limita até certo ponto a exploração de abordagens alternativas. Creio que as dificuldades de comunicação entre as duas culturas de Snow é um problema que não está em vias de se resolver, mas de se agravar. E, falando agora contra a minha dama, vejo com preocupação que haja muita gente das Humanidades pouco consciente da utilidade e da beleza da investigação científica. Mas também me preocupa que alguns espíritos mais científicos revelem um certo desprezo por disciplinas como a filosofia. Felizmente, há, em todos os lados, quem quebre barreiras, mas a lógica das organizações e das carreiras joga a favor de um certo fechamento dentro das especialidades, desincentivando os cruzamentos mais sistemáticos. O que é uma pena.





9.1.14

Eusébio, «mainato».

O Totem Máquina.


As formas concretas de sociabilidade dos humanos são crescentemente influenciadas por novos tipos de objectos. Agentes artificiais ou «objetos inteligentes» estão cada vez mais presentes nas relações entre humanos no contexto social. Fenómenos como a «especulação automatizada» ou a «Internet das coisas» exemplificam a metamorfose de objetos com crescente impacto em domínios específicos da interacção social. Neste estudo interroga-se esta realidade com os instrumentos do debate em Antropologia sobre o totemismo e animismo nas sociedades não-Ocidentais ditas primitivas. Este debate, que teve início há algumas décadas e ainda prossegue, fornece conceitos que ajudam a questionar ideias e experiências históricas das Ciências do Artificial (especificamente a Inteligência Artificial). A partir deste ponto de vista são também postos em questão fenómenos mais recentes.

Este é o resumo do meu artigo "O Totem Máquina. O Futuro da Identidade e o Futuro da Comunidade na Máquina Universal", publicado na Revista da Faculdade de Letras da Universidade do Porto - Série de Filosofia, no volume de 2012 (apesar de escrito e publicado em 2013), que passou agora a estar disponível gratuitamente em linha: basta clicar aqui.

Este texto teve origem numa palestra que dei na Universidade de Coimbra, a 31 de Maio de 2012, no Centro de Investigação em Antropologia e Saúde, a convite do Professor Luís Quintais, a quem agradeço ter-me levado para estes cruzamentos (que, aliás, tiveram muito a ver com a minha posterior ida e estadia para o Japão durante cinco meses de 2013).


8.1.14

Tal pai, tal filho.


Fomos ver "Tal pai, tal filho", do realizador japonês Hirokazu Koreeda. O filme é apresentado como o desenvolvimento dramático de uma troca de bebés à nascença, só esclarecida por volta dos seis anos de idade das crianças envolvidas. Toda a dialéctica entre natureza e cultura está envolvida nas duras opções entre sangue e amor que esta situação coloca em jogo. Já por esse lado o filme valeria a pena, sendo que tudo é tratado com fina sensibilidade, sempre rodeada pelos perigos da delicadeza japonesa (espécime que pode tornar-se cortante facilmente).
Contudo, conhecendo um pouco dos actuais debates e dilemas da sociedade japonesa, nota-se que o verdadeiro tema do filme é outro: o desequilíbrio das relações familiares, com os homens a tornarem-se estranhos às suas famílias, especialmente aos seus filhos, em nome da carreira e do sucesso. Apesar de uma certa "preocupação burocrática" não desarmar, dando a ideia de que os pais continuam a ser (bons) pais mesmo assim. O filme é, para o Japão do momento, um verdadeiro filme de intervenção: um grito pela humanidade da família, "pais, precisam-se". Desse ponto de vista, o episódio narrado não é uma curiosidade, é antes uma questão para todos. Também por cá.
O único enviesamento grave do filme é fazer de conta que esta dificuldade só conta para os homens, quando ela é cada vez mais um factor decisivo no estatuto social da mulher e nas relações entre homens e mulheres no país do sol nascente.
Um filme a ver. Com olhos de ver,  não com olhos de crítico apressado.

licença para caçar drones.

7.1.14

melhorar a democracia.

13:40

Porque «o sistema português (...) é porventura o sistema nas democracias consolidadas que menos liberdade de escolha dá aos eleitores» e porque acho que esse é um grande problema da nossa democracia, acho que esta ideia é um bom ponto de partida: “A proposta do Pedro Magalhães”.

6.1.14

a morte de uma celebridade.


Quando as televisões começaram a espalhar a notícia
da morte de Santo António de Lisboa,
abrindo o rio de respostas electrónicas enredadas
que embrulham sempre estes novelos colectivos,
e chegaram primos, afilhados e toda a espécie de parentes
vindos de cada canto da terra, do mar e do ar,
de planetas longínquos, santos de outras religiões,
que são planetas ainda mais longínquos mesmo quando
dentro das pessoas humildes se encontram,
praticantes da meditação em variados tons,
um descendente de Fernão Mendes Pinto, um mongol dos antigos,
um mestre de uma ordem militar de um século anacrónico
(estranho que tantos tenham notado que Dom Paio Peres Correia
ficava, por poucos anos, mal neste filme,
os mesmos que bebiam piamente todo o cálice de absurdo
naquele momento, naquela gente, naquela conversa
como se o tempo fosse achatado),
e entrou um peixe dizendo que vinha a recado
do Padre António Vieira, por via de seu testamento,
e que, sendo peixe miúdo, trazia delegação
também dos grandes e dos que mais devoram,
como se o sermão tivesse convertido alguém,
e estávamos neste clímax de raridades metafísicas,
num ponto bacanal de tristezas sortidas,
pensavam os poucos cépticos, ou cínicos, que sejam,
quando entrou sisudamente
na cidade uma delegação:
do Reino de Pádua mandavam dizer
que os conventos de São Vicente de Fora, em Lisboa,
e de Santa Cruz, em Coimbra, estavam muito para trás
na história pessoal do santo, muito atrasados
até face à pregação contra os albigenses,
a sua coroa de glória mais espinhosa,
quanto mais quando comparados com a primavera
do teólogo, do místico, do asceta e do notável orador e taumaturgo
que verdadeiramente Lisboa não sabia quem era
se saber de alguém não é agarrá-lo pelos fundilhos
do pequeno quadrado de terra que compreendemos
e vemos com os nossos pobres olhos cansados de tanta dor e miséria.
Que são os olhos que olham sempre primeiro
para os pés do seu próprio dono.

quantos Eusébios vivos vale um Eusébio morto?

11:47

Agora está toda a gente a chorar pelo Eusébio, mas uma equipa de artistas e empreendedores andou anos a querer montar um espectáculo de teatro multimédia para contar a história de Eusébio e não encontrou vontades suficientes para criar as condições para tal. Como diz o Carlos Fragateiro, talvez agora se consiga, porque os portugueses gostam mesmo é de mortos.

Isto diz muito sobre nós, sobre o que somos colectivamente - e sobre a mascarada mediática em que se transformou parte da nossa vida pública. Parece que tendemos a achar lindíssimas as celebrações dos mortos, tanto quanto tendemos a não ligar peva às celebrações dos vivos. Eusébio merecia menos a celebração enquanto era vivo? Que coisa estranha. E que coisa tão bizarra que, em nome da celebração do morto, apareça quem se incomode por se querer falar de quem quis celebrar o vivo sem esperar que ele morresse. Claro, a celebração dos mortos dá sempre mais lucro, ou mais juro, ou lá o que é. Felizmente, Eusébio não era Prémio Nobel da Literatura, causando assim menos engulhos aos que têm óculos especiais (ideológicos) para medir o calibre da celebridade...

Também estive (mínima, remotamente) implicado (como "apoiante" promitente) naquela iniciativa de festejar Eusébio em vida. Embora agora não ande por aí a reclamar-me como grande admirador de Eusébio. Simplesmente, respeito mais os que se lembram de celebrar as pessoas em vida do que sou capaz de respeitar os guardiões dos mortos famosos.

5.1.14

"se não tem onde deixar a criança, arranje outro emprego".

16:54


Eu não vou explicar a história toda, porque outros já a contaram com todos os episódios. Deixo o link vindo de Aveiro, para o texto de Miguel Pedro Araújo: leiam e sigam os pormenores, ficarão a perceber como aquela frase foi dita a uma mãe que trabalha - neste Portugal que já foi de Abril.

Sim, o Portugal de Abril foi um país onde as pessoas tinham vergonha de ser tão más, tão despudoradamente más. Não conheço nenhum dos intervenientes, não há nada de pessoal em sublinhar esta história. Leio tudo como quem lê uma peça de teatro onde as personagens são tipos, não vizinhos concretos. Onde não se conta uma historieta, mas uma moral. Ficarão assim a saber que a língua portuguesa permite escrever barbaridades, permite mostrar o esplendor da desumanidade.

Leiam e façam os vossos cartões: precisamos conhecer os rostos dos nossos inimigos, dos bárbaros que nos invadiram pelas portas grandes, cheios de honrarias e títulos profissionais, para mais desprevenidos nos apanharem e destruírem.


Oração de Domingo.

António tem uma licenciatura em pintura por uma grande escola. Fez um curso de teatro de um ano. Faz teatro amador. E trabalha num café para ganhar a vida. António não parece ter muitas teorias acerca da competitividade da economia nacional. António não conhece muita gente que justifique tudo com a competitividade da economia nacional. António faz pela vida, mas faz pouco por quem faz todos os dias a pequena teoria dos instalados. António talvez nem se aperceba de que há gente a receber boas reformas protegidas da ganância governamental que não se coíbe de protestar contra as reformas dos demais. António persegue um sonho de artista, sabendo como isso é desprezado pelos arautos da competitividade nacional, os arautos encastrados nos seus privilégios sempre a berrar contra os privilégio dos outros. António é um bom nome para nome de português. Contracenar com António é uma aprendizagem da gente que persegue um sonho desprezado pela arrogância dos propagandistas, desprezado pela insensibilidade dos inimigos aquartelados do lado de dentro das nossas próprias muralhas. Tem um bom domingo, António.