25.10.13

O meu socratismo.

23:24

As palavras e as coisas /
 « Do rio que tudo arrasta, diz-se que é violento.
Mas ninguém chama violentas às margens que o comprimem.» (Brecht)


1. Se há coisa que me dá volta às tripas é ser sugado para uma “bolha comunicacional”. Explico-me. O mais recente “regresso de Sócrates”, que no plano da objectividade imediata não passa de uma “photo opportunity” a propósito do lançamento de um livro, transforma-se em mais uma comoção nacional, onde o próprio colabora ao lado dos que juraram metê-lo no inferno. Tento não entrar nesse filme. Mas perco: acabo atraído para a bolha e irritado por isso, mas compelido a reflectir sobre a pedra que rola encosta abaixo e que não se detém por causa da nossa irritação. Vou, então, fazer, pelo menos para mim, o meu ponto da situação acerca do meu “socratismo”: não por causa do passado, mas por causa do futuro.

2. É sabido que defendi, por vezes com unhas e dentes, os governos Sócrates em alguns dos momentos de maior contestação. Também coloquei reservas de fundo quanto ao método seguido em grandes dossiês (em geral, motivado pela minha ideia persistente de que os poderes devem levar a sério aquele trabalho de concertação que coloca carne nos ossos da democracia) e nunca me coibi de expressar discordância quando assim o entendi. Mas, globalmente, é justo classificar-me, nesse período, como um “socrático” voluntário. (Continuam disponíveis no meu blogue todas as “provas” acerca desse período.) Os poucos que conhecem um pouco mais do meu passado político (um percurso, mais do que discreto, apagado, apesar de ter começado quase há 40 anos), teriam razões para se espantarem com esse meu posicionamento. Então, por quê este socratismo? (Seria mais próprio colocar aspas, “socratismo”, porque não sigo pessoas, mas causas; mas não vou dourar a pílula.)

3. O meu socratismo tem, basicamente, duas razões.
Primeira: entendi que Sócrates tinha uma visão para o desenvolvimento do país que era um empurrão importante para deixarmos o miserabilismo nacional e visarmos mais alto. Não vou entrar nos pormenores, mas em domínios como a educação ou a saúde, a energia ou a ciência, para dar apenas exemplos, o futuro fará o seu juízo. Um país habituado ao queixume precisava de um choque desses, mesmo que o desenho concreto das políticas pudesse ter – tivesse, claro – defeitos; mesmo que o chavão do “choque tecnológico” nunca me tenha convencido (como escrevi em tempo) por deixar demasiado na sombra o importante “choque democrático” que era indispensável para tornar o projecto viável.
A segunda razão para me ter envolvido no combate cívico do lado do socratismo foi a campanha de ódio desencadeada contra Sócrates por uma “coligação” formidável que não olhou a meios para atacar a pessoa do então primeiro-ministro. Não vale a pena voltar a esmiuçar o processo, mas nunca, desde o 25 de Abril, tanta calúnia visou pessoalmente um político, de forma tão concertada, tão persistente, tão agressiva, tão sem escrúpulos, como aconteceu contra Sócrates. Esse facto tornou-se, para mim, uma razão em si mesma para o meu socratismo: a batalha cívica contra a possibilidade de uma campanha de ódio pessoal decidir um processo político. Foi essa política do ódio que, finalmente, deu cobertura à coligação negativa, tornando aceitável que a direita e a esquerda da esquerda parlamentar se unissem para mostrar a Sócrates a porta de saída.

4. No plano estritamente político, e com consequências para o que se passa hoje, o meu socratismo teve também a ver com a resposta nacional à crise. A crise, que começou por ser um terramoto criado pelas aldrabices do sistema financeiro, foi depois transformada em crise das dívidas soberanas, tendo a factura acabado por ser entregue a alguns povos, embrulhada numa teoria austeritária que serve certos interesses bem embebidos no poder real do mundo globalizado de hoje. Sem vir agora ao caso uma análise detalhada aos méritos e às cegueiras de Sócrates nesse processo, há três factores que relevo.
Primeiro, a direita, a começar pelo PSD de Manuela Ferreira Leite, começou por dizer que o cancro era uma pequena constipação. A política do ódio serviu, e ainda serve hoje, para esconder a enorme responsabilidade dessa tese absurda no inquinar do debate acerca da resposta que teríamos de dar à crise. Há por aí tantos arqueólogos do pecado original da nossa situação actual, mas quase todos fazem por esconder debaixo do tapete a irresponsabilidade que, por motivos eleitorais, destruiu no ovo a possibilidade de uma verdadeira resposta nacional a essa emergência, o que ainda pagamos com língua de palmo.
Em segundo lugar, a direita, desta vez pela voz de Passos Coelho, alcandorou-se ao poder montada na mentira de que a austeridade não era necessária e de que, desde que se corresse com Sócrates, tudo se resolveria com água de malvas e massagens suaves.
Em terceiro lugar, a ilusão de que Portugal pode, sozinho, fazer o suficiente para sair da crise, foi a tese que deu sustento quer à mentira de Ferreira Leite quer à mentira de Passos Coelho. Escondendo que o essencial não dependia de nós (para justificar o fogo de barragem sobre Sócrates), escondendo que a afinação da imagem de Portugal no plano internacional era difícil e exigia um enorme esforço de concertação interna entre todas as forças políticas e sociais (para justificar o isolamento de Sócrates e uma oportunas eleições para “ir ao pote”) e não hesitando em provocar uma crise política que nos lançou definitivamente no caminho do “resgate”, a direita, em momentos essenciais coadjuvada pela esquerda da esquerda, colocou o seu ódio a Sócrates acima dos interesses de Portugal.
As consequências desse comportamento irresponsável continuamos a sofrê-las hoje, porque é o mesmo erro que continua a poluir as relações entre a maioria e a oposição no que diz respeito à necessidade, ao conteúdo e ao formato de um compromisso nacional amplo (e não fechado a um clube, como imagina Cavaco) que precisamos para tentar encontrar uma via de saída para a crise. Se a vida não teria sido fácil com a aprovação do PEC IV, o seu chumbo marcou o momento em que as oposições, acicatadas por Cavaco Silva, borraram toda a pintura de um diálogo nacional que teria sido possível e necessário para não estarmos a sofrer o que estamos a sofrer. Por muitos erros que Sócrates tenha cometido nesse processo, como todos os líderes mundiais cometeram por não haver experiência de tal cenário, a irresponsabilidade dos que agiram politicamente por ódio a Sócrates e por mero oportunismo eleitoral é incomensuravelmente mais censurável.

5. Até aqui tentei explicar donde vem, em retrospectiva, o meu socratismo. É, digamos assim, um socratismo comparativo: com todos os seus erros e defeitos, Sócrates teria que fazer muito mais patifarias para se aproximar do nível de culpa política que têm a direita e, até certo ponto a esquerda da esquerda, no estado a que isto chegou. Quanto ao seu feitio irascível, que muitos invocam para explicar desentendimentos com este e aquele, os dados que tenho aconselham-me a acreditar nisso – mas isso para mim é irrelevante: se alguém tomou uma decisão política errada por atritos pessoais com outro agente político, isso só demonstra que devia evitar a política e dedicar-se à pesca. Tomar decisões e atitudes políticas de enormes consequências para o país por despeito pessoal é uma indignidade. Uma indignidade que, aliás, julgo ter sido praticada, em primeira instância, pelo próprio PR, o vingativo e umbiguista Cavaco Silva.
E, agora, que é feito do meu socratismo face aos últimos acontecimentos? Tentarei responder a essa questão em dois passos: primeiro, a partir da “bolha comunicacional” dos últimos dias; segundo, na perspectiva do futuro da nossa “casa comum”.

6. Quanto ao que a “bolha comunicacional” dos últimos dias releva para o meu socratismo: vejamos.
Em primeiro lugar, para enquadrar: considero abjecta a aspiração, assumida mais ou menos publicamente por muitos, de calar Sócrates. Num país onde há uma promiscuidade generalizada entre comentário político e política, um coro de virgens tentou impugnar e sonhou com a censura de um espaço de comentário político de Sócrates na TV pública. Esse incómodo, além de ser a melhor prova de que Sócrates tem sobre o país um ponto de vista que pode manter aberto um contraditório útil, mostra que o vale-tudo é a estratégia geral da política do ódio contra o “animal feroz”. A ideia era: Seguro toma conta do PS (impede o PS de defender qualquer aspecto da governação de Sócrates) e, fechando qualquer outra via comunicacional, consegue-se impedir o anterior PM de dar o seu testemunho sobre a história recente. O aspecto mais troglodita deste plano de batalha é a risota sobre o termo “narrativa” usado pelo Sócrates regressado: finos intelectuais da nossa praça repetem acefalamente que “narrativa” é uma historieta, uma mentira, uma fábula – não sabendo, ou fazendo de conta que não sabem, há quantas décadas (pelo menos desde Lyotard e as “grandes narrativas”) que “narrativa” é praticamente um termo técnico para discutir a relação entre diferentes planos de interpretação e acção no mundo. Esta exploração da ignorância, da ignorância atrevida, se se mostrar pagante neste caso poderá, de futuro, ser receita para muitas outras guerrilhas. Por isso temos de a contrariar.
Em segundo lugar, Sócrates chocou os bem-pensantes da aldeia por esse atrevimento de escrever um livro de teoria política. Ou de filosofia, não interessa muito para o caso, tirando que esse gozo com a “filosofia” engrossa por muitos desses intelectuais julgarem secretamente que ser filósofo é ou uma inutilidade que devia ser proibida (como o outro que acha irrelevante o estudo da história nas faculdades) ou um estatuto divino reservado a autores mortos há mais de duzentos anos. Seja Vasco Pulido Valente, que volta e meia publica provas da sua ignorância enciclopédica, mas não se coíbe de falar do “livro” de Sócrates (entre aspas); seja António Lobo Xavier, que costuma ser (ou estar) mais sóbrio, mas vai reconhecendo que não leu o livro de Sócrates enquanto opina que não é possível que contenha qualquer teoria sobre a tortura, porque o autor é um recém-chegado à "filosofia". O mesmo Lobo fala de Science Po como se fosse uma escolinha de bairro, quando na verdade é uma escola de renome. A arrogância sem limites já não é política nem comentário: é, apenas, a confissão do nível a que desceram estes notários do ódio mais rentável de que há memória em Portugal. Repito: esta exploração da ignorância, da ignorância atrevida, se se mostrar pagante neste caso poderá, de futuro, ser receita para muitas outras guerrilhas. Por isso temos de a contrariar.
Em terceiro lugar, a entrevista de Sócrates ao Expresso, uma entrevista com muita substância política, foi digerida, tanto pelos que a leram como pelos que a não leram, pelo lado da linguagem (ligeira, descuidada ou desbragada, conforme as leituras) usada pelo entrevistado e preservada pela entrevistadora. Neste ponto digo, à cabeça, que Sócrates usa nessa circunstância um tipo de linguagem que eu não usaria numa entrevista ou em qualquer forma de comunicação pública. Além de, pessoalmente, prezar algum cuidado na expressão, julgo que uma figura pública deve dizer tudo o que entende dever ser dito, mas evitando sobrepor a forma ao conteúdo (é possível que Sócrates tenha usado aquela linguagem de forma intencional para projectar uma certa imagem) e mantendo-se num registo que traduza uma civilidade de princípio mesmo face aos mais detestados adversários. Não é preciso ser político (ou ex-) para ter esse dever: mesmo como autor de um livro sério, julgo que lhe era exigível outro cuidado. Dito isto, não acho graça nenhuma à retórica moralista em torno da entrevista: uma pessoa chocar-se porque Sócrates chama bandalho ou pulha a um tipo que usou a acusação anónima de homossexualidade como dispositivo de campanha eleitoral, em vez de se chocar primeiro com a pulhice efectivamente praticada, é uma inversão de valores que me cheira muito mal. E que é um prolongamento no tempo da estratégia geral “contra Sócrates vale tudo, a favor nada vale”. Acusar Sócrates de tratar mal este ou aquele, em referência a uma linguagem deselegante, esquecendo o que outros fizeram para efectivamente merecer essa deselegância, é uma cegueira muito selectiva e muito desmemoriada.
Em resumo: Sócrates não reconhece facilmente como habitação a sepultura que lhe quiseram dar. Tem todo o direito de estrebuchar. E não preciso de estar sempre de acordo com a forma como ele o faz, nem com o conteúdo do que ele diz, para reconhecer que ele tem todo o direito de resistir à morte cívica a que tentaram condená-lo – e para me enojar com a dualidade de critérios dos vesgos mais militantes (que, infelizmente, levam na candura da conversa outros mais distantes da manobra, que se limitam a constatar que não gostam das palavras, às vezes descurando maior cuidado com a relação entre as palavras e as coisas, ou com a relação brechtiana entre o rio e as margens na dialéctica da violência).

De qualquer modo, tudo isto (estar a escrever tão longamente sobre isto) seria uma perda de tempo se tudo isto fosse história. Mas não. O que me importa nesta novela é o futuro. Quer dizer, como é que este passado, ainda tão importante no presente, pode influenciar o futuro. Mais claro e mais directo: podemos esperar que Sócrates venha a desempenhar, no futuro, outras funções políticas de relevo em Portugal? Terminarei deixando à análise dos leitores a minha opinião sobre esse ponto.

7. Sócrates tem direito a tentar ser tudo aquilo a que ainda ambicione na democracia portuguesa. Não tem nenhum impedimento legal, não me chocaria se ele tivesse ambições as mais altas. O povo é que vota. Se ele chegar, por exemplo, à mais alta magistratura da nação, isso nunca acontecerá sem o voto do povo. Tentar lançar uma espécie de anátema preventivo dessa possibilidade, é infantil e é uma tentativa tosca de tutelar os portugueses, como se fossemos pobres de espírito.
A minha questão é outra: não vejo que o regresso próximo de Sócrates a qualquer lugar de topo do Estado contribua para dar os passos necessários à ultrapassagem do difícil momento que vivemos. Ninguém, nem o mais santo, nem o maior herói, nem o guerreiro mais bravo, ninguém vale só por si; aquilo que cada um pode dar depende também essencialmente das circunstâncias. Sócrates fez parte de uma equação de confronto político extremo na sociedade portuguesa em tempos muitos recentes. Pelo que tenho vindo a escrever, percebe-se que não acho que seja o único ou o principal responsável por isso – mas também não o isento de toda a responsabilidade. De qualquer modo, não se trata agora de fazer um julgamento histórico: para isso, deixemos correr a água sob as pontes. O que quero dizer é que, precisando o país de um compromisso global, alargado e profundo, exigente, mas também justo e solidário, capaz de ultrapassar as fronteiras da política-habitual-tão-curta-de-vistas, é capaz de ser preferível procurar novos actores.
Um compromisso nacional, capaz de parar a destruição do laço social que está em curso, precisa de novos protagonistas: credíveis, fortes e imaginativos, sem pedras no sapato e sem complexos, sem contas a ajustar, com pontes abertas para todas as margens da equação, capazes de ultrapassar as barreiras do habitual e do já visto. Será, sempre, difícil – e, precisamente por isso, mais vale que seja tentado sem o envolvimento dos conflitos anteriores e sem os ódios, ressentimentos e esqueletos no armário que nos tolheram e nos trouxeram aqui. Ora, por muitos méritos que tenha Sócrates – e eu acho que tem –, é indiscutível que arrasta consigo o cheiro da batalha que nos trouxe até este estado de nacional desesperança. Não foi o único, claro: aplico este raciocínio aos demais actores da mesma peça. É importante saber por que é que Passos Coelho roeu a corda a Sócrates? Sim. Será interessante conhecer o que Sócrates propôs a Passos Coelho ou a Louçã? Sim. Será importante e interessante, quer para a história quer para a política. Mas vejo que mais prioritário é enterrar os machados de guerra que ficaram dessas lutas políticas e começar um ciclo novo.
Se acho que seria uma pena que Sócrates tentasse retomar as rédeas, não é porque me arrependa do apoio que lhe dei, sempre desinteressadamente. Não me arrependo. Nem é por recuar, um milímetro que seja, da batalha cívica de denunciar a política de ódio de que foi (e continua a ser) alvo. Não recuo e apoio sem tréguas a sua tentativa de retomar a voz no seu e nosso país. Ele tem direito a essa voz.
Se acho que esse cenário deve ser evitado é porque o país precisa, não de esquecer, mas de superar os seus traumas e virar a página. Podem dizer-me: mas isso seria injusto para Sócrates. Pois, talvez. Mas isso não me comove. A política não serve para compensar os políticos pelos seus méritos ou serviços. Servir o país – é isso que se supõe que fazem os políticos – é correr o risco de ser injustiçado, correr o risco de não ser compensado, o risco de dar e não receber. Se a melhor maneira de servir o país é, num dado momento, prescindir, o grande político tem de aceitar isso.
Se não houvesse mais ninguém… Mas há. Creio que há, em todos os partidos parlamentares, gente capaz de se empenhar num novo ciclo – e que não traga consigo o espectáculo de confronto que nos tem dilacerado nos últimos anos. E que não pode continuar nesta forma pestífera.





o regresso dos delinquentes.

11:50

Catroga defende que José Sócrates "devia ser julgado em tribunal".

Quando critiquei as declarações de Mário Soares sobre "prender os delinquentes" que nos governam, fui muito criticado pelos amigos que, ao "mata !", acrescentam sempre "esfola!".

Deixo, para ilustração do que recuso, umas declarações de Catroga. Recuso em qualquer caso, não depende do bando de pardais que esteja em jogo. E não me venham dizer que estou a comparar os governos de Sócrates e Coelho. Não estou a comparar nada; só me recuso a aceitar a criminalização da política, venha de onde vier, seja contra quem for.

Fico à espera que aqueles que aplaudiram Mário Soares por querer "prender estes delinquentes", e que vieram dar-me lições de "esquerda" por eu, grande malandro!, defender os "delinquentes", se vejam ao espelho nestas declarações de Catroga.

Talvez seja esperar demais que, vendo-se ao espelho em mais uma catrogada, não gostem do que vêem e repensem a questão. Mas nunca podemos desesperar da capacidade de regeneração do humano.

24.10.13

ma-so-quis-tas.



Encontrei o recorte acima no Facebook, onde se diz vir da revista brasileira Turismo & Negócios de Maceió. Mesmo que não seja, muitos exemplos se poderiam recensear nesta categoria.

Sim, porque o que importa é que este recorte mostra uma certa ignorância sobre o nosso país; uma ignorância de postal. Há, no entanto, outras entradas nessa questão da imagem distorcida de um país.

Hoje em dia o cenário é mais assim: estamos numa livraria de Bruxelas a folhear um livro onde um português conhecido discorre sobre a actual situação de Portugal e ouvimos um comentário de um co-visitante que demonstra a ignorância arrogante de quem pensa que temos costa com o Pacífico.

Outro exemplo da mesma ignorância: alguém nos conta que, numa conversa de amigos de várias nacionalidades europeias, uns alemães pensavam que a Alemanha tinha dado (não emprestado, mas dado) dinheiro à Grécia, a Portugal, ...

E é na base dessa ignorância que se fazem as "opiniões públicas" que nos querem ver crucificados. O que cabe perguntar é se, do lado de Portugal, segue algum esforço para explicar a nossa realidade ou se nos limitamos a repetir que gostamos muito das vergastadas.

23.10.13

o "escritor".




O curto vídeo que vos deixamos acima é parte de um documentário da BBC Four, intitulado Mechanical Marvels: Clockwork Dreams on the history of automata, narrado pelo professor Simon Schaffer. Ele mostra um "menino mecânico" conhecido como "o escritor", uma criação de Pierre Jaquet-Droz ( 1721-1790 ), um relojoeiro suíço famoso por obras deste tipo.

O mecanismo do "escritor" tem milhares de peças e, sendo programável, permite-lhe escrever - com uma pena de ganso - qualquer texto com um máximo de 40 caracteres. A forma como os olhos do autómato seguem as suas "acções", bem como os detalhes da forma como processa a recarga da pena com tinta fresca (agitando-se brevemente para evitar "borrar a escrita"), dão-lhe uma estranha aparência "humana".

O autómato, acompanhado de outras maravilhas, está no Museu de Arte e História de Neuchâtel.

É possível ver o documentário na íntegra seguindo o seguinte link: Mechanical Marvels Clockwork Dreams.

(Não posso deixar de vos dizer que "escrever" assim não é escrever, por muito que isso desagrade aos meus amigos roboticistas. Escrever é andar pelo mundo, deixar-se questionar, reflectir - e depois dizer o que de relevante se encontrou nessa jornada. Daqui saúdo esses que verdadeiramente tratam de escrever. Mesmo quando o mundo está cheio de gente que disso nada percebe, ocupados que estão com os seus ódios de trazer por casa. Quem tiver ouvidos para ouvir, que ouça.)

22.10.13

apontamento à margem da entrevista de Rui Moreira.

14:23

A entrevista do novo Presidente da Câmara do Porto, Rui Moreira, que sai hoje no Público, merece uma reflexão mais geral sobre o papel dos independentes na política portuguesa - e sobre a atitude dos socialistas face a esse fenómeno.

Já escrevi antes que os independentes não têm de ser uma maravilha da natureza para serem úteis à higiene do sistema político. Por muito pouco independentes que sejam, por mais que nasçam das tricas internas deste ou daquele partido, servem de ferramenta para os eleitores mostrarem o seu desagrado face a alguns comportamentos dos partidos. É uma visão muito funcionalista, dirão - e eu reconheço, mas retribuo: em democracia, a política não existe para os políticos serem felizes, existe para que a comunidade política tenha forma de se governar. E os independentes, mesmo os falsos, aumentam a capacidade dos cidadãos para darem carolos na cabeça dos políticos que se julgam donos do eleitorado. Gosto disso, ponto parágrafo.

(Aliás, se me dessem a oportunidade de escolher uma única reforma do sistema eleitoral, eu não teria dúvidas: introduzir o voto preferencial, de modo que os eleitores possam escolher, das listas apresentadas pelos partidos, quais os candidatos que querem ver eleitos, independentemente da ordem em que aparecem nas listas: em lugar de terem de escolher todo o pacote que os partidos embrulham numa lista ordenada, o eleitor poderia trocar as voltas ao partido e personalizar a sua escolha.)

Contudo, seria bom que os independentes não tivessem apenas esse papel "punitivo". Seria desejável que os independentes fossem capazes de explorar os recantos do sistema político a que os partidos têm dificuldade em chegar. Para isso, os independentes não podem comportar-se como uma espécie de partido clandestino, ou um "pseudopartido", para usar a expressão de Rui Moreira quando critica os independentes que querem funcionar como bloco na Associação de Municípios. Essa superestrutura de independentes seria, parece-me, uma fraude à legalidade democrática, uma tentativa de funcionarem como partido sem se assumirem como tal, escondidos no carácter inorgânico do "movimento". O que os independentes podem fazer de genuíno é desbloquear situações políticas onde o xadrez partidário não consegue gerar alternativas ou convergências à altura dos desafios. Julgo que foi o que aconteceu no Porto, onde Rui Moreira, baralhando o quadro partidário, criou condições para uma colaboração entre forças (políticas e sociais) que, de outro modo, estariam barradas pela lógica partidária. Isto não é criticar a lógica partidária em si mesma, que tem razão de ser: é reconhecer que a lógica partidária, como tudo, tem os seus limites. E os independentes podem, em certos momentos, ajudar a furar esses limites - aliás, sem necessidade de qualquer retórica anti-partidos, como também mostra a entrevista de Rui Moreira.

Dito isto, como devem posicionar-se os socialistas perante o fenómeno dos independentes? Em primeiro lugar, as soluções políticas para uma determinada situação devem ser ditadas pelo bem comum e não pelo egoísmo partidário. Vir dizer, como disseram alguns dirigentes socialista do Porto, que o PS não devia embarcar no acordo consequente com Rui Moreira para ser alternativa daqui a 4 anos, quer dizer que a preocupação eleitoral se sobrepõe à preocupação com a governação da cidade. Se Rui Moreira governar bem, com o apoio do PS, isso será bom para Rui Moreira e para o Porto, sendo provavelmente mau para o PS em termos eleitorais. Não desdenho dessa análise, mas concluo, ao contrário de outros, que o PS deve servir a cidade e não furtar-se às responsabilidades por cálculo eleitoral. O primeiro dever de um partido não é tentar estar sempre no poder, nem tentar ganhar sempre eleições, mas estar preparado para ser alternativa quando for preciso fazer melhor. Continua a chocar-me a forma despudorada como alguns dirigentes partidários mostram dificuldades em conciliar o interesse partidário com o interesse geral - e, se não escondem essa dificuldade em público, parece ser por nem se aperceberem do problema.

Concebo o papel dos independentes como essencial à flexibilidade da governação democrática: devem, os indepententes, conseguir criar dinâmicas que ultrapassem a rigidez do partidarismo excessivo, estabelecer pontes de que os partidos não são capazes de se ocupar, fazer sínteses que ultrapassam as divisões tradicionais, inovar na temática política, refrescar o pessoal político. Para isso, os independentes não podem ser "pseudopartidos" subterrâneos e têm de perceber que os partidos continuam a ser a estrutura fundamental da democracia possível. Para isso, os partidos têm de perceber que a democracia não existe para os servir, mas que o contrário é que importa: os partidos têm de merecer o respeito dos cidadãos mostrando que sabem ser apenas instrumentos da procura constante pelo bom governo da coisa pública.


20.10.13

o barrosismo e os socialistas.

14:46


Segundo a edição de ontem do Expresso, Durão Barroso nomeou João Proença para conselheiro especial junto da Comissão Europeia, com a missão de apoiar quer o Presidente da Comissão quer o comissário para o Emprego, Assuntos Sociais e Inclusão, dada a sua experiência na concertação social.
Confesso que fico um pouco perplexo. Até acredito que o comissário Andor gostasse de fazer mais qualquer coisa pela concertação social na Europa, mas não acredito que Barroso esteja minimamente interessado no assunto ou deixe avançar esse assunto mais do que mera conversa da treta. Barroso nunca deu, politicamente, mostras de saber para que serve verdadeiramente a concertação social. Assim sendo, se Proença vai para aconselhar Barroso, terá pouco que fazer; se vai para apoiar o Comissário, não percebo bem por que carga de água há-de ser Barroso a escolher os conselheiros de Andor (da família socialista).
De qualquer modo, mais importante do que tudo isto, gostava de saber se ninguém vê problema nenhum em que João Proença, um dos executivos da direcção nacional do PS (secretário nacional) seja, ao mesmo tempo, conselheiro de Barroso. Ou a "grande coligação" à portuguesa tem mais caminhos do que aqueles que os meros mortais como nós têm direito a saber?

Perdoem o meu excessivo cepticismo, mas a ingenuidade passada dos socialistas acerca de Barroso justifica todos os receios.