23.9.13

Mais gasparinos que Gaspar.

15:54

Anda por aí quem “esclareça” que Vítor Gaspar (VG) nunca deu a data de 23 de Setembro de 2013 para o regresso aos mercados. Ou, numa variante do argumento, diga que, uma vez que hoje temos dinheiro para honrar o empréstimo que vence, se cumpriu a promessa. Quanto a esta variante, já respondi na posta anterior. Quanto à tese de que, afinal, Gaspar não disse aquilo que toda a gente diz que disse, decidi ir voltar a ver o vídeo (que deixo abaixo).

Gaspar diz: “A data crucial para o regresso aos mercados é 23 de Setembro de 2013.” Isto quer dizer o quê? Segundo alguns, isto não quer dizer que regressamos aos mercados neste dia. Mas esses “alguns” estão errados. Aquela frase quer dizer exactamente o que todos ouvimos: é nesse dia que conseguimos ou se nota que não conseguimos. Em rigor, aquele “regresso aos mercados” podia ter sido antecipado. Aliás, foi esse mesmo o truque (como já expliquei na posta acima mencionada). Mas aquela frase, em si e por si, era a promessa de que neste dia de hoje estávamos com acesso normal ao financiamento internacional. Coisa que não se verifica. Tentar iludir isto com uma leitura desgarrada da declaração, é pouco curial. Aliás, nem na altura nem em qualquer outro momento VG veio esclarecer que não tinha dito isso, o que deveria ter feito se tinha sido mal interpretado por toda a gente. Mas não, ele não foi mal interpretado, ele disse mesmo isso. Apesar dos "intérpretes graciosos" que agora lêem de outro modo.

Aliás, indo agora pelo lado do contexto, importa lembrar que Passos Coelho tinha declarado uns dias antes: "Já dissemos que vamos voltar aos mercados de dívida em Setembro de 2013 e é o que vai acontecer." (lembrado aqui) Ou seja: Gaspar estava, naquela declaração que consta do vídeo, a precisar a data do regresso aos mercados. Vemos isso pelo conteúdo da declaração e pelo contexto dela (declarações do PM).

Posto isto, sejamos claros: vir agora pretender que Gaspar não disse que hoje estaríamos regressados aos mercados é tentar atirar-nos areia para os olhos. É desonestidade intelectual. (Podia ser burrice, incapacidade de ouvir ou entender uma declaração, mas estou a deixar de lado esses casos, que merecem mais piedade do que censura.) Gaspar disse isso. E a realidade é bem outra, como sabemos. E não são quaisquer ilusionistas que reescrevem a história.




porque hoje é dia 23 de Setembro: Gaspar e o regresso aos mercados.

11:46

23 de Setembro era dia de Portugal pagar um empréstimo. Como hoje é o dia e Portugal tem dinheiro para pagar o empréstimo, estamos muito contentes.
Ainda bem.
De facto, era bem pior se chegasse o dia de pagar o empréstimo e não houvesse dinheiro para isso. Era mau financeiramente e era mau em reputação, que também custa dinheiro.
Pergunta: como é que temos esse dinheiro? Resposta: há uns meses atrás pedimos emprestado "outro" dinheiro para pagar este empréstimo. Numa altura em que ainda não se tinha visto a extensão do estrago que a política Passos-Gaspar causou ao país real, emprestaram-nos esse "outro" dinheiro a juros até certo ponto aceitáveis.
Isto quer dizer - como há por aí quem diga - que se cumpriu a visão de Gaspar?
Não, não quer dizer isso.
Se fossemos hoje aos mercados buscar "outro" dinheiro para pagar esse empréstimo... vínhamos da praça sem couro e sem cabelo, tão altos que estão os juros agora. Quer dizer: nós não regressámos aos mercados. Nós demos uma voltinha aos mercados enquanto eles ainda não sabiam o efeito da receita Gaspar e não tinham visto a irresponsabilidade política do governo a criar as suas próprias crises políticas. Hoje não podemos ir aos mercados financiar-nos porque a "fruta" está a um preço que nós não podemos alcançar.
Este é o truque dos que dizem que Gaspar cumpriu: falam como se Portugal estivesse outra vez em condições de se financiar no mercado internacional, normalmente. Ora, Portugal não está nessas condições. E não está nessas condições porque a conjugação dos efeitos da politica de Gaspar com a crise política mais recente (iniciada com a demissão de Gaspar) fizeram com que os mercados tapem o nariz quando lhes cheira a obrigações portuguesas.

Em resumo: um raide aos mercados é muito diferente de regressar aos mercados. Nessa medida, é justo que no dia de hoje se lembre Gaspar - por ter tido a inteligência (individual) de se ir embora a tempo de fazer de conta que não tem culpa do resto do filme.

22.9.13

23 de Setembro de 2013 é já amanhã. Literalmente.