7.9.13

"os políticos enganam os cidadãos". e quem ajuda à festa ?



Hélder Guerreiro publica no Aventar esta imagem (primeira página do Público de 8 de Abril de 2005) com o seguinte título-tese: "Os políticos enganam os cidadãos". Até concordo: o que se passou com a lei da limitação dos mandatos foi vender gato por lebre. Embora seja de sublinhar que nem todos os partidos tiveram exactamente o mesmo comportamento, uns aproveitaram as dúvidas à farta, outros nem por isso.

Contudo, acho que - já que se invoca o que veio nos jornais - vale a pena fazer outra pergunta: e os jornalistas, designadamente os que publicam estas matérias, andavam a dormir? Não há um jornalista que seja capaz de ler uma lei e perceber um truque e dizer com clareza que é um truque? Ou os jornalistas são só para papar briefings?

5.9.13

a guerra do piropo.

11:18

Para abreviar, estou a referir-me a umas ideias do Bloco de Esquerda sobre uma prática muitas vezes designada imprecisamente por piropo.

A forma como está a ser ridicularizada a questão é bem o espelho da degradação a que chegou o debate público de coisas sérias em Portugal. Escorados em alguma falta de jeito no lançamento de uma ideia, há uma tropa de "comentadores" que se agarram ao osso dos pormenores e deitam para o lixo, sem um mínimo de cuidado com o que importa, o essencial da ideia. O que é que importa? Importa se há ou não um fenómeno social que merece atenção e merece cuidado. A atenção e o cuidado que são espezinhados pela ligeireza. Não me venham falar de piropos inteligentes e de piropos delicados e de piropos amorosos e de mais trinta bezerros num prado: não é nada disso que está em causa. O que está em causa são situações de abuso, em campo aberto, em que homens tratam mal mulheres, contra a vontade destas, contra a dignidade das relações entre as pessoas. Tratam mal falando, sim, porque a linguagem é muito poderosa. E, muitas vezes, o falar é também ameaça de outras coisas.

Já contei que não me esqueço, à porta da escola secundária que frequentava em Aveiro, ter passado um grupo de homens e um deles dizer para uma colega nossa, realmente muito jeitosa, "dava-te uma foda" - tendo a resposta deixado o paspalho de cara à banda: "só uma, seu paneleiro?". Isto aconteceu mesmo e fartei-me de rir com o barrete do atrevido, mas não se pode exigir a todas as mulheres que reajam assim e fazer de conta que isso é solução para o problema. Ninguém pode ser obrigado a aceitar esse jogo.

A questão das mulheres tem sido cada vez mais difícil de tratar politicamente, porque tem crescido o número daqueles e daquelas que se contentam com estarem bem e são incapazes de tentar perceber o peso de certos fenómenos na sociedade real, com as pessoas reais. Não me venham com teorias sobre os feminismos e o diabo a sete: o que me interessa é que as práticas de agressão às mulheres continuam a existir e a viver bem com a indiferença de muitos. Por isso é bom que essas coisas se discutam seriamente - e não aproveitando eventuais erros na apresentação política das ideias para as ridicularizar. Esse método, muito seguido, é uma verdadeira doença da cidadania. Daí que me custe ver a alegria apalhaçada com que tantos participam desse jogo, dizendo "graças" muito "inspiradas" sobre o tema do piropo. O problema dessas "graças" é serem mais "inspiradas" do que informadas.

Há dias assim, em que as vossas brincadeiras com assuntos sérios me irritam.

informar ou nem por isso. a foto de Hollande.

10:35

A agência noticiosa AFP publicou, primeiro, e depois retirou de circulação, uma fotografia do presidente francês em que este aparecia com um ar "apatetado". Face às suspeitas de que os serviços da presidência poderiam ter tido a ver com essa opção (retirar uma foto de Hollande, sem nada de mal mas pouco edificante para a pose de um presidente), o director de informação da agência veio explicar-se em público. No essencial, afirma que foi uma decisão editorial, com fundamentos que incluem o seguinte: a linha editorial da agência inclui a orientação de não publicar imagens que ridicularizem as pessoas. Até porque, em geral, essas fotos "ridículas" retiram a imagem do seu contexto ou distorcem o sentido do que supostamente se está a noticiar.

Julgo que, face às práticas de alguma (muita) comunicação social entre nós, vale a pena reflectir nisto. Qual o valor para a informação de divulgar "peripécias" que são meras acrobacias para "vender notícias" ? Não tenderão essas práticas a sair do perímetro da informação, na realidade desviando a atenção do que realmente é de interesse público?

Claro que aqui podem responder-me: se as pessoas se interessam, é de interesse para o público. Pois, mas "ser de interesse para o público" é diferente de "ser de interesse público". Ser "de interesse público" diz respeito ao que importa para vivermos bem em comum, ao que importa para sermos uma comunidade, para sermos capazes de gerir esta coisa de estarmos todos ao mesmo tempo no mesmo espaço e em relação. "Ser de interesse público" não deveria ser confundido com a circunstância de haver muita gente com curiosidade mórbida acerca de coisas pelas quais um humano saudável não deveria ter qualquer interesse. Na verdade, muita "informação" que por aí anda serve exclusivamente para fragilizar o "interesse público" em nome do "interesse para o público".

1.9.13

por que quer o "Ocidente" intervir na Síria ?

11:00

«Síria: Obama decidiu-se por um ataque.»

Voltando alguns anos atrás no rolo compressor da história internacional, contemplo o escárnio com que alguns opinadores entusiásticos na palavra expressavam o seu desprezo do alto pelas minhas muitas dúvidas acerca da "Primavera árabe". Dando outras tantas voltas à fita, deparamos com as certezas criminosas dos que levaram "o Ocidente" para o Iraque - sendo que todos escaparam sem o mais pequeno beliscão político das respectivas democracias. Agora a propósito da Síria, essas várias ingenuidades (os que são ingénuos e os que fazem de nós ingénuos), parecem preparar-se para retomar algum tipo de salvação do mundo que, como de costume, só pode servir para nos fazer duvidar de que haja salvação possível nesta ordem internacional. Contudo, pensando mais um pouco, vemos que temos de ser nós a estar enganados em algum lado. Não se pode acreditar que ninguém aprenda nada. Alguém vai agora para a Síria em condições de ilegalidade internacional só para retirar um ditador e deixar que outros ditadores ocupem o seu lugar? Não creio. Terá de haver outra explicação.

A minha hipótese é a seguinte: as potências ocidentais que querem intervir na Síria não vão lá especialmente por causa de Assad. Poderiam apoiar quem fizesse esse trabalho por interpostas mãos. As potências ocidentais que querem intervir na Síria querem fazer uma limpeza selectiva na oposição armada. Não é para aborrecer Assad que é preciso entrar no vespeiro, mas para cortar alguns dos ramos mais perigosos da frágil coligação que poderia tomar o poder se Assad fosse derrubado. O futuro depois de Assad poderia ser bem mais espinhoso para os "amigos" do "Ocidente" do que o próprio Assad - e é para podar esses arbustos que os Americanos e outros querem aproximar-se do vespeiro. Apesar dos riscos de qualquer vespeiro.