3.9.11

Barreto, Moisés, e o deserto

19:53



António Barreto defende nova Constituição aprovada com referendo popular.

Há dois aspectos no que, segundo relata o Público, terá dito Barreto.
Um, diz respeito ao conteúdo da Constituição. Num país que gosta de encontrar desculpas, em vez de criar soluções, há sempre espaço para cavalgar a ideia de que a Constituição ideal faria maravilhas pela pátria. Barreto, apesar de dizer que a causa da crise não é a Constituição, navega nas águas dos criadores de divertimentos: a conversa sobre a Constituição transmite a ideia de que o feiticeiro, se o deixassem, teria um genial golpe de varinha mágica para nos colocar noutro patamar da existência. Nisso, Barreto não está só: há muitos que sugerem terem no baú a Constituição-maravilha. O Jardim da Madeira é um dos habituais nessa conversa.
Outro aspecto diz respeito ao método para mudar a Constituição. Se fosse um general do exército a propor um método inconstitucional, ilegal, para mudar a Constituição, seria um golpista, activo ou em potência. Como é um sociólogo, goza da aura do "cientista social" e pode, impunemente, confundir o processo político de um país se dotar de uma Constituição com o processo messiânico de dar um decálogo a um povo perdido no deserto. Felizmente, Barreto logo perderia o entusiasmo com tal processo de outorgar uma Constituição quando lhe negassem o papel de Moisés, o tipo que entrega as tábuas da lei e diz que foi o próprio Deus que ditou as regras.

2.9.11

roubado

acabar com os ricos


Um versículo da história universal da caridadezinha aparece sempre que "os ricos" sentem que estão a olhar para eles. Esse versículo reza assim: "seria melhor acabar com os pobres, em vez de acabar com os ricos".
Poderiam escrever-se tratados só com notas de rodapé às inúmeras falácias que tal versículo comporta. No actual contexto, seria de decência básica lembrar que os verdadeiramente ricos não são sequer beliscados por nenhuma das medidas anunciadas por este governo ou pelos anteriores.
Mas isso não interessa nada agora, n'est-ce pas?
De qualquer modo, sempre apetece perguntar porque é que essas almas só se lembram de "acabar com os pobres" quando os políticos começam a falar nos ricos.

estórias do século em que a história não acabou

12:13

O filme A Autobiografia de Nicolae Ceausescu (Andrei Ujica) está nas salas portuguesas. Três horas de duração, preenchidas unicamente por fragmentos de material oficial do regime, recortados e montados de novo para contar uma história sem qualquer enquadramento complementar (sem comentários, títulos, separadores, nenhuma informação acrescentada), é um monumento à memória. Consegue mostrar o percurso de Ceausescu sem lhe forçar a mão, sem reduzir a personagem histórica a uma caricatura, sem disfarçar a complexidade do mundo em que viveu e agiu. Para quem não tenha uma ideia, pelo menos aproximada, do que foram aqueles tempos, não será fácil captar todo o significado do que é mostrado - e pode ser tentado a fazer uma leitura linear daqueles tempos e acontecimentos. Não será difícil reconhecer Nixon em visita de Estado à Roménia, ou De Gaulle, e isso já poderá alertar para o principal paradoxo do olhar que tivemos sobre aquele regime: a Roménia era tratada com uma certa bonomia pelo Ocidente por ser considerada, no bloco comunista, o regime mais "pacífico" ou mais "aberto" ao bom entendimento internacional.
Para uma pessoa com as minha simpatias políticas, o sítio onde este filme corta mais na carne é a sequência da "solidariedade" de Ceausescu para com a Primavera de Praga: o acolhimento a Alexander Dubček, a crítica frontal à invasão soviética, a oposição de princípio ao policiamento internacional dentro do Pacto de Varsóvia. Por lembrar um dos momentos mais trágicos que o século XX ofereceu à esquerda democrática; por sublinhar o paradoxo (acima referido) da Roménia "tolerante" aos olhos ocidentais.



(Repararam nos olhos tristes de Dubček ?)


da violência nas capitais europeias


Como alguém disse, se tivessem visto Kubrick com a devida atenção, e ainda se lembrassem, há quarenta anos que teriam percebido "os motins". Da esquerda à direita, Blair, apesar de tudo (e das tristezas que nos deu), foi o que mostrou melhor ainda se lembrar da Laranja Mecânica.


1.9.11

apoio à hermenêutica da pratica blogueira


Intendência.
A mensagem de acolhimento à caixa de comentários deste blogue passou a rezar assim:

Esta caixa de comentários destina-se a proporcionar diálogos inteligíveis entre o autor e leitores nisso interessados.
A discordância é bem-vinda.
Insultos a quem quer que seja, publicidade encapotada sem outro valor para os leitores, pseudo-literatura surrealista das traseiras da blogosfera - são candidatos à ferramenta de eliminação.

O que quer dizer o que está escrito - é o que está escrito. Nada mais. Sem tirar nem pôr.

Cavaco Silva comenta "o deslize" da Madeira

Já não era sem tempo, aliás.



então ainda não tiraram o passaporte a Sócrates?


Deviam tirar-lhe o passaporte, o cartão de cidadão, o boletim de vacinas, a carta de condução... e tudo o mais que possa ser-lhe útil para viajar. E confinar o homem a um bairro lisboeta, pequenino (o bairro) se possível. E, se mesmo isso não o impedir de viajar e de conversar com quem quer falar com ele, metam-no no Aljube!

Pelo menos, parece que é esse o projecto que está no subconsciente de quem escreveu esta porcaria.

(Diz-se que, quando soube da morte de D. João II, monarca que a grande nobreza portuguesa considerava "O Tirano", Isabel a Católica exclamou: "Morreu o Homem". Há pessoas que, com todos os seus erros e defeitos, assombram os pequenos mesmo depois de partirem. Temem, talvez, que as notícias da sua morte sejam manifestamente exageradas.)

foi você que pediu Inteligência Artificial?

31.8.11

a césar o que é de césar.


A partir da peça de Shakespeare, Joseph L. Mankiewicz realizou (1953) o filme "Júlio César". Há uma cena extraordinária nesse filme, que devia ser estudada por quantos se interessam pelo papel da retórica em política. Depois do assassinato de César, Brutus discursa ao povo de Roma a explicar os motivos desse acto, apresentando-o como uma necessidade política para bem da cidade. Marco António, amigo de Júlio César, é depois autorizado a falar, com a condição de não aproveitar a oportunidade para virar o povo contra a nova situação. Marco António faz então o discurso que é objecto do fragmento do filme que aqui deixamos. Marlon Brando, ainda jovem, faz aqui um papelão. É uma cena que merece a nossa reflexão - para não sermos tão cordeirinhos, se possível.

(Este texto era para comentar uma notícia recente da governação de Portugal. Olhando um pouco mais, achei que este texto serviria para comentar dezenas de notícias recentes da governação de Portugal. Assim sendo, deixo ao leitor a escolha do link que melhor que calhe para ser comentado por esta posta.)





a fusão dos reinos


Encontrei o vídeo que se segue (Deus Ex: The Eyeborg Documentary) e o post correspondente (A era dos ciborgues) pela mão de Vega9000. Relevante para um dos meus interesses permanentes: a fusão dos reinos (do natural e do artificial). Aconselho o visionamento: não se trata de ficção científica, mas de ciência e tecnologia a acontecer mesmo.
Lá para o fim, são mencionadas duas questões de fundo. Uma, sobre os possíveis: alguém diz que, quanto a termos verdadeiros olhos artificiais, ou membros artificiais, o grande desafio é a interface cérebro-máquina, na medida em que cada cérebro é único, e cresce com base na sua própria experiência, pelo que a solução encontrada para um caso não é aplicável a outro caso com a mesma facilidade com que se tira uma peça de um motor para a colocar noutro exemplar do mesmo modelo. Outra questão é a do que fazer com o que se tornar possível: quanto mais podemos, maiores são as responsabilidades - e nem só "o bem" está no horizonte aberto por estes desenvolvimentos.


por uma história alternativa do papão





Passo a citar.
... ainda há quem pense que o Estado gasta metade do que os "portugueses" produzem. O Estado gasta menos de 10% e distribuiu o resto, assim, a talhe de foice.

Ler aqui.

a questão dos ricos

10:55

Ilustração de Le maitre de peinture (Richaud & Makyo & Faure)

Volta e meia, a actualidade abre uma janela de oportunidade a ideias que andavam um pouco adocicadas e precisam voltar a mostrar o nervo para sabermos a quantas andamos. Assim, renovamos debates que, parecendo esquecidos, permanecem vitais. A recente "questão dos ricos" exemplifica bem tudo isso. O texto de opinião de Pedro Sousa Carvalho, subdirector do Diário Económico, na edição de hoje desse matutino, é conveniente para apreciar a questão.
A coluna, intitulada E por que não taxar os ricos, prostitutas e solteiros?, tem o propósito transparente de ridicularizar a ideia de fazer com que os muito ricos contribuam à sua medida para debelar a actual crise. Merece, por isso, um comentário.
A propaganda é, muitas vezes, toscamente simplista. Sim, muitos dos intervenientes neste debate são propagandistas: não estão apenas a defender ideias, estão a defender uma agenda, um grupo social, um tipo de interesses, uma linha política que interessa a quem paga bem. Este texto mostra isso logo na primeira frase: "De repente deu uma fúria a toda a gente de querer aumentar os impostos." O "de repente", mais do que estranho, é denunciador: será que só agora, com a onda gerada por Warren Buffett, é que percebeu que há aumentos de impostos? Quem ganha pouco mais do que o salário mínimo já tinha percebido isso antes, caramba! Quando o articulista pergunta "Estamos a aumentar os impostos para baixar a carga fiscal dos mais desfavorecidos?", até pergunta bem, porque seria bom que se fosse por aí - mas, na verdade, não perde uma linha a defender positivamente que se faça isso. Pela simples razão de que o expediente retórico é outro, e bem velho: para defender os que mais têm fala-se como se se defendesse toda a gente e como se toda a gente, independentemente da sua posição face à distribuição da riqueza, tivesse os mesmos interesses. É esse tipo de retórica enganadora que está por trás, por exemplo, da história do "dia da libertação dos impostos". Fazer de conta que as propostas para aumentar a contribuição dos muito ricos são propostas vazias, por quererem resolver um problema inexistente - é essa a retórica deste artigo - é uma manobra de pura desonestidade intelectual. Quando se tira cada vez mais a quem tem menos (e não apenas por via dos impostos), bradar que não se percebe a razão para tirar um pouco mais a quem tem mais, não é cegueira: é mesmo um sinal de proletarização do escriba.
Claro que o actual debate mostra bem as fraquezas tradicionais das esquerdas nestas questões. Abandonada a via da revolução, e a concomitante ilusão de que se pode mudar o mundo absolutamente, ficaram reformismos mais ou menos flácidos. Os reformismos flácidos, quando de repente lhes dá a vontade de corrigir pontualmente certas injustiças mais gritantes, verificam que não têm os meios apropriados para o efeito. Porquê? Porque o sistema capitalista é isso mesmo, um sistema. E um sistema é uma entidade complexa que não pode facilmente ser modificada com pequenas mexidas em certas peças deste ou daquele motor. Um sistema resiste, globalmente, assimilando alterações pontuais, de modo que tudo continue essencialmente na mesma. Se o sistema não fosse assim, não passaria de uma máquina mal enjorcada. Claro que os reformismos produziram alterações significativas nas condições de vida e no estatuto dos menos poderosos, um pouco por todo o mundo. Têm isso a seu crédito. Mas, e esse é o reverso da medalha, os reformismos não mudaram significativamente as dinâmicas essenciais do capitalismo. Se alguma coisa foi capaz de mudar o capitalismo, foram os próprios capitalistas. Por exemplo, a financeirização do capitalismo foi produzida pela própria lógica do capitalismo, de certos sectores do capitalismo apostando nas suas possibilidades intrínsecas. Essa é uma mudança significativa. Já os reformismos, quando querem mudar alguma coisa sem ferir globalmente "o capitalismo democrático", têm enormes dificuldades em apresentar propostas credíveis, que sejam mais do que cosméticas e dêem os resultados prometidos. É nesse ponto que, implicitamente, o artigo de Pedro Sousa Carvalho tem alguma razão: ele está a gozar com o carácter mais ou menos inconsequente das propostas para fazer com que os ricos também paguem a crise. Ele sabe que, no actual estado da "democracia capitalista", o sistema está blindado, de modo que os ricos escapam sempre, descontado o incómodo de andarem nos jornais a falar neles e nos seus milhões de milhões. É que, mesmo que paguem alguma coisa, a dor passará depressa e eles esperam que depois recuperarão tudo com compensações acrescidas. Pode achar-se que é um pouco pornográfico que um articulista escreva apenas para se rebolar de gozo com o facto de estar do lado dos que gostam disto - mas é isso que este articulista faz.
A certo ponto, Pedro Sousa Carvalho escreve: "O que estamos a fazer, nós que nos orgulhamos de dizer que vivemos num sistema capitalista e numa economia de mercado, é simplesmente a demonizar a riqueza e o capital." Quão longe estamos daqueles teóricos que tentavam dar uma justificação para a riqueza, mesmo a mais escandalosa: desde que a grande riqueza de alguns crie mais riqueza para todos, a riqueza dos grandes tem uma justificação social. O "orgulho capitalista", quando chega ao osso, dispensa justificações: quem pode, pode; quem não pode, aguenta. Claro: aquele tipo de explicação moral do capitalismo não é coisa que coexista facilmente na mesma cabeça com a luxúria do cinismo, bem ilustrada nesta pérola: "Aumentar ainda mais o IRS poderia ser inócuo. Os ricos têm inteligência e dinheiro suficientes para transformar salários em dividendos, capital e património." É bem certo. Há quem se rebole de gozo por isso, tal como há quem não queira desistir de pensar em como dar a volta a isso.

30.8.11

a revolta dos burocratas

A chamada “revolta dos burocratas” é um acontecimento político da história do México. Em 1968, uma centena de burocratas, que participavam, na praça Zocalo, numa manifestação a favor do governo, tiveram um gesto de rebeldia com humor: viraram as costas à tribuna oficial e começaram a balir como ovelhas.



O artista belga Francis Alÿs, que vive no México há mais de vinte anos, realizou uma instalação na mesma praça Zocalo (1997-1999), onde, em parceria com o pintor mexicano Rafael Ortega, evoca aquele acontecimento. O pequeno pedaço de vídeo que aqui se apresenta é um excerto do vídeo que era uma das componentes dessa instalação. Encontrava-se (quando foi registado, Agosto 2011) na exposição das aquisições recentes no Museu Nacional de Arte Moderna (Centro Pompidou), Paris.

29.8.11

pobres dos ricos


Leio que anda por aí gente muito inteligente muito incomodada por andarem vozes a importunar os ricos, coitados, que levam uma vida tão agitada e agora nem os deixam sossegados.
Em alguns casos, essas vozes nunca foram ouvidas preocupadas com a desconsideração social que certos políticos sistematicamente reservam para os pobres.
Compreende-se. Como essas vozes inteligentes são as mesmas que pressupõem a suprema racionalidade do egoísmo, que tomam como princípio da verdadeira natureza humana (quando não distorcida pelas mentes da esquerda), não vêem utilidade alguma em estar do lado dos pobres. É esquálida essa posição, como forma de pertença à humanidade? É, mas é o que a casa gasta (nesses casos).

(Clicar para ver maior e mais nítido.)

(A tira da Mafalda foi roubada ao o blog ou a vida.)


as tempestades


(Foto: Mike Segar/Reuters)

Irene perde intensidade ao entrar no Canadá.
Mesmo assim, pelo menos 23 pessoas já perderam a vida.

Em perfeita simetria, "o Álvaro" perdeu intensidade ao vir do Canadá.
Mesmo assim, arriscamos que estrague muitas vidas.