27.8.11

vistas do concelho de Sintra

Uma imagem do magnífico serviço de higiene urbana que o município de Sintra oferece a quem o procura.

(Talvez eu esteja enganado. Talvez o município afinal não tenha nada a ver com estas coisas. Seja como for, a fotografia foi feita hoje na aldeia de Almoçageme, ao fim da tarde. Este espectáculo não nos foi oferecido hoje pela primeira vez, nem é exclusivo deste ponto.)

quem fala assim não é gago

Lemos na edição de hoje do Expresso, quase escondida na página 30, a seguinte "carta":
Na sua última edição, o Expresso refere, em 1ª página: "Mariano Gago recebe subsídio que garante não ter pedido". Trata-se de uma afirmação errada.
A verdade é que Mariano Gago:
a) Tem direito a um subsídio de reintegração e isso foi-lhe comunicado.
b) Para receber esse subsídio, nos termos da lei, deve expressamente requerê-lo.
c) Não requereu tal subsídio e, portanto, não o vai receber. Isso mesmo declarou ao Expresso: não ter pedido nada.
Ao contrário do que foi publicado, a verdade mandaria, pois, escrever: "Mariano Gago recusa receber subsídio de reintegração a que tem direito".
Certo da melhor atenção de Vexa ao pedido de correcção que aqui formulo, subscrevo-me, com os meus melhores cumprimentos.
José Mariano Gago

O Expresso não publica nenhum comentário a esta missiva. Quer dizer: o Expresso distorceu a realidade, pintando uma situação com cores totalmente desconformes com a realidade, em prejuízo do nome de uma pessoa, em exploração rasteira do sentimento anti-políticos; o Expresso é directamente acusado de mentir aos seus leitores, pela pena da vítima dessa mentira; o Expresso, gozando miseravelmente da vantagem que lhe permite publicar a calúnia na primeira página e publicar o desmentido nos arrabaldes, nem se dá ao trabalho de pedir desculpa pela torpeza. Definitivamente, quem não tem vergonha todo o mundo é seu.

26.8.11

um argumento a favor da diversidade

Eis um argumento a favor da diversidade (de Leibniz, via Borges). Consideremos duas bibliotecas com exactamente o mesmo número de livros. Vamos supor que há um livro que é o melhor livro do mundo: o livro perfeito. Suponhamos que o livro perfeito é a Eneida, de Vergílio. Uma daquelas bibliotecas só tem exemplares da Eneida. A outra biblioteca tem um exemplar da Eneida e todos os outros livros são exemplares de livros inferiores ao livro perfeito. Qual das bibliotecas é a mais interessante?
(lembrado por G.J. Chaitin)

25.8.11

a minha política é o trabalho

Nestes dias de quase total afastamento da blogosfera, vim dar uma espreitadela e topo com um "caso" a correr sangue: um blogueiro do cinco dias, parece que com elevadas credenciais de "esquerda", alistou-se no gabinete do ministro Miguel Relvas.
Francamente, isso não me espanta. A coligação negativa existiu mesmo, foi determinante na produção da actual situação política, foi servida pela política do ódio que colocou uma certa "esquerda" e uma certa "direita" nas mesmas barricadas (nem que para isso seja preciso continuar a mentir, como se mostra aqui).
Por isso, que o camarada Figueira prossiga a sua carreira no gabinete do ministro Relvas, realmente não me parece que acrescente nada de substancialmente novo. Que o próprio se explique dizendo algo que poderia ser traduzido por "a minha política é o trabalho", só ajuda a perceber quão profundamente se instalou o espírito da coligação negativa. Que uma série de companheiros de estrada do "camarada" disparem toda a reserva de insultos que conseguem imaginar, também não surpreende: têm de fazer algum fumo a ver se distraem "as massas" de tal auto-demonstração do que valem certas "revoluções" que por aí andam.
Mas nada me divertiu mais do que a magnífica paródia de exegese bíblica a que se dedica João Valente Aguiar: «Marx casou-se com uma filha de um barão. Era filho de um rico advogado de Trier. Engels era filho de um grande capitalista alemão e, mais tarde, herdou a unidade fabril da família em Manchester. Sem o seu apoio financeiro, Marx nunca teria escrito a obra que nos explica como o capitalismo funciona, quem beneficia, quem explora, como transfere a o excedente económico produzido por uma classe (maioritária) para as mãos de outra (minoritária). Nenhum lunático se lembraria de negar que ambos não viveram absolutamente comprometidos com uma causa revolucionária e com a luta internacional da classe à qual não pertenciam sociologicamente. A posição política não é a Classificação Nacional de Profissões.» Pronto, já percebemos: Deus (a Revolução) escreve direito por linhas tortas e o camarada Figueira vai para o gabinete do Ministro Relvas, embora dentro do espírito "a minha política é o trabalho", para melhorar as suas condições de formiguinha da luta do proletariado !
Realmente, a vida parece estar difícil. Quem não sente as agruras, que atire a primeira pedra... (Ou, pura e simplesmente, há quem não tenha vergonha na cara?) 

21.8.11

Vénus Hotentote

"Hotentote" é uma espécie de insulto inventado por brancos para designar certas tribos, incluindo o povo da personagem principal do filme Vénus Negra (realizado por Abdellatif Kechiche).
Trata-se de "um filme biográfico sobre a trágica história de Saartjes Baartman, uma mulher da tribo Khoikhoi que, no início do século XIX e devido às suas características físicas específicas, deixou o sul de África para ser exibida nos salões europeus sob o nome "Venus Hotentote", com promessas vãs de uma vida dourada. Chegada à Europa, depois de viajar por toda a Inglaterra em espectáculos de aberrações, é estudada por alguns dos mais conceituados naturalistas e anatomistas da época, que usaram as suas investigações para justificarem a inferioridade dos negros, num esforço claro de legitimação do racismo e escravatura." (mais info aqui)
Não querendo ser crítico de cinema, escrevo este apontamento para sugerir aos leitores que não se deixem desmotivar pelas inúmeras críticas depreciativas que têm sido feitas a este filme. Não está em causa a história, que é extraordinária na sua veracidade e, só por si, pelo menos para quem a não conhece ainda, faz com que mereça a pena ir ao cinema. Está em causa, muito para lá disso, o objecto estético que é o filme, que tem sido tratado como uma peça menor. Discordo absolutamente dessa depreciação, pelas razões que passo a expor.
Este filme dá a ver um zoológico onde só entram humanos. Especialmente, humanos em grupo. Os espectadores londrinos, consumidores populares de espectáculos de monstruosidades, são os primeiros apanhados na voragem daquela curiosidade adoentada que hoje alimenta certos espectáculos televisivos. Mas essa fase é só para nos apanhar, desprevenidos, a olhar de alto para gente vulgar e nós a pensar que de gente vulgar só pode vir tal comportamento grupal. Depois vêm os finos salões libertinos de Paris, apanhados na mesma lógica de matilha, a querer pensar que no seu gozo imenso seria legítimo acolher a exposição de uma mulher negra como parte das suas brincadeiras, sem verem que ela não tinha escolhido tais brincadeiras (embora os libertinos parisienses mereçam, de raspão, uma desculpa, como se se tivessem apercebido, e deplorado, o excesso). Mais ainda, como último grupo de animais no zoo humano, os cientistas - que, por mor da ciência, são menos exuberantes do que o vulgo, mas não menos predadores, não menos desrespeitadores, não menos cúmplices.
Neste filme, o protagonista não é a actriz que faz de Vénus Negra. Os protagonistas são os grupos de pessoas que, na voracidade do espectáculo, perdem qualquer noção da dignidade do humano, da dignidade do Outro. Ir ao cinema ver este filme é ir a um zoo humano, a uma exposição de comportamentos de grupos humanos em certas situações. O filme, pela sua duração, documenta o quanto isso pode chegar a fatigar-nos. Mas, perante este espectáculo dos comportamentos de que somos capazes, só o cansaço nos liberta do medo do espelho. Se não fosse sermos levados a estar cansados de ver aquilo, não teríamos como libertar-nos do medo de termos estado simplesmente ao espelho.
Claro, este não é um filme de Verão para refrigerantes e pipocas.