5.5.07

A sabedoria prática dos filósofos (regra geral)

Este vídeo Monty Python é por demais conhecido dos amantes dos circuitos de vídeo da chamada Web 2. De qualquer modo, porque não podemos permitir que um leitor deste blogue desconheça este hino ao engenho, à sabedoria prática, ao sentido da realidade dos verdadeiros filósofos, aqui o deixamos.

Por favor, notem como, até numa tarefa tão complexa como um jogo de futebol, ao fim de algum tempo pelo menos um filósofo encontra uma forma efectiva de atingir um determinado resultado. Isso justifica, nesse caso, um verdadeiro "Eureka". Quem poderá, depois disto, pretender que os flósofos andam às voltas no campo sem ter a noção do que há a fazer?




4.5.07

Rigor: ainda o debate Ségolène-Sarkozy (continuação)

Para ilustrar o post anterior intitulado "Rigor: ainda o debate Ségolène-Sarkozy", acrescentamos agora um cartoon original de Marc Schober (um francês perdido por essa Europa).

Banda Desenhada, coisa de miúdos…


BLANKETS. An illustrated novel by Craig Thompson. Editado por Top Shelf Production (Marietta, Georgia, nos States) Saiu em 2003. O exemplar de que eu sou o feliz proprietário pertence à sexta impressão, de Dezembro de 2005.


Para aqueles que lamentem que os miúdos (e as miúdas) só leiam coisas menores, como BD, informo: Blankets tem quase 600 páginas, é a preto e branco, está escrito em inglês. Foi feito (escrito e desenhado) por um moço nascido em 1975 – e é, em parte, autobiográfico desse mesmo moço, o tal Craig Thompson. O que se passa nesta novela gráfica são coisas simples da vida dos adolescentes: a chatice de ter que partilhar o quarto com o irmão, as batalhas com esse mesmo irmão pelas pequenas coisas ridículas da vida que são tão importantes; as coisas estranhas que acontecem quando os adolescentes começam a acreditar em coisas sérias; as confusões dos amores juvenis e de crescer com esses amores; as coisas bonitas que não se podem descrever por palavras mas ficam lindamente num traço preto que parece simples mas é muito expressivo. Mas essas coisas simples podem dizer muito: o amor, o idealismo, a desilusão, a alienação, os medos e os pesares. Um grande livro.





3.5.07

Rigor: ainda o debate Ségolène-Sarkozy

09:36

Tinha um assunto para esclarecer, para mim mesmo, desde ontem. Do pouco que sei sobre a questão do nuclear em França, parecia-me evidente que os números dados por Sarkozy acerca do peso do nuclear no consumo energético naquele país eram claramente fantasiosos. Pude agora confirmar, de acordo com o Figaro on-line (jornal de direita, insuspeito de simpatia por Royal) os números em causa.
Ségolène falou de 17% como peso do nuclear no consumo de electricidade em França, quando o correcto apontaria para 17% como peso do nuclear no consumo de toda a energia (e não apenas da electricidade). A candidata socialista cometeu, pois, uma imprecisão. Entretanto, segundo o Figaro, o número de 50%, adiantado pelo candidato da direita, "não corresponde a nada no domínio do consumo de energia". Quer dizer: a socialista cometeu de facto uma imprecisão, enquanto o populista de direita pura e simplesmente inventou um número qualquer para não ter de admitir em directo e ao vivo que não tinha a mais pequena ideia acerca de um dado essencial de um tema de que falava como um doutor.
Lamento parecer sectário, mas a verdade é que este pecadilho acontece muito a uma certa direita: julga que a esquerda, por definição, é estúpida e ignorante e, por isso, acha-se no direito de dizer qualquer coisa como se fosse a verdade mais sublime mesmo quando está apenas a fantasiar.

“Caixas de Memória”, de Bartolomeu dos Santos, na Galeria Ratton


Inaugura a 10 de Maio, e estará patente a partir do dia seguinte e até finais de Julho, a exposição “Caixas de Memória”. Bartolomeu dos Santos (n. 1931) viu mundo e actualmente vive e trabalha em Londres, Sintra e Tavira, tem exposto e está representado em colecções por esse mundo fora. Do texto que a Galeria Ratton divulgou retomamos o que segue, especificamente sobre esta exposição.
“Caixas de Memórias”, tem um duplo sentido, denotativo e simbólico. A maior parte das obras são caixas, objectos utilitários que o artista subverte, desvia da sua finalidade, transforma em objecto “outro”, não deixando de questionar em tom provocatório o novo estatuto que adquirem: “Is this art?”

As caixas servem, por definição, para guardar objectos, ocultá-los, preservá-los. As caixas de Bartolomeu dos Santos abrem-se na transparência de uma face de vidro, revelam segredos guardados na memória. São caixas mágicas onde sorriem sereias aladas, pacientes Penélopes à espera de Ulisses. Nas imagens femininas transparece uma terna ironia de que reencontramos eco nas alusões explícitas a Fernando Pessoa e ao seu heterónimo Ricardo Reis, seres de uma realidade mítica criada pela poesia. Estas figuras remetem para a viagem, para um mar que conduz a ilhas de prazer ou a portos seguros.

A maior parte das caixas desvendam memórias menos pacificadoras, contêm uma amálgama de ruínas: pedaços de objectos devastados, calhaus, estilhaços de espelhos, fragmentos ilegíveis de um passado que desconhecemos. Outras ainda transportam-nos para oceanos de perigos e batalhas, onde se inscrevem referências históricas alusivas a guerras e naufrágios.

Não é apenas “Under the surface” que nos revela tesouros submersos, cada uma e, no seu conjunto, todas estas caixas e telas são “flashes” de uma narrativa maior, em que individual e colectivo, mito e História, ficção e realidade, morte e memória se entrelaçam em vida habitada por sonhos e pesadelos, corpos doces e destroços, barcos de viajantes-poetas e navios de guerra, muitas interrogações e algumas certezas.


EXPOSIÇÃO A VISITAR NA GALERIA RATTON, Rua Academia das Ciências, 2C, em Lisboa


(Agradecemos que a Directora da Galeria Ratton tenha autorizado a divulgação aqui destes elementos: texto supra e imagens infra.)









2.5.07

Debate presidencial Ségolène vs. Sarkozy

Acabou há momentos o debate da segunda volta das presidenciais francesas entre Ségolène Royal e Nicolas Sarkozy. Está fora de causa fazer aqui um balanço de ganhos e perdas, porque sou suspeito (prefiro a candidata socialista), mas há duas ou três pequenas notas que não posso deixar de apontar.

Em primeiro lugar, noto que Ségolène diz "quero um país de empreendedores" e Sarkozy diz (e repete) "quero um país de proprietários". Isso diz tudo da diferença entre uma certa esquerda e uma certa direita: o apelo ao ser "proprietário", como primeiro objectivo, é o apelo a uma condição, a um estatuto, a "um estado" - mas não é um apelo à acção, nem à responsabilidade perante a comunidade, nem à imaginação criadora. Uma direita que apela à aspiração de ser "proprietário" é uma direita inspirada nas classes possidentes e ociosas do antigo regime, não é sequer a direita da iniciativa económica e do gosto pelo risco. Ao contrário, a esquerda que diz querer um país de empreendedores (ou de empresários, como mais directamente devíamos traduzir a palavra francesa) é uma esquerda que promete ser capaz de ultrapassar o estatismo, o "tudo-ao-estado", o culto da dependência como solução generalizada. Aí, voto Ségolène.

Em segundo lugar, Sarkozy teve várias oportunidades de mostrar a sua falta de carácter. Especialmente, quando citou repetidas vezes o marido de Ségolène, inclusivamente questionando-a sobre se ela seguia as opiniões dele. É certo que o marido dela é também o chefe dos socialistas, mas mesmo assim o abuso dessa referência parece pouco normal quando as coisas se mantêm no plano das ideias e das atitudes que importam à função pública, não extravasando para a mesquinhez.

Em terceiro lugar, aplaudo que Ségolène tenha reivindicado a sua condição de mulher e de mãe (de quatro flhos), porque é cada vez mais urgente para a qualidade da democracia que se abram as portas do armário e as mulheres cheguem, em força e rapidamente, às mais altas responsabilidades das nossas democracias.
Há, de facto, qualquer coisa em jogo no próximo domingo em França.

A Turquia na União

09:34
O actual momento social e político na Turquia constitui uma boa oportunidade para reflectir sobre um tema fundamental: a eventual adesão desse país à União Europeia.

Sejamos breves. Muitos têm dúvidas acerca da bondade dessa adesão. Outros respondem acusando os autores dessas dúvidas de quererem que a UE seja um "clube cristão", supondo que a oposição à adesão turca é uma rejeição cultural-religiosa. Nós, é claro, não equacionamos a religião como um motivo de apreciação de qualquer adesão: basta lembrar o papel actualmente representado pela Polónia na UE, para vermos um catolicíssimo país a agir como um terrorista institucional dominado pelo egoísmo nacional, pela irresponsabilidade e pelo mais rasteiro desrespeito pelas normas da convivência. Não, a questão com a Turquia não é essa. Não é a diferença de religião que está em causa.

A actual situação turca relembra outro aspecto da questão. Mais uma vez, como ciclicamente tem acontecido desde há muitos anos, são os militares que colocam o seu peso na balança para preservar o carácter laico do estado turco e para impedir que a república seja tomada por aqueles que, mais depressa ou mais devagar, a querem transformar num "braço secular" de uma certa visão religiosa do mundo. Se não fossem os militares turcos e as suas intervenções, umas vezes mais próximas do golpe de estado e outras vezes mais aparentadas com conselhos amigáveis, a Turquia há muito que teria soçobrado ao obscurantismo de feição muçulmana. Os militares têm sido, na Turquia, o seguro de vida dos que querem viver num país relativamente "moderno".

Ora, o problema que se põe com a eventual adesão da Turquia à UE é este: não poderíamos, depois, permitir que os militares dessem golpes de estado num país membro da União! Desculpem o cinismo: a Turquia não pode aderir à União Europeia pela simples razão de que não devemos impedir os militares turcos de continuarem a exercer o seu papel moderador nessa república sempre à beira do abismo obscurantista.