03/07/14

matar um mito de vez em quando.


Jeff Madrick escreveu para o The New York Review of Books. O Dinheiro Vivo publicou por cá. Vale a pena ler tudo, até ao fim sempre com a mesma atenção.

AFINAL O ESTADO É O MAIOR INOVADOR.

"Os grandes avanços da civilização", escreveu Milton Friedman em Capitalismo e Liberdade (1962), "na arquitetura ou na pintura, ciência ou literatura, indústria ou agricultura, nunca tiveram origem no governo". Não explicou onde é que inseria a arte patrocinada pelo Estado na Atenas de Péricles, nem os Médicis que, enquanto banqueiros dominantes e dirigentes florentinos, encomendaram e financiaram tanta da arte do Renascimento. Ou a corte espanhola, que nos deu Velázquez. Ou o Manhattan Project do governo norte-americano, que originou a produção da bomba atómica, ou os Institutos Nacionais de Saúde, cujas bolsas concedidas conduziram a muitas das mais importantes inovações farmacêuticas.

Talvez pudéssemos perdoar os comentários mal informados de Friedman como uma explosão de entusiasmo ideológico, se tantos economistas e executivos não aceitassem este mito como verdadeiro. Ouvimos repetidamente de quem não se esperaria que o governo é um obstáculo às inovações que produzem crescimento. Que devia sair do caminho. Lawrence Summers disse algo do género pouco depois do fim do seu mandato como ministro das Finanças de Clinton: "Há algo nesta época que atribui um valor preponderante aos incentivos, à descentralização, ao permitir que a pequena energia económica flua de baixo para cima, em vez de optar por uma abordagem mais direta, de cima para baixo. Mais recentemente, o economista Robert Gordon afirmou-se "extremamente cético em relação ao governo" como fonte de inovação. "Esse é o papel dos empreendedores. O governo não teve nada a ver com Bill Gates, Jobs, Zuckerberg."

Felizmente, um novo livro, The Entrepreneurial State, da economista da Universidade de Sussex Mariana Mazzucato, documenta enfaticamente o quanto essas afirmações estão erradas. A investigação vai muito além da história batida sobre como a internet foi desenvolvida no Departamento de Defesa dos Estados Unidos. Por exemplo, embora Steve Jobs tenha imaginado e concebido de maneira brilhante novos produtos, a pesquisa científica de base para o iPod, iPhone e iPad deveu-se a cientistas e engenheiros apoiados pelo governo, na Europa e na América. A tecnologia touch-screen baseou-se em pesquisas feitas em laboratórios financiados pelo governo nos anos de 1960 e 1970.

Gordon designou os Institutos Nacionais de Saúde um útil "apoio" governamental ao muito mais importante trabalho das farmacêuticas. Mas Mazzucato demonstra que estes Institutos foram responsáveis por 75% dos maiores avanços conhecidos, entre 1993 e 2004.

Marcia Angell, antiga editora do The New England Journal of Medicine, descobriu que as novas entidades moleculares que tinham prioridade como possivelmente conducentes a avanços significativos no tratamento médico eram sobretudo criadas pelo governo. Como refere em The Truth About the Drug Companies (2004), apenas três dos sete medicamentos de alta prioridade em 2002 tiveram origem em farmacêuticas: o Zelnorm foi desenvolvido pela Novartis para tratar a síndrome do intestino irritável, a Gilead Sciences criou o Hepsera para a hepatite B e o Eloxatin foi criado pela Sanofi-Synthélabo para o cancro do cólon. Isto está muito longe da afirmação de que é o sector privado que realiza quase todas as inovações.

A ascensão de Silicon Valley, o centro de alta-tecnologia americano em Palo Alto, Califórnia, é supostamente o exemplo por excelência de como as ideias empreendedoras tiveram sucesso sem a direção do governo. Como Summers descreve, as novas ideias económicas "nasceram das lições da experiência de sucesso da descentralização num local como Silicon Valley". De facto, foram os contratos militares para a investigação que deram o impulso inicial às empresas do Valley e a política de defesa nacional influenciou intensamente o seu desenvolvimento. Só 27 das 100 invenções mais importantes registadas pela R&D Magazine nos anos 2000 foram feitas por uma firma, em contraponto com as criadas só pelo governo ou por uma colaboração entre entidades financiadas pelo governo. Entre desenvolvimentos recentes dos laboratórios do governo encontra-se um programa de computador para acelerar significativamente a busca e processamento de dados, e o Babel, que traduz linguagens de programação.

Apesar de todos os aplausos dedicados ao capital de risco, diz Mazzucato, as empresas privadas muitas vezes só investem depois de as inovações terem percorrido um longo caminho sob a muito mais ousada pesquisa básica e paciente investimento de capital do Estado. Cada vez menos, a pesquisa básica é feita pelas empresas. Estas concentram-se no desenvolvimento comercial de pesquisas já feitas pelo governo.

O Facebook dificilmente era lucrativo quando entrou na Bolsa, em 2012, a um preço por ação que o fez valer mais de 100 mil milhões de dólares. No princípio deste ano, comprou, por 19 mil milhões, o serviço de mensagens WhatsApp, que chega aos 450 milhões de pessoas e tem apenas 55 empregados. A concorrência pode aniquilar a vantagem da WhatsApp. Ainda nem é claro se o próprio Facebook conseguirá manter a sua lucratividade. Só podemos imaginar os benefícios se esse dinheiro tivesse sido gasto mais cedo, no ciclo básico da pesquisa.

Investigação governamental e capital das empresas são duas condições necessárias ao avanço da inovação. Mas a resistência ao reconhecimento da contribuição fundamental do governo existe. Tornou-se especialmente vigorosa quando o projeto de energia solar estatal de Obama, o Solyndra, ao qual o governo emprestara mais de 500 milhões de dólares, foi à falência. A empresa foi aniquilada quando o alto preço do silicone, em que se baseava uma tecnologia alternativa ao Solyndra, caiu a pique, permitindo à concorrência praticar preços mais baixos do que a start-up americana. Mas os críticos viram o fracasso como prova de que o governo não podia investir nesses empreendimentos. "Os governos sempre foram desastrados a "escolher vencedores", e é provável que se tornem ainda mais, à medida que legiões de empreendedores e curiosos trocam desenhos online", escreveu a The Economist em 2012. Porém, incluindo o Solyndra, só 2% dos projetos parcialmente financiados pelo governo federal faliram.

O exemplo mais pertinente da importância do Estado é o quanto Steve Jobs estava dependente dele. Depois do declício dos laptops, nos anos 1990, o iPod (2001), que destronou o Sony Walkman, e os sistemas touch-screen do iPhone e iPad (2007) transformaram a empresa na força motriz eletrónica dos nossos tempos. A vendas quase quintuplicaram e o valor em bolsa subiu de cerca de 100 dólares para mais de 700 por ação. "Embora os produtos devam o design e integração hábil ao génio de Jobs", escreve Mazzucato, "praticamente toda a tecnologia avançada do iPod, iPhone e iPad é uma realização dos esforços de investigação e apoio financeiro do governo".

Uma importante descoberta realizada com fundos do governo, conhecida como magnetorresistência gigante, que deu aos seus dois inventores europeus um Prémio Nobel da Física, é um bom exemplo desse apoio. O processo aumenta a capacidade de armazenamento dos computadores e aparelhos eletrónicos. Foi o que tornou o iPod possível. Outros desenvolvimentos importantes da Apple tiveram também as suas "raízes" na investigação federal, entre eles o sistema de posicionamento global do iPhone e o Siri, o assistente pessoal ativado pela voz.

A Apple é apenas uma de muitas. No princípio dos anos 1980, o governo federal constituiu o muitas vezes esquecido Sematech, o consórcio Semiconductor Manufacturing Technology, uma parceria de empresas de semicondutores americana concebida para combater a crescente liderança japonesa nas tecnologias chip. Os Estados Unidos forneceram 100 milhões de dólares por ano para incentivar as empresas privadas a unir-se ao esforço, incluindo a gigante da inovação Intel. Praticamente todos os especialistas reconheceram que o Sematech restabelecia a competitividade dos EUA na área dos processadores e chips de memória, levando a uma enorme redução de custos e a uma miniaturização radical. Os minúsculos circuitos com enormes memórias que daí resultaram são fundamentais à maioria dos produtos eletrónicos atuais, explorados por empresas como a Microsoft e a Apple.

Mazzucato não diz que os empresários e o capital de risco não tenham feito contribuições fundamentais, mas sim que são, de modo geral, mais avessos ao risco que os investigadores do governo. O gestor de capital de risco William Janeway reconhece as contribuições fundamentais do governo em Doing Capitalism in the Innovation Economy. "O sucesso em "libertar" a economia de mercado da intrusão do Estado tem consequências nefastas para a Economia da Inovação."

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