11/03/14

a caça ao homem dá desconto no passe ?



A Carris e o Metro (os meus meios de transporte mais frequentes quando não posso ir a pé) lançaram uma campanha onde, somados todos os materiais que fui vendo andando por aí , o apelo parece ser a que nós, passageiros, nos tornemos vigilantes dos outros passageiros.

A reacção mais imediata é "lá estão estes tipos a quererem que sejamos polícias uns dos outros". Em geral, tendo a não alinhar nessa reacção, por uma razão muito simples: efectivamente, quem não paga por um bem comum onera todos os que pagam e, tendencialmente, coloca em risco a própria sustentabilidade desse bem. Temos muita tendência a escandalizar-nos com qualquer iniciativa de controlo distribuído (pressão social, cidadã, contra o uso fora das regras), mas temos demasiada tolerância face aos espertos que beneficiam individualmente da possibilidade, que oferecem a si próprios, de decidirem por suas próprias mãos o que é ou não é justo. Por exemplo, é popular ridicularizar a "factura da sorte", mas é pouco popular pedir disciplinadamente factura para diminuir a fuga ao fisco e a consequente sobrecarga dos que não podem fugir. Não compro o argumento de que quem não paga é quem não pode pagar: porque sei que, em muitos casos, isso não é verdade; porque não se resolve o problema das más políticas de rendimento e/ou de protecção social autorizando os pobres a roubar nos serviços públicos. Isso só poderia servir para agravar a tendência para criminalizar a pobreza, algo que já está subjacente a uma certa direita que aprecia a lei da selva.

Contudo, esta campanha é chocante. Por quê? Desde logo porque ela não apela a uma atitude de responsabilidade partilhada por um bem público: se eles querem privatizar os transportes, que lógica teria pedirem compreensão do valor de um bem público? Segundo, porque apela ao espírito pidesco mais básico: aqueles olhos são o quê? Os olhos do Big Brother montados nas nossas cabeças? Estão à espera de que façamos o quê: que demos pauladas nas pessoas que não validam os títulos de transporte? Que chamemos a polícia? Querem mesmo desencadear perseguições pelos corredores do Metro, onde passageiros cumpridores atacam passageiros sem bilhete? Quererão obrigar os prevaricadores a usar estrelas de David no braço para serem mais facilmente reconhecidos no futuro e mais prontamente controlados? O apelo que transparece dos materias espalhados por todo o lado é um apelo selvagem.

Qual a alternativa? A alternativa não é pontual, nem imediata. A cultura de protecção do bem público tem de ser promovida, em primeiro lugar, respeitando o próprio bem público. Quem anda sempre a dizer mal do que é público - muitos desses tomaram mesmo a direcção das empresas responsáveis por aquilo que detestam por ideologia - não tem legitimidade nenhuma para apelar ao civismo. A cultura de responsabilidade e a luta de cidadania contra o oportunismo não se pode confundir com uma campanha de caça ao ladrão. Se o passageiro sente que os carrascos da própria ideia de serviço público nos querem transformar em bufos e vigilantes, o que podemos sentir - pelo menos foi o que eu senti - é repulsa. Este é um daqueles casos em que a legalidade fica manca sem legitimidade.


1 comentário:

Jaime Santos disse...

A situação é mais caricata ainda. Por vezes, aqueles que deveriam ter por missão a manutenção da segurança furtam-se a esse serviço. Quando eu recentemente denunciei a um segurança do Metro do Porto que uma Senhora se encontrava numa zona dentro do perímetro de segurança da linha (numa encosta ajardinada, em dia de chuva), ele perguntou-me se eu a tinha interpelado, ao que eu respondi que não é essa a minha função e sim a dele. A contragosto, lá foi tratar do problema... Ou seja, cabe ao utente fazer o papel de polícia, algo para o qual este nem está aliás preparado... Não me espantaria se este tipo de campanhas levar a um aumento da conflitualidade dentro dos meios de transporte público... A manutenção da segurança e a fiscalização devem ser deixadas a profissionais...