21/01/13

cortar na ciência, mais um episódio: a B-On em causa.


Por razões que não vou aqui agora divulgar, chegou-me (mais) uma informação preocupante acerca da forma como está a ser tratada a investigação em Portugal. Diz respeito, desta vez, à b-on, a Biblioteca do Conhecimento Online.

A b-on tornou-se uma ferramenta fundamental para investigar em Portugal: permite o acesso ilimitado e permanente nas instituições de investigação e do ensino superior aos textos integrais de mais de 55.600 publicações científicas internacionais (20.000 publicações periódicas, 21.700 e-books, 13.800 títulos de proceedings e transactions) de 18 editoras internacionais.
Despesismo? Nem por isso. Com a constituição da b-on, bem como com a realização de assinaturas com as editoras internacionais à escala nacional, conseguiram-se economias assinaláveis com uma redução de custos totais a nível nacional para valores entre metade e um terço do que seriam sem essa mesma b-on.
Milho a pardais? Também não. A comunidade científica nacional utiliza intensivamente este recurso imprescindível para a actividade científica diária, tendo realizado 7,7 milhões de downloads de publicações em 2011.

Ora, o que fiquei a saber hoje é uma machadada nesta ferramenta de trabalho: como consequência de uma renegociação dos contratos, os materiais publicados antes de 2005 deixam de estar disponíveis. A informação que me chegou não diz respeito a todas as áreas científicas, mas "ataca" uma das áreas científicas mais "pesadas" entre nós, pelo que é de esperar que outras não sejam menos afectadas quanto à extensão da tesourada. Não é (ainda?) a completa destruição desta ferramenta, mas é uma fortíssima limitação: não se vive só de novidades na investigação, sabiam?

Um professor e investigador, perante esta surpresa (tão brilhante novidade não foi anunciada publicamente, tanto quanto sei; foi descoberta, porque as circunstâncias da vida levaram a que a questão fosse colocada), comentou: se calhar vamos voltar ao tempo das fotocópias em papel, a fazer nas bibliotecas de campus físicos... Lembro-me do tempo em que, quando íamos a certas cidades estrangeiras, se faziam massivas compras de livros que nunca chegavam cá no circuito comercial normal (ou chegavam a preços proibitivos) e quando se visitavam certas universidades "lá fora" se faziam carradas de fotocópias, porque por cá as prateleiras das bibliotecas quase só tinham antiguidades. Lembro-me da sensação que tive quando, no início da minha estadia na Faculdade de Filosofia da Universidade de Louvain-la-Neuve, entrei pela primeira vez na biblioteca da Faculdade: volumes e volumes, de livros e revistas, que apenas tinha visto em referências bibliográficas, estavam ali numa espécie de orgia de disponibilidade para quem quisesse estudar. Pelos vistos tenho de voltar lá e renovar o meu cartão de leitor...

Espero, ansiosamente, a comunicação oficial de que tudo isto é boato, interpretação deficiente do que foi dito, uma notícia infundada acerca de mais um estrangulamento da investigação em Portugal. Por favor, um desmentido, precisa-se.

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