20.10.15

um antigo partido social-democrata e um antigo partido democrata-cristão.

17:54


1. O processo de consultas que o Partido Socialista promoveu junto de todos os partidos com representação parlamentar, visando apurar as condições de governabilidade existentes no novo quadro político, acabou por conduzir a uma aproximação com os partidos à nossa esquerda e confirmar um afastamento dos partidos à nossa direita. A meu ver, isso resulta, por um lado, dos compromissos que o PS assumiu publicamente antes das eleições e, por outro lado, da insistência do PSD e do CDS em tentarem fazer do PS uma muleta da direita. E, claro, dos movimentos que fizeram PCP e BE. Passos Coelho queixou-se, em carta a António Costa, de que o PS tinha feitos propostas (para um eventual entendimento) com base no nosso programa eleitoral – mas, pergunto: poderia ser de outro modo? O mandato dos deputados não será, basicamente, o de defenderem o programa que apresentaram aos eleitores? O PSD e o CDS mostraram não ter percebido os resultados das eleições de 4 de Outubro, pensando que bastava conversarem entre si para decidir o rumo da governação. Passaram ao lado deste facto simples: perderam a maioria no país e perderam a maioria no parlamento, tendo, assim, perdido a base mínima para a sua postura arrogante.

2. O PS está, pois, à procura de uma maioria à esquerda para viabilizar um governo estável, sólido e duradouro. Isso é importante para o PS, já que nos comprometemos a não bloquear um governo da direita se não houver uma alternativa. Parece-nos prejudicial para o país que esta coligação de direita continue a governar e, por isso, temos o dever de procurar uma alternativa. É o que estamos a fazer – e ninguém deveria surpreender-se com isto. Nunca o voto do PS viabilizou a investidura de um governo liderado pela direita; nunca houve um governo minoritário (de esquerda ou de direita) sem que o respectivo campo político fosse maioritário no Parlamento. Porque deveria desta vez ser diferente? Haveria o PS de deixar de ser o partido de esquerda que é? Haveria o PS de tornar-se a “ala esquerda” da direita? Isso, sim, seria alienar a nossa memória e a nossa história. Avançar para uma democracia completa, onde a governação pode envolver qualquer um dos partidos escolhidos pelos portugueses para o parlamento, é apenas mais uma contribuição desta esquerda democrática que somos para o aprofundamento da democracia portuguesa. E esse aprofundamento pode ser importante para combater o crescente afastamento dos portugueses face à política.

3. Entretanto, o debate público pós-eleitoral tornou evidente algo que talvez ainda não fosse claro para todos. Não são só as reacções destemperadas à hipótese de participação do PCP e do BE no governo ou na maioria parlamentar; não é apenas a qualificação dessa solução constitucional em termos excessivos e inaceitáveis, inclusivamente dando-a como um golpe de Estado; não se trata só do regresso de uma linguagem quente, ao estilo mais extremo do que se ouviu no PREC, à boca de políticos, articulistas e comentadores de direita, tratando uma maioria parlamentar conforme às regras como se ela fosse uma “usurpação” dos “direitos adquiridos” da Coligação PàF. Não é só isso, porque isso nunca deixou de existir em certos círculos ultraminoritários, designadamente nas páginas de algum jornal de nicho. O que é novo é que esse discurso radical, extremista, incendiário, provocador, passou a ser um discurso acolhido nas hostes da direita mais oficial. Aquele discurso extremista da direita, um discurso do tempo da Guerra Fria, é agora um discurso que muita direita “oficial” passou a admitir como boa táctica política. Ora, esse retrocesso é preocupante. Porque, não me sendo indiferente a existência de uma direita democrática e civilizada (ela é necessária), temos de preocupar-nos com este fenómeno recente: uma certa direita extrema, que tenta excluir da democracia representativa certas forças políticas de esquerda representadas no parlamento, essa direita radical alojou-se nas hostes da direita democrática e torna-se aí cada vez mais preponderante. Não há ninguém na direita que entenda isto e levante a sua voz contra a colonização de um antigo partido social-democrata e de um antigo partido democrata-cristão pelas vozes e pelas tácticas da direita extremista e radical?


18.10.15

ainda bem que não fui à Cornucópia este sábado.


(foto de Luís Santos)

Ontem, sábado, foi a última representação da actual série de espectáculos em que a companhia Teatro da Cornucópia apresentava na sua casa, o Teatro do Bairro Alto, o Hamlet de Shakespeare, encenado por Cintra, usando a tradução de Sophia. Havia a habitual conversa com o público e eu queria ir, mas não foi possível. Estava triste por não ter podido ir. Afinal, ainda bem que não fui.

Leio na imprensa que, nessa ocasião, Luís Miguel Cintra anunciou a despedida dos palcos no palco da sua vida: a Cornucópia.

Ainda bem que não fui, porque não sei bem como teria recebido o choque. Perder um mundo é, sempre, um grande choque. Limito-me, tentando não ser lamechas, a assinalar que Cintra nos deu muito a todos. E a mim me deu uma das experiências mais sublimes que tive em toda a minha vida.

Para não desgastar demasiado as palavras, deixo apenas um poema que lhe dediquei em 2014.



«o mundo é um brinquedo sem dono»



(para o Luis Miguel Cintra, com Lorca ao fundo)


não é o dono, Federico, que complica:
que as cheias devastem as habitações
enquanto corpos secos povoam as terras,
que os animais do campo escrevam os contos edificantes
esquecidos pelos bichos das repúblicas,
que deve isso ao dono ou à sua ausência?
quem viu, Federico, que a ferida estava no brinquedo,
no próprio brincar sem folguedo, foi o Luis Miguel,
com peças várias da tua herança,
esquecendo por momentos a teologia do dono,
arriscando mesmo um certo panteísmo
para mostrar a diversidade dos jeitos,
a pluralidade dos modos em que somos
brinquedos quebrados, sim,
mas tão-somente das mãos e juízos uns dos outros.

é terrível a vida simples:
o mundo é um brinquedo sem o conforto do dono,
mas contigo nós atravessámos a cidade como navios do deserto
transportando a água que calou por momentos os calvários dentro de nós.



(9 de Março de 2014, dia das últimas representações de “Ilusão”, no Teatro da Cornucópia.)


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Mais sobre o projecto: http://maquinaespeculativa.blogspot.pt/2014/02/uma-ilusao-na-cornucopia.html.
Mais sobre o espectáculo: http://maquinaespeculativa.blogspot.pt/2014/02/ilusao-na-cornucopia-varios-lorcas-um.html)