15.8.14

as moções às primárias do PS.


Se António Costa tivesse apresentado no processo das primárias, como Moção Política sobre as Grandes Opções de Governo, um texto tão pobre como aquele que apresentou António José Seguro (pode ler-se aqui), é certo que se levantaria um clamor de comentadores e jornalistas a bramar contra o vazio de ideias do candidato a Mobilizar Portugal.
Mas não: António José Seguro força primárias no PS para candidato a primeiro-ministro e depois oferece como moção uma "introdução" de 6 páginas vagas e populistas, numa demonstração de falta de respeito pelo PS e pelo país, e os comentadores acham normal.

Claro, há uma espécie de desculpa (esfarrapada, mas desculpa) para isso: Seguro diz que aquelas esquálidas seis páginas são apenas a "introdução" do Contrato de Confiança, que o PS já apresentara em Maio passado. Ninguém lhe pergunta se o candidato Seguro tem direito a apropriar-se de um documento do Partido no seu todo, transformando-o num documento de facção. Ninguém lhe pergunta, aparentemente, pela razão de haver poucos comentadores que se preocupam com essa coisa das regras da democracia, tipo "não abuses dos lugares institucionais para as tuas candidaturas". E nós temos de nos conformar?

De qualquer modo, como este é o país que temos - e uma batalha sempre em aberto é democratizar a democracia - temos de avançar. E, então, perguntamos: mas podiam, pelo menos, fazer o trabalho de comparar os textos, não é? Já percebemos que a moção de Seguro não pode ser comparada com a moção de Costa (se alguém duvida, leia a de Costa aqui). Mas, se ele diz que o Contrato de Confiança, incluindo as tais 80 medidas, são a sua moção - podiam, pelo menos, comparar esse documento com a moção de Costa. Dá trabalho? Talvez dê - mas era capaz de ser revelador. Revelador de que andar por aí sugerir que "é tudo mais ou menos igual" é uma conversa desleixada.

Para entusiasmar quem de direito a fazer o trabalho de casa, deixo hoje um exemplo: a lusofonia e a CPLP.

As últimas 5 das "famosas" 80 medidas (que agora Seguro tomou para si) são um elenco de "opções geoestratégicas" para Portugal. Somos membros das Nações Unidas, membros da União Europeia e da Zona Euro, membros da CPLP, país aberto ao mundo, membros da NATO. Não se vê muito bem onde está a novidade de tais "medidas", mas, enfim... Vejamos a "medida 78", que reza assim:
« Membro da CPLP promovendo um aprofundamento e dinamização da lusofonia como espaço de excelência para a afirmação da Língua Portuguesa e potenciador de trocas comerciais entre Estados iguais, em quatro continentes, que mantêm entre si relações estreitas de amizade e cooperação.»

Para comparação, eis o que se diz na moção Mobilizar Portugal, apresentada por António Costa, num dos dois momento onde se fala de lusofonia:

«A lusofonia constitui um legado histórico com grande significado e enorme alcance futuro. A sua valorização passa pela língua portuguesa, por saber mobilizar esse extraordinário recurso que é a rede da diáspora das comunidades portuguesas no Mundo. Mas não se esgota aí. Passa também pela construção em comum de novas parcerias com espaços e países onde se fala português que possam ser ganhadoras para todos os participantes, especialmente com base e ou a partir dos países da CPLP. Um novo impulso para este espaço comum deve assentar no desenvolvimento social e económico; na partilha de conhecimento com vista à participação plena na sociedade global; na cooperação sobre o mar; na construção de comunidades na ciência e na educação; num espaço de intercâmbio de pessoas e de partilha de cidadania, constante de uma carta de cidadania lusófona, com igualdade de direitos, garantia de mobilidade, incluindo as condições de fixação de residência e de prestação de trabalho, e o reconhecimento das qualificações profissionais e de portabilidade de direitos adquiridos.»

Deixo à inteligência de quem lê a comparação.

Face ao momento a que chegámos na CPLP, com Portugal encurralado ao ponto de ter de aceitar um país onde nem o presidente fala escorreitamente o português, precisamos de tomar iniciativas para tirar o país desse beco diplomático e político. Temos de avançar com outra visão da CPLP, baseada numa compreensão realista do que podemos ser nesse espaço, deixando de uma vez por todas a ilusão de que podemos comportar-nos como a ex-potência colonial. Não vamos conseguir fazer isso apenas repetindo que é bela a língua portuguesa (embora seja verdade), nem repetindo vagas referências à dimensão comercial das relações. A moção Mobilizar Portugal apresenta novas ideias para retomar essa questão em novas bases, assumindo aquilo que podem ser trunfos nossos na CPLP, aqueles trunfos que podem fazer evoluira a situação por interessarem aos outros países.

O exemplo está dado. Não custaria muito, a quem supostamente tem o trabalho de fazer estas comparações, fazer o seu trabalho. Mas, claro, Agosto é um mês que convida a conversas superficiais e comparar textos é uma trabalheira.



14.8.14

a moção de Seguro às primárias.

17:20

António José Seguro forçou primárias no PS e agora oferece como moção uma "introdução" de 6 páginas vagas. É falta de respeito pelo PS e pelo país.

Acho que vale a pena comparar as moções de António Costa e de António José Seguro às primárias do PS.

A de Costa encontra-se aqui: http://www.mobilizarportugal.pt/s/Moco-Politica-MOBILIZAR-PORTUGAL-2f89.pdf

A de Seguro encontra-se aqui: http://www.seguro2015.com/wp-content/uploads/2014/08/mocaoAJS.pdf

Assim para começar, ainda chocado pela leitura das tais seis páginas, que prometo analisar mais tarde, anoto que a moção de AJS está na primeira pessoa do singular: EU isto, EU aquilo, EU aqueloutro. Também isso não é novidade.

13.8.14

Em defesa dos Artistas Unidos.

15:23

A Universidade de Lisboa deixa-me triste.

Transcrevo o depoimento de Luis Miguel Cintra, hoje no Público.


Junto-me ao grupo de colegas, amigos e espectadores que, contra a decisão da Reitoria da Universidade de Lisboa, sem qualquer espécie de hesitação, apoiam a permanência dos Artistas Unidos no Teatro da Politécnica, e se escandalizam se esse Grupo de Teatro se vir forçado a abandonar aquele espaço.

Nem outra coisa seria de esperar de mim, ainda à frente da companhia do Teatro da Cornucópia, desde há muito com Cristina Reis, mas que foi fundada em 1973 com o fundador e director dos Artistas Unidos, Jorge Silva Melo. Creio que ambos temos a noção de que o trabalho que cada um de nós tem desenvolvido ao longo da vida à frente de cada uma das companhias, com as desejáveis e conhecidas divergências estéticas que as separam, assenta sobre critérios semelhantes e que elas se completam na função que têm exercido no teatro português. E será por certo com alguma curiosidade que tomarei conhecimento da descoberta pela Universidade de Lisboa de um melhor destino, de um ponto de vista cultural, para aquele simpático espaço a que os Artistas têm conseguido dar vida.

Só posso admitir que quem decidir, agirá dentro da legalidade, mas sei que, como infelizmente se vai tornando regra, cada vez mais se confunde legalidade com liberdade. Se a decisão for no sentido de se impedir que os Artistas lá continuem a trabalhar, será mais um acto de vandalismo da parte de uma sociedade que deixou de acreditar em seja o que for, e sobretudo naquilo que mais a humanizaria: uma prática cultural que tem vindo a formar gerações e a generosamente contribuir para uma responsabilização pública. Aqui fica a minha solidariedade.

Luis Miguel Cintra

Ler ainda: Carta aberta em defesa do projecto cultural dos Artistas Unidos