28.2.14

As sugestôes do João Miguel.


[o que é isto?]



Para conseguirmos faire marcher le devoir et l'amour. (Carmen, 2º acto)


Constou-me que o OndaJazz vai fechar! Último concerto sexta-feira, dia 28. Fui muito feliz no OndaJazz! Um sítio bonito, dirigido com inteligência e simpatia donde resultava uma programação e um ambiente excelentes. Cada vez enfrento mais contrariedades: a extorsão fiscal, os serviços que se degradam, o saque e a vacuidade dos políticos, o desaparecimento de pessoas e sítios que gosto…

A Gulbenkian apresenta, no Grande Auditório, um novo ciclo de concertos baseado nas grandes obras do repertório clássico a um preço reduzido e com passes especiais para famílias. O que me parece bizarro é que tenha o mesmo nome de outro ciclo de concertos que a mesma instituição promove há muito tempo e também no primeiro domingo de cada mês. Mais uma guerrinha de egos maiores que o génio? Até onde (ou quando) a instituição vai aguentar estas ineficiências?

Tive a informação que a exposição Matemática do Planeta Terra, que devia ter encerrado no final de 2013, se mantém (não se sabe até quando… ) no Campus da F. Ciências Tecnologia, U. Nova, Caparica, e que tem uma dimensão gigantesca pois representa o sistema solar numa escala em que o sol tem o diâmetro de 1 metro!

  • Até dia 28, no El Corte Inglés (Ponto de Informação, Piso 0), inscrições (grátis) para o Curso de História da Música, por Teresa Castanheira (6 sessões, às 15h30 de terças e quintas, com início a 3 de Março) (www.elcorteingles.pt)
  • Até dia 28, no El Corte Inglés (Ponto de Informação, Piso 0), inscrições (grátis) para o Curso de Ideias Religiosas, por José Manuel Anes (9 sessões, às 15h30 de segundas e quartas, com início a 10 de Março) (www.elcorteingles.pt)
  • Abertas inscrições para o curso (grátis) Ciclo Pe(n)sar o Português (6 sessões; quartas, de 5 de Março a 9 de Abril; das 18h00 às 19h00; no CCB; inscrições: inscricoes.ciclos.humanidades@ccb.pt)
  • Abertas inscrições para a Oficina de Leitura e Escrita Criativa Asas Sobre a América, por Filipa Melo (10 sessões - Walt Whitman, Ezra Pound, Philip Roth, Raymond Chandler, Edgar Allan Poe, William Faulkner, Emily Dickson, Carson McCullers, Flannery O’Connor e Saul Below; segundas, às 18h00, a partir de 10 de Março; na Fundação Luso-Americana, Rua do Sacramento à Lapa, nº21; 50€)
  • Até dia 3 de Março, no El Corte Inglés (Ponto de Informação, Piso 0), inscrições (grátis) para o Curso de História do Cinema, por António Pedro Vasconcelos (11 sessões, às 19h00 de segundas e quartas, com início a 17 de Março) (www.elcorteingles.pt)
  • Até dia 4 de Março, no El Corte Inglés (Ponto de Informação, Piso 0), inscrições (grátis) para o Curso de História de Portugal, por Lourenço Pereira Coutinho (10 sessões, às 19h00 de terças e quintas, com início a 18 de Março) (www.elcorteingles.pt)
  • Até dia 9 de Março, Lisboa Restaurant Week: http://www.restaurantweek.pt/

Sexta-feira, dia 28

  • às 13h30, na Mezzo, Richard Galliano: Homenagem a Nino Rota (86’)
  • às 15h50, na Mezzo, Salomé (Richard Strauss; MET, com Karita Mattila; 105’)
  • às 17h00, no CAM (Centro Arte Moderna da Gulbenkian), À Conversa com a curadora: Sara Antónia Matos e o artista João Tabarra (5€)
  • às 19h00, no El Corte Inglés, sessão do ciclo de conferências e debates Pensar Portugal: Parcerias Público Privadas, com o autor Joaquim Miranda Sarmento (0€, inscrição prévia em: Ponto de Informação, Piso 0, ou relacoespublicas@elcorteingles.pt)
  • às 21h30, no Grande Auditório da Gulbenkian, Solistas da Orquestra Gulbenkian (Johann Christian Bach, Wolfgang Amadeus Mozart, Keith Statham e Arthur Foote) (0€ - o recomeço de uma iniciativa simpática e a oportunidade de ir «ver como ficou» o Grande Auditório)
  • às 21h30, na Cinemateca, antestreia: IN MEDIAS RES - no meio das coisas (o pensamento e a obra do arquiteto Manuel Tainha), de Luciana Fina "
  • às 21h30, no Centro Cultural de Cascais, Tributo às Big Bands de Jazz - Concerto Miller & Goodman na 'Swing Era', pela Orquestra Jorge Costa Pinto (senhas a partir das 20h30)
  • às 21h30, no Café Saudade, Sintra, Leituras no Café Saudade (tertúlia literária): O Livro de Cesário Verde, dinamizadas por Vítor Pena Viçoso (0€)
  • às 22h30, no Teatro do Bairro (Rua Luz Soriano, 63), Red Trio (3€)
  • às 23h00, na Fábrica Braço de Prata, Júlio Resende convida Sofia Vitória, às 24h00, Orquestra Libertina de Lisboa (5€)
  • às 24h00, na RTP2, Manuel Valadares (53’)
  • às 25h53, na TV5, Le Goût de l'Amour (documentário, 55’)

Sábado, dia 1

  • Na compra do jornal Público pode adquirir (por mais 6,95€) um livro com CD dedicados a Adriano Correia de Oliveira
  • às 12h10, na TSF, Encontros com o Património: O tempo resgatado ao mar. Exposição no Museu Nacional de Arqueologia
  • às 12h39, na RTP2, A Verde e a Cores - episódio 5: A concepção de jardins e sua manutenção (reposição; 27’)
  • às 13h30, 15h30, 17h30, 19h30 e 21h30, no Espaço Nimas, ciclo Ingmar Bergman: Mónica e o Desejo (6€)
  • às 15h00, no Auditório Municipal Maestro César Batalha, Galerias Alto da Barra, Oeiras, colóquio de encerramento do curso Azulejos no Mundo – da Antiguidade ao Modernismo, com José Meco e João Castel-Branco Pereira (0€)
  • às 18h00, no Auditório Municipal Ruy de Carvalho, em Carnaxide, Um Encontro de Prodígios (F. Mendelssohn, N. Paganini e W. A. Mozart), com Mone Hatorri (violino) e a Orquestra de Câmara de Cascais e Oeiras dirigidos por Nikolay Lalov (3€, reservas 214408565)
  • às 18h00, na Casa da Liberdade e na Perve Galeria, finissage da exposição Registo(s) de Viver, com Alberto Pimenta
  • às 23h00, no antigo Casino das Caldas (da Rainha), Baile de Fantasia, com Quinteto Casablanca (=Tó Freitas & Amigos)
  • às 25h05, na RTP2, Palcos: Eliane Elias (mais uma ajudinha a um próximo concerto do CCB…; 57’)

Domingo, dia 2

  • às 10h15, na ARTE, Metropolis - Belfast (43’)
  • às 11h00 e às 16h00, no Grande Auditório da Gulbenkian, Concerto de Domingo (Mendelssohn: concerto para violino e orquestra nº2; Beethoven: sinfonia nº 5), com Birgit Kolar (violino) e Orquestra Gulbenkian (10€)
  • às 11h30, na ARTE, Philosophie: Animal (29’)
  • às 12h00, no Átrio da Biblioteca do Museu Gulbenkian, Concerto de Domingo: Os Czares e o Oriente (Fauré, Freitas-Branco, Saint- Saëns, Szymanowsky, Rachmaninoff), com Eduarda Melo (soprano) e Luís Rodrigues (barítono) (0€)
  • às 12h00, Domingos com Arte no CAM (Centro Arte Moderna da Gulbenkian), Olhos nos olhos: uma introdução ao trabalho de João Tabarra (2€)
  • às 13h03, na TV5, Secrets d'histoire: Frédéric II (93‘)
  • às 13h30, 15h30, 17h30, 19h30 e 21h30, no Espaço Nimas, ciclo Ingmar Bergman: Sonata de Outono (6€)
  • às 15h00, na Igreja de São Roque, visita guiada: Tectos Pintados (0€; inscrição prévia pelo 213235233/824)
  • às 16h00, na Basílica do Palácio Nacional de Mafra, concerto a seis órgãos (3 € ?, reservas: 261 817 550)
  • às 16h00, na Mezzo, Orfeo e Euridice, de Gluck (2009; MET; James Levine (maestro), Mark Morris (encenador), Stephanie Blythe (Orfeo), Danielle de Niese (Euridice), Heidi Grant Murphy (Amore); 100’)
  • às 17h40, na Mezzo, Retrato de Anna Netrebko -. The Woman And The Voice. (52’)
  • às 18h00, no Auditório Senhora da Boa Nova, Galiza – Estoril, Um Encontro de Prodígios (F. Mendelssohn, N. Paganini e W. A. Mozart), com Mone Hatorri (violino) e a Orquestra de Câmara de Cascais e Oeiras dirigidos por Nikolay Lalov (5€, reservas 91 248 54 64)
  • às 19h23, na TV5, Balades Urbaines: Tricoteca, Barcelona (7‘)
  • às 21h14, na RTP2, Agora
  • às 22h13, na RTP2, estreia da série de 12 episódios: A Odisseia de Homero

Segunda-feira, dia 3

  • às 13h30, 15h30, 17h30, 19h30 e 21h30, no Espaço Nimas, ciclo Ingmar Bergman: O Olho do Diabo (6€)
  • às 21h25, na RTP2, estreia da série: Visita Guiada – episódio 1/13: Sé de Braga (25’)
  • às 21h30, na Casa da Achada, O exército das sombras, de Jean-Pierre Melville. (0€)
  • às 22h30, no B.Leza, Cais da Ribeira Nova, Armazém B, Bonga (10€)

Terça-feira, dia 4 – Dia de Carnaval (salvo para o seminarista de Massamá)

  • às 6h45, na ARTE, Vues Sur la Plage: La Côte d'Azur (43’)
  • das 13h00 às 23h30, na Zona Franca dos Anjos, Rua de Moçambique nº 42 , Festa de Carnaval Nordestino (0 €; feijoada 6€)
  • às 13h30, 15h30, 17h30, 19h30 e 21h30, no Espaço Nimas, ciclo Ingmar Bergman: O Silêncio (6€)
  • às 15h00, no Museu Gulbenkian, Os Lugares da Arte: O universo do livro (5€)
  • às 18h30, na Casa Fernando Pessoa, Livros Difíceis: Hamlet, de William Shakespeare, por António Feijó (0€)

Quarta-feira, dia 5

  • às 11h40, na Mezzo, Einstein on the Beach, de Philip Glass (300’)
  • às 13h15, na Igreja de São Roque, visita guiada: Tectos Pintados (0€; inscrição prévia pelo 213235233/824)
  • às 14h00, 17h30 e 21h00, no Espaço Nimas, ciclo Ingmar Bergman: Fanny e Alexandre (6€)
  • às 19h00, na Cinemateca, Madam Satan, de C. B. DeMille
  • às 19h00, no Restaurante do (7º piso do) El Corte Inglés, Sabores do Âmbito - Provas de vinhos: Grandes tintos do Douro, com Luís Ramos Lopes (0€, inscrição prévia em: Ponto de Informação, Piso 0, ou relacoespublicas@elcorteingles.pt)
  • às 21h00, na RTP2, De Subiaco a Montecassino, o Triunfo do Espírito (40’)

Quinta-feira, dia 6

  • às 13h25, na Casa-Museu Medeiros e Almeida, Pausa para a Arte: La Fontaine na Casa-Museu (0€)
  • às 14h00, 17h30 e 21h00, no Espaço Nimas, ciclo Ingmar Bergman: Fanny e Alexandre (6€)
  • às 19h00, na Cinemateca, O Apartamento, de B. Wilder
  • às 21h30, no Auditório da Biblioteca Municipal de Oeiras, conferência do ciclo Conversas na Aldeia Global: Políticas Públicas para a Reforma do Estado, com Maria de Lurdes Rodrigues e Pedro Adão e Silva (0€)

A seguir:

  • Dia 7, às 9h30, na ARTE, Vues Sur la Plage: Copacabana (43’)
  • Dia 7, às 18h45, na Livraria Ferin (Rua Nova do Almada, 70), Ensaio Geral na Ferin: Maria João Costa entrevista o escritor Jacinto Lucas Pires e o pianista Mário Laginha
  • De 7 a 27, Festa da Francofonia 2014
  • Dia 8, às 16h00, no Centro Cultural e de Congressos de Caldas da Rainha, debate Pequenas Cidades, Grandes Ideias? A criatividade no quadro das pequenas e médias cidades, com João Bonifácio Serra e Telmo Faria
  • Dia 8, a partir das 18h30, na Casa Fernando Pessoa, O Dia Triunfal
  • Dia 11, às 18h00, na Casa Fernando Pessoa e em directo na Antena 2, Lídia Jorge é entrevistada, por Ana Daniela Soares, a propósito do seu novo livro: Os Memoráveis (0€)
  • Dias 13 e 14, no Palácio Fronteira, colóquio Lisboa e os Estrangeiros / Lisboa dos Estrangeiros depois do terramoto de 1755 (35€)
  • Dia 14, às 19h00, no El Corte Inglés (Piso 7), As Conferências D'O Eixo: A Morte Lenta da Democracia, com Daniel Oliveira (0€, inscrição prévia em: Ponto de Informação, Piso 0, ou relacoespublicas@elcorteingles.pt)

Não deixe de consultar a matriz de exposições (clicando aqui pode descarregar ficheiro Excel).

27.2.14

Cavaco Silva e Frei Tomás.

12:59

"Bem prega frei Tomás, faz o que ele diz e não o que ele faz."

Sob o título "Cavaco Silva entre os chefes de Estado mais gastadores da Europa", diz-nos o "Dinheiro Vivo":

«Cavaco Silva faz-se rodear de um regimento de quase 500 pessoas, fazendo com que os 300 elementos a trabalhar no Palácio de Buckingham, e os 200 que servem o rei Juan Carlos de Espanha pareçam insignificantes.
Os 16 milhões de euros anuais são um valor 163 vezes superior à presidência de Ramalho Eanes, gastando o chefe de Estado luso o dobro do rei de Espanha (8 milhões), mas ficando muito para trás quando comparado com Nicolas Sarkozy (112 milhões de euros) e pela rainha de Inglaterra, Isabel II (46,6 milhões de euros).»

Como país, somos infelizes. E não é "graças a Deus". É porque, tão ovelhinhas (brancas) que somos, "eles" já perceberam que podem fazer e dizer tudo o que entenderem. A culpa não é dos políticos: a culpa é dos que, acobertados na conversa de que "os políticos são todos iguais", escolhem gente que se diz "não política" para melhor enganar os incautos. Foi nesse jogo de enganos que o auto-proclamado não-político Cavaco Silva fez toda a sua carreira política. E agora parece que nunca ninguém deu por nada.



26.2.14

democracia directa feita à maneira.

12:35

«Vamos eleger o Governo por democracia directa, como em Esparta» - declara ao Público um dos "operacionais" da revolta ucraniana (o Público chama-lhe «o líder "de facto" da revolução ucraniana», mostrando como estão baratas as palavras hoje em dia).

O tal Sergei Parubi dita o esquema básico:
«Quem quiser pode lançar nomes, de pessoas que conheça, personalidades prestigiadas e sem ligações à política, como reitores de universidades. A cada nome, o povo vai votar de braço no ar, ou aplaudir e gritar. Os nomes que obtiverem mais gritos serão os eleitos.»

Isto passa-se na Praça Maidan.

A coisa começa entre confrades, como explica o Público:
«Da parte da manhã, reunir-se-ão as 40 unidades de autodefesa, os chamados Sotnia, que incluem todos os participantes nos combates. São, segundo Parubi, cerca de 5 mil pessoas, organizadas por especialidades, desde comunicação e design até acção militar directa ou patrulha de ruas. Alguns Sotnia foram agrupados por afinidades ideológicas, como é o caso dos extremistas de direita Sector Direito. Outros por características de estilo e tradição, como os Cossacos.»

Entretanto, coisa estranha para uma "democracia" tão directa, afinal há níveis de decisão:
«As ideias destas reuniões serão levadas depois, às duas horas da tarde, à reunião do Conselho de Maidan, que inclui, além dos representantes dos Sotnia, personalidades relevantes da sociedade civil. É aí que serão criadas as propostas que depois, às sete horas, serão levadas ao palco, onde os presentes poderão ainda propor outros nomes.»
Há uns pormenores que escapam. Por exemplo, quem define o que são " personalidades relevantes da sociedade civil"?

Entretanto, sabe-se lá por quê numa "democracia directa", o Parlamento (pré-"revolução") entre em jogo: «Só depois de o Governo ter sido aprovado no palco da Maidan, será levado ao Parlamento para aprovação.»

Mas tudo tem uma explicação (?!?!): «A hipótese de a câmara dos deputados reprovar a lista dos novos ministros não se coloca. Neste momento, o Parlamento obedece cegamente à Maidan, seja, como sugere Parubi, porque está em sintonia com os seus ideais, seja por puro medo.»

Ora bolas, então a "democracia directa" incorpora um mecanismo bem conhecido: o medo. Não duvido de que assim seja. É bem conhecido esse ingrediente de certas formas de "democracia". Eo medo não cai do céu, é produzido: «O edifício do Parlamento está cercado pelas unidades de autodefesa da Somooborona, designadamente as mais radicais, a quem são distribuídas as missões mais difíceis, que exigem bons armamento e treino militar.» Isto ajuda a compreender o espírito da "democracia directa".

Claro, isto pode simplesmente transformar-se numa palhaçada. Diz o tal "líder de facto" (já começámos a compreender o que isso significa): «É impossível prever, ou imaginar. É uma experiência que nunca se fez. E, claro, comporta muitos riscos. Pode acontecer que às sete horas 30 mil pessoas estarão aqui aclamando um governo, e, horas depois, outras 30 mil virão aqui derrubá-lo.» 30 mil de cada vez? Mas quantos milhões tem a Ucrânia? Ora, lá está outro ingrediente destas "democracias".

Quase a terminar, o texto do Público reza assim: «Às 19 horas, 17h em Portugal, o palco vai formar um Governo.» É isso mesmo.

Pronto, meus caros defensores da "democracia directa": quando se entusiasmarem, pensem nestes exemplos concretos que o refrão pode tomar.




25.2.14

a flor do cardo.


Alguém, de nome Nuno Abrantes Ferreira (não sei se é nome real ou nome artístico) escreveu há dias por aí esta pérola:
«A minha empregada doméstica chama-se Deolinda. Tem 42 anos e quando era jovem sonhava ser fadista. Ainda chegou a cantar em casas de fado, mas nunca conseguiu viver das cantorias. E um dia teve de deixar cair o xaile, desistir dos sonhos de menina e pegar num espanador para limpar o pó dos outros. E ainda bem! Porque se ela fosse fadista, quem é que hoje me limpava a casa e me engomava as camisas?!»

Eu poderia dedicar-me a chamar nomes a quem escreveu isto. Não vale a pena: o escriba é capaz de achar que eu estava bem era a limpar-lhe a casa ou a engomar-lhe as camisas - e quem sou eu para lhe dizer que ele seria mais útil a engomar do que a escrever nos jornais? Chamar nomes aos aristrocatas que teorizam sobre as ilusões da ralé (pelo menos é como eles parecem ver a coisa) é uma perda de tempo.

O texto que estou a mencionar tem por título "O sonho não comanda coisíssima nenhuma". Creio que o artista que dá pelo nome de Nuno Abrantes Ferreira deve pensar que só se sonha a dormir. De uma coisa estou convicto: o tal artista teria deixado o mundo em melhor estado se tivesse estado a dormir todo o tempo que andou a pensar e a escrever esta ode às ovelhas de rebanho. Pagarão bem aos profetas do conformismo?

24.2.14

da "Ilusão" verdadeira numa Cornucópia de amadores - ou, que fazer quando "o mundo é um brinquedo sem dono"?


aqui falei do projecto: a companhia Teatro da Cornucópia faz-se a este tempo de crise sem se vergar e, ao mesmo tempo, sem nos querer arregimentar - antes, criando um espaço de liberdade partilhada, um espaço onde chegamos cada um com a sua Ilusão para fazermos, juntos, o espectáculo "Ilusão", a partir de textos do muito jovem Lorca lidos e poderosamente reinventados por Luís Miguel Cintra.

aqui escrevi sobre o espectáculo propriamente dito, como outras vezes escrevi sobre o trabalho que esta casa apresenta, por ser do teatro que por cá se faz que mais responde às minhas necessidades (digamos assim) espirituais.

Hoje, o primeiro dia de pausa desde a estreia, quero simplesmente deixar um testemunho pessoal: o testemunho de apenas mais um dessa "Cornucópia de amadores" que está agora em cena - como realidade humana, está tanto em cena como a própria peça.

O Teatro da Cornucópia acolheu quase 60 pessoas, muito diferentes entre si, muitas sabendo muito bem o que representa representar, outras nada sabendo deste mundo além do papel de espectador (como é o meu caso), misturou tudo com a inteligência colectiva do encenador e demais artífices desta máquina de fazer mundos e... criou "Ilusão". Não creio ser capaz de explicitar quanto esta experiência me tem melhorado, mas sempre quero dar nota do que me vai na alma. E isso só pode, com verdade, ser feito na forma de agradecimentos.

Em primeiro lugar, fomos todos (e fomos sempre muitos) acolhidos com uma genuína humanidade e com um profissionalismo irrepreensível. Podemos, assim, continuar a acreditar que o profissionalismo só por desordem da inteligência e das paixões pode ser associado a comportamentos desumanos e exploradores, como tantas vezes nos querem obrigar a aceitar nesta selva da pseudo-produtividade e da pseudo-competitividade. Se dúvidas havia, elas foram-nos aqui uma vez mais esclarecidas: ser profissional e ser humano é possível. E necessário. E muito mais produtivo do que qualquer outra combinação de doses. Isto pede-me que agradeça a todas as pessoas da Cornucópia que nos acolheram e trabalharam.

Em segundo lugar, fazendo eu parte do grupo dos amadores e dos mais velhos, dos que nesta "Cornucópia de amadores" nada sabem de representar e que já vão um pouco tarde para aprender muito nesse campo, sinto-me profundamente agradecido aos que, neste grupo, são os mais novos e os que mais seriamente pertencem a essa arte/profissão de representar (mesmo que ainda em fase de aprendizagem). Tem sido francamente refrescante conviver com todos, plenos de empenho, de vontade, de projectos, de "Ilusão", pois, precisamente. E, claro, alguns visivelmente prometedores, que espero ver em palco por muitos dos anos que aí vêm, para minha felicidade e sucesso deles e delas. Já pensaram que, também nisso, devemos todos um agradecimento à companhia Teatro da Cornucópia, que foi capaz de juntar peças tão diferentes para criar um mundo onde todos cabemos a contento e sem apertos?

O vídeo que deixo abaixo (Agora, RTP2) permite vislumbrar algumas das razões pelas quais este projecto tem sido marcante para muito de nós.


23.2.14

o peso do paraíso.


A exposição O PESO DO PARAÍSO, de Rui Chafes, está patente no Centro de Arte Moderna, até 18 de Maio próximo.

Deixo três visões que tive de Cinza.




Rui Chafes, Cinza, 2002, Ferro
(fotos de Porfírio Silva)