26/11/16

Na morte de Fidel Castro



Fidel Castro acabou mal. Não por morrer, isso calha a todos, mas por não ter escapado ao destino de muitas revoluções no século XX (para não ir mais longe): acabaram em regimes opressores.
A liberdade e o respeito pelos direitos humanos são inegociáveis. Não há conciliação possível que um socialista democrático possa fazer sem respeitar essa fronteira: para nós, qualquer ditadura é horrenda, uma ditadura que se diga de esquerda é ainda mais dolorosa e mais nos envergonha. Não há socialismo sem liberdade, embora possa haver liberdade sem socialismo.
Dito isto, é insuportável a hipocrisia de alguns.
É insuportável a hipocrisia dos que esquecem o que era o regime que Castro derrubou. A hipocrisia dos que esquecem o que era a América que tanto pugnava pela liberdade em Cuba, mas ignorava direitos humanos básicos, por exemplo dos negros. Ou a hipocrisia dos que esquecem as conquistas sociais que Cuba realizou com a revolução. Conquistas essas que muitos países "livres" não garantiam e não garantem.
Algum destes factores desculpa a falta de democracia? Não, não desculpa. A perseguição aos opositores pacíficos, ainda por cima feita por meios violentos, é inaceitável. Mas, note-se, há quem não tenha autoridade nenhuma para se fazer defensor da liberdade dos cubanos: os que desculparam o facínora Pinochet, os que tinham palavras brandas para o apartheid sul-africano... ou mesmo os que desviam os olhos do bem actual proto-fascismo húngaro ou polaco.
Bem me lembro, quando a Polónia ainda era uma ditadura "comunista", e quando se organizavam sessões de solidariedade com o Solidariedade (sindicatos polacos com um programa político pró-democratização), que muitos aqui por Lisboa achavam isso um tanto arriscado e se encolhiam, deixando a solidariedade a pequenos partidos esquerdistas ou à Juventude Socialista, de que eu era dirigente nessa altura, tendo precisamente posto empenho nessas movimentações. Outros, mesmo de direita ou muito democratas, encolhiam-se porque não era conveniente. Não estava na moda ser um democrata radical. Mas, se calhar, alguns desses estão agora a bradar contra Fidel Castro depois de morto.
Infelizmente, os mortos relevantes dão muita ocasião a que os pequenos vermes levantem a cabeça e se façam muito tesos em matérias em que nunca tiveram sequer coluna vertebral.

26 de Novembro de 2016

1 comentário:

Jaime Santos disse...

Bravo pelo comentário, Porfírio. Eu acrescentaria que o exemplo da ditadura cubana deveria fazer lembrar a todos os que clamam (e bem) pela liberdade dos povos (e Fidel libertou o povo cubano do jugo de uma marioneta dos EUA) que essa não pode nunca obter-se à custa da liberdade dos indivíduos, porque de outro modo o que acontece é tão somente a substituição de uma elite opressora imperial por uma nova elite opressora local. Ora, isso, não é liberdade nenhuma...