18/09/16

Mariana Mortágua quer salvar o capitalismo?




O burburinho em torno de uma afirmação de Mariana Mortágua evidencia a indigência de algum pseudo-debate politico.

"Só a esquerda radical pode salvar o capitalismo." Assim se pode resumir uma das teses apresentadas ontem por Mariana Mortágua, do BE, na Conferência Socialista 2016 (organizada pelo PS, em Coimbra).

Ora, esse burburinho só mostra uma coisa: ignorância. Os truques (fazer vídeos com a repetição até à náusea da MM a dizer "salvar o capitalismo", por exemplo) ou os "argumentos" que pretendem mostrar que "ah ah afinal os bloquistas querem salvar o capitalismo, finalmente confessam" , são pura demonstração de ignorância.

Ignorância de que essa forma de falar (salvar o capitalismo) se usa há muito tempo para representar o debate sobre a forma como as críticas ao capitalismo acabam por ser mais ou menos usadas pelo próprio capitalismo para se adaptar. É que, havendo diferentes formas de capitalismo, algumas são mais capazes de resistir às suas próprias dificuldades - e isso pode resultar de compreenderem melhor as críticas. Por isso, alguns economistas críticos, quando analisam certas formas de capitalismo, "arriscam-se a ajudar o capitalismo", porque este se pode adaptar. Este debate não é novo, nem foi inventado pela Mariana Mortágua. O que ela ontem disse, sobre este ponto, em substância, é que os economistas críticos, que levam Marx ou Keynes mais longe, compreendem melhor o capitalismo do que, por exemplo, os neoliberais - ou os social-democratas, já que ela também estava a criticar a família socialista (e com razão em pontos essenciais, por exemplo quando disse que nos deixámos levar na cantiga da liberalização do capital).

Podemos concordar ou discordar. Mas fazer disto uma campanha idiota pretendendo mostrar que a Mariana Mortágua (e o BE) afinal quer salvar o capitalismo - é apenas sinal de ignorância. Ou, não sendo ignorância, só pode ser desonestidade intelectual.

Defender o debate público - designadamente o debate à esquerda - passa por rejeitar liminarmente estas torpes deturpações das opiniões de outrém.

18 de Setembro de 2016

2 comentários:

itg00022289 disse...

Porfirio,

O que a mulher disse é transparente.
É um manual de pobreza generalizada (essencialmente resulta de um somatório de estupidez com falta de ética).
Em pouco anos seremos Portuzuela.

Jaime Santos disse...

Mas eu gostaria mesmo que ela quisesse salvar o capitalismo. E isto porque, infelizmente, os modelos de Economia estatizados foram todos tentados e falharam todos, até o Socialismo Democrático, isto se o definirmos como um regime onde existe a possibilidade de alternativa política, mas onde existe um consenso de que uma parte significativa da grande Indústria deve estar nas mãos do Estado. A Alemanha, que nunca enveredou por esse caminho (porque o SPD desistiu de tal coisa e abraçou a social-democracia) tem hoje um sistema capitalista bem mais participativo (os trabalhadores têm assento nos Conselhos de Supervisão da Gestão das Empresas, por exemplo) do que o Reino Unido ou a França, que o tentaram. E qual poderá ser o caminho para construção de um sistema económico mais justo? Confesso que não sei, mas o meu preferido é o cooperativismo industrial (worker's ownership). Mas a construção de tal sistema só pode ser feita a partir de um capitalismo reformado que se preocupe mais com a dignidade e os anseios dos que trabalham e menos com o lucro no curto prazo. E suspeito que haverá mesmo alguns conservadores (os de veia democrata-cristã) que poderão aliar-se à Esquerda neste empreendimento. Seguramente, não contem comigo para soluções à soviética, mesmo que respeitadoras da legalidade democrática. Essas soluções só reproduzem o que o Capitalismo tem de pior, ou seja, o Monopólio...