16/01/15

quem paga o orgulhosamente sós?


Passos Coelho foi questionado no Parlamento, hoje de manhã, sobre a comunicação da Comissão Europeia para uma leitura inteligente do Pacto de Estabilidade e Crescimento. Essa leitura inteligente, que o PS tem vindo a defender, consiste, para o dizer simplesmente, em dar margem aos países para poderem fazer investimento e poderem fazer reformas que melhorem o fundamental da sua situação económica. Um dos aspectos dessa estratégia consiste em fazer com que certos investimentos e certas despesas com reformas de alcance estratégico não sejam contabilizadas para efeitos de procedimentos por défice excessivo.

Qual tem sido a resposta de Passos Coelho a este esforço (tímido, para já) da Europa para encontrar caminhos que não sejam simplesmente o empobrecimento disfarçado de austeridade?

Passos Coelho começou por se orientar por metas puramente partidárias: se António Costa defendia uma leitura inteligente do Tratado Orçamental, o PSD tinha de ser contra. Essa forma de fazer política não deixou de se confundir com ignorância: Passos Coelho acusou os socialistas de pretenderem que as despesas de investimento não contassem para o défice. Dizia ele que o PS julgava que essas despesas não seriam para pagar. Não teria estudado o assunto? Estaria simplesmente a tentar enganar as pessoas? Não sei; neste governo cada vez mais a incompetência e a má política são faces da mesma moeda.

Mas, enfim, é normal que o PM faça política partidária. Isso não nos choca. O problema é quando a visão partidária estreita impede o PM de defender o interesse nacional. Agora que vemos que a França e a Itália vão beneficiar claramente da nova orientação de Juncker, e que se percebe que Portugal não está na linha dos que serão os principais beneficiários, perguntamos: não deveria PPC ter trabalhado, negociando e fazendo diplomacia a sério, para tornar esta orientação da Comissão Europeia mais favorável a Portugal? Se o governo tivesse feito o seu trabalho, as propostas da Comissão poderiam ser-nos mais favoráveis. Mas não. E hoje percebemos por quê. Passos Coelho sugeriu hoje no Parlamento que, afinal, a tal leitura inteligente do Pacto não beneficia Portugal. Quer dizer: para não perder a face na política interna, o governo fez-se cábula e deixou por defender os nossos interesses em Bruxelas. É gravíssimo que ao governo já só interesse a propaganda.

Os socialistas também querem combater o défice. Foram, aliás, governos socialistas que registaram os mais baixos défices da democracia. Mas sem investimento não há economia e sem economia o défice nunca será reduzido de forma sustentável. Mesmo seguindo a ideologia do empobrecimento, proclamada por PPC, sem investimento nunca sairíamos da cepa torta. É por isso grave que este governo queira, contra tudo e contra todos, insistir em ignorar esta dimensão estratégica desta questão.

Comentando esta situação, PPC disse, e repetiu, que o governo não se importa de estar isolado. É triste que o PM de Portugal não perceba que, na União Europeia, estar isolado é "a morte do artista". Estar nos combates, fazer diplomacia a todos os níveis, estar atento, fazer propostas, procurar aliados em cada momento, estar informado e informar, puxar a brasa à nossa sardinha - isso tem de ser feito todos os dias. Mas não: Passos Coelho volta ao "orgulhosamente sós" e os portugueses que paguem a factura.



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