03/07/14

na noite passada, num certo sítio da cidade.


À noite, despedidos os convidados, fechadas as portas e com uma lua quase nova, o presidente levantou-se da arca tumular e, com uma autoridade desusada, bateu as palmas sonoramente, convocando a trupe de imortais à praça central, onde, reunidos, enfim, lhes disse: Já não era sem tempo, creio que todos os pecados nos terão sido perdoados. Não conheço o motivo, nem entendo a escolha do momento e, verdadeiramente, estava desprevenido. Contudo o sinal é seguro. Chegou Sophia. Sophia, levanta-te e lê-nos palavras das tuas. Não poupes no tom, ninguém lá fora na cidade poderá suspeitar da festa imensa e luminosa que vai ora na obscuridade do Panteão. Afinal, não sabíamos nada de teologia: não se sobe aos céus; apenas se espera que surja entre nós a certa e límpida voz. Sophia, que alegria, afinal a redenção existe e está agora entre nós.

1 comentário:

Jaime Santos disse...

Que pena que a sua Voz não continue a ressoar entre nós, e que a tenha levado mais ao seu versejar para outro Lado... Oxalá sirva para iluminar o Mundo dos Mortos, como sugere a sua bonita peça. Resta-nos a Palavra Escrita, porventura a maior invenção humana contra a Morte e o Esquecimento... Mas convenhamos que é um fraco Simulacro, sobretudo tratando-se de Sophia...