16/10/13

reinventar o "socialismo de miséria".


Aprende-se muito a ouvir alguns dos nossos governantes.

Por exemplo, ouvir ministros, no exercício das suas funções, a usar o palco internacional ou europeu para atacar a primeira lei da República (fora de período de revisão constitucional, durante o qual há mais latitude para debater, sem deixar de respeitar) e para tentar apoucar o guardião da lei fundamental (não é discordar juridicamente das decisões, é tentar impugnar a legitimidade do tribunal por conveniência política), ensina-nos que nem toda a gente tem uma noção escorreita de respeito pelo Estado de Direito.

Ainda por exemplo, ouvir certos ministros a dar cambalhotas retóricas (muito próximas da aldrabice pura e simples) para tentar dar más notícias como quem oferece rosas, ensina-nos que pode sempre encontrar-se alguém pior que o mal já conhecido. O anterior ministro das finanças, principal artífice das malfeitorias que se estão a fazer ao país - fruto da cabeça dura da ideologia que não quer ver nada da realidade -, vinha sempre com aquela cara de pau anunciar directamente onde iria rasgar no momento seguinte. Na verdade, às vezes até parecia ter um prazer sádico nessa frontalidade - mas, se esse sadismo podia ser entendido como uma falha moral, ele era politicamente preferível à dissimulação dos actuais malabaristas.

Entretanto, às vezes aprende-se tanto (ou mais) a ouvir os apoiantes dos governantes como a ouvir os próprios mandantes. Leio por aí que "a esquerda" devia estar contente com a proposta de orçamento de Estado para 2014, porque ele poupa os de menos recursos e vai buscar aos que estão mais confortáveis (enfim, os "ricos" com rendimentos a rondar os 2000 euros e os funcionários públicos, porque estes não serão despedidos tão facilmente como os demais). O que se aprende com estas teses?, perguntar-me-ão. Aprende-se, respondo eu, como um debate ideologicamente datado pode entrar, de forma bizarra, pela porta do cavalo. Quando a esquerda defendia sem falsas vergonhas a importância da igualdade, a direita acusava de que a meta era "o socialismo de miséria". Quer dizer: a esquerda, combatendo as diferenças excessivas e só aceitando aquelas que resultassem do mérito e do esforço próprio, estaria a provocar o nivelamento por baixo. Hoje, quando não há qualquer travão às desigualdades brutais ditadas apenas pela origem de classe, pela falta de pudor na rapina ou pela corrupção dos circuitos de decisão, a direita vira o bico ao prego e reinventa, à sua maneira, o "socialismo de miséria". Mas, desta vez, é mesmo a sério: quem não esteja ainda na miséria (viver com o salário mínimo ou com 600 euros é o quê se não a miséria?) tem de aceitar ser cortado até alcançar gloriosamente, no altar da austeridade, esse patamar mínimo. Se não for este ano, será no próximo. Ou no seguinte. Se deixarmos.

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