14/10/13

Mário Soares e os delinquentes.


Sofro uma dor negra por ter de escrever isto. Mas não posso deixar de o escrever.

Leio por aí que Mário Soares terá dito que alguns membros do Governo são “delinquentes” e “têm que ser julgados, depois de saírem do poder”. Se se refere a delinquência no sentido legal do termo, devem ser julgados sem esperar que saiam do governo. Se se refere a "delinquência politica", a actos de governação com que discordamos, só posso lamentar, como sempre lamentei - corrijo: só posso abominar, como sempre abominei, essas ideias de criminalização da política. É que a criminalização da política é um recurso dos totalitarismos. É uma enorme pena que alguém que sofreu isso (a criminalização da política), no tempo da ditadura , caia no logro de inventar teses coincidentes com as daqueles que o perseguiram. Mesmo que sejam só sugestões vagas que deixam voar a imaginação dos que sonham sempre resolver o mundo pela violência, desorganizada ou de Estado.

Hé cada vez mais dias negros neste país.

15 comentários:

José Luiz Sarmento disse...

Como provavelmente sabe, há imunidades de que gozam os titulares de cargos políticos em função. Daí o "depois de abandonarem os cargos."

De resto, Mário Soares foi brando. Se se confirmarem os números que apontam para um aumento da mortalidade, nomeadamente da mortalidade infantil, na sequência das políticas de austeridade, há muita gente em Portugal e nas instituições europeias que devia ser julgada por Crimes contra a Humanidade pelo Tribunal Penal Internacional.

Porfirio Silva disse...

Não brinquemos com coisas sérias. A imunidade não é para proteger qualquer crime, a imunidade pode ser levantada. Só uma comunidade política constituída por incapazes é que elege os seus governantes em inteira liberdade e depois quer resolver o problema criminalizando a política. Parece-me que alguns dos que agora bramam mais contra estes "criminosos" foram dos que os trouxeram aos ombros, enquanto chamavam criminosos aos anteriores.

Sofia Loureiro dos Santos disse...

Mais uma vez de acordo, Porfírio.

António Cerca disse...

Soares tem um grande defeito: diz aquilo que o povo sente!

Porfirio Silva disse...

MS tem opiniões, tem direito a tê-las e merece o nosso respeito por tudo o que fez, mesmo que não tenha feito tudo certo. Há uma coisa que seria faltar ao respeito a tudo o que MS fez pela democracia: se o transformássemos num deus do qual não se pode discordar, ou se achássemos que tudo o que ele diz está certo, ou se o tornássemos na "bíblia do povo". Quem usa MS para evitar discutir as opiniões, quem usa MS para "falar em nome do povo" como se povo fosse uma só voz - esses verdadeiramente espezinham o que MS representa de mais importante na história de Portugal, que é a luta pela liberdade em regimes diferentes.

jose neves disse...

Caro,
Não li o artigo de Mário Soares (andei uns dias arredado de cá) mas acredito de caras que ele não disse, nem deve ter insunuado sequer que se deve criminalizar os políticos...pela política.
Deve estar referindo-se a causas, factos e actos cometidos que considera delitos ou puros crimes.
Ele bateu-se contra salazar precisamente contra causas, factos e actos semelhantes que considerava crimes contra o povo. Esse facto dá-lhe uma total coerência e toda a legitimidade para agora bater-se com a mesma coragem acusando de delinquentes quem, como salazar, rouba aos pobres para dar aos ricos.
Mas, já não se trata só de roubar aos pobres para dar aos ricos, desenha-se um processo de deixar morrer pelo suicídio os desesperados e pelo desinteresse de viver dos idosos que se refugiam no isolamente e solidão.
Neste blog a defesa do purismo democrático não deixa ver bem a fita ou serve precisamente para isso.

Jaime Santos disse...

Mario Soares devia (tambem) saber bem que a estrategia de criminalizacao da politica foi seguida por aqueles que agora critica no tempo de Socrates. O Porfirio tem toda a razao: ou ha suspeitas fundadas de ilicito criminal (i.e. violacoes do codigo penal vigente e nao 'crimes genericos' resultantes da aplicacao de politicas erradas) e a imunidade de qualquer cargo pode ser levantada (exceto, julgo, do Presidente da Republica, se se tratarem de crimes cometidos antes de aceder a funcao), ou nao ha razao para MS dizer o que diz. E que a estrategia de criminalizacao da Ideologia e a semente do Totalitarismo. Eu tambem me sinto por vezes revoltado com a falta de etica, decoro e vergonha daqueles que nos governam, mas esses atos sao passiveis de censura moral e politica (no Parlamento e nas urnas) e nao nos tribunais...

jose neves disse...

"Só uma comunidade política constituida por incapazes é que elege os seus governantes em inteira liberdade e depois quer resolver o problema criminalizando a política".

Outra opinião de que certamennte MS não aceita inteiramente porque:
1)pode até tomar-se como correcta que votou em inteira liberdade mas, será que votou com 'inteira verdade' e conhecimento do que lhe propuseram? O povo votou neste programa de governo que está sendo aplicado?
2) teria mesmo votado em inteira liberdade ou sobretudo sob 'inteira falsidade' veiculada e manipulada pelos media e seus serventuários pagos à peça?
O que vemos hoje em nada coincide com o prometido e poderemos atribuir tal falsa manobra propositada à inteira liberdade dos 'incapazes'?
Caro, na actual governação e seu modo de fazer política, nomeadamente a deliberada confrontação com a CR e o TC, há já demasiada matéria de delinquência cometida suficiente que possa ser denunciada.
E é digno que o faça quem no passado teve identica coragem e granjeou idoneidade política e moral para o fazer.

s

Porfirio Silva disse...

José Neves,
A sua frase "Neste blog a defesa do purismo democrático não deixa ver bem a fita ou serve precisamente para isso" só me merece um comentário: essa arrogância é anti-democrática; essa arrogância, que já aqui sofri em momentos diferentes vinda de quadrantes políticos diferentes, é a arrogância dos que agem segundo a norma "quem não concorda comigo dorme com o inimigo". Sim, o que essa frase significa é isto: eu, que há anos me bato aqui contra as tentativas de criminalização da política, teria agora de me calar perante umas declarações de MS que subscrevem o que eu sempre repudiei. E o José Neves, que, a julgar pelo que escreve agora, nunca deve ter dado grande atenção ao que se escreve neste blogue, acha-se no direito de vir aqui acusar-se de "colaboracionista". De democratas desse calibre está cheio o mundo. É também por isso que o mundo está perigoso.

Porfirio Silva disse...

Jaime Santos, o mais grave é que os grandes democratas se aborrecem imenso por eu expressar a minha opinião sobre o assunto, declinando variantes da tese "não se pode discordar de MS, porque ele é um grande democrata". Um extraordinário argumento democrático, convenhamos.

Luís de Matos disse...

A minha simples e modesta opinião não tem nada a ver com a minha também modesta militância no PS, nem por ter colaborado no MASP1, quando muitos, hoje bem instalados fugiam do MASP 1 a funcionar no antigo Café Arcada na Praça do Giraldo.Agora, muitos dizem coisas e loisas do Mário Soares mas esquecem-se que, e creio que muitos estão de acordo, que o Mário Soares é considerado o pai da democracia, tal como o Cunhal, Sá Carneiro, Freitas e outros desempenharam um papel fundamental na democracia portuguesa.Dizia-me um amigo: gostava de ver o Mário Soares à frente da manif.da ponte 25 de Abril. Sempre queria ver se a PSP carregava contra ele.Acredito que, se tal acontecesse, podia ser o fim destes jotinhas e velhos senis deixassem de nos fazer mais mal. Aos reformados, aos pequenos e médios empresários,aos que descontaram para ter as suas pensões...etc...e tal. Que nos deixassem em paz e tirassem bilhete de ida, não de volta,
para MARTE.

Porfirio Silva disse...

Luís de Matos, não percebo muito bem o que é que o seu comentário tem a ver com o meu post. Se quer sugerir que o respeito por MS nos deve impedir de discordar dele nisto ou naquilo (ou que fosse em tudo), nesse caso eu teria de concluir que o Luís de Matos não percebeu a razão pela qual MS nos merece respeito (precisamente, o contributo dado à democracia).

jose neves disse...

Ó caro Porfírio,
Entre tantos argumentos que lhe dei para justificar que MS, precisamente pelo seu passado de luta sofrida e combate político cerente e corajoso, de certeza não pretende, nem se pode concluir do que diz, que queira criminalizar a accçao política, o caro ateve-se apenas a uma frase que lhe tocou a sí próprio e imediatamente largou da mão a questão em discussão.
E para quê? Tal como é apressado a imputar a MS que quer julgar a política vem com a mesma pressa e ligeireza acusar-me de um 'democrata perigoso' que o imputa de 'colaboracionista'.
Bem, da minha argumentação a favor de Mário Soares nem da tal frase que salienta nada induz que se retire as conclusões que dela tirou de forma irritada, mesmo açanhada pelo que agora tenho mais razões de dúvida acerca da seriedade da discordancia acerca se no actual governo há ou não delinquentes.
Está tudo dito.

Porfirio Silva disse...

José Neves, se respeita realmente MS, não deveria fazer-lhe essa indignidade de estar a querer dar interpretações distorcida às declarações do próprio MS, pretensamente para o defender. Isso era o que fazia Pacheco Pereira a Manuela Ferreira Leite quando ela era presidente do PSD e fazia gaffes umas após outras. Não me parece bonito estar a querer jogar o mesmo jogo com MS: ele não precisa, julgo eu.
Quanto ao resto, apenas lhe digo que não lhe agradeço a sua vontade de me dar lições de democracia. Você vem aqui falar como se tivesse algum crédito para se armar em juiz das minhas opiniões políticas; não se coloca no plano do debate, mas no plano do ataque, aliás encostando-me ao papel de tolo útil do governo por não concordar consigo. Como já disse, não vejo nada de democrático nessa retórica.

Baltazar Garção disse...

Lamento profundamente os termos em que o Advogado Mário Soares se exprime a respeito de alegados "crimes" praticados pelos atuais governantes. Lamento, em primeiro lugar, pelo próprio Advogado, que foi muitas outras coisas neste País e, como tal, deveria ter adquirido uma noção mais fina e nítida do dever que os Homens públicos devem sentir ao falar à Nação, mesmo que seja através de um pasquim.


Ao mesmo tempo, tremo de pensar que ele, por hipótese académica, possa não ter razão nenhuma na forma, mas vir póstumamente a tê-la no conteúdo.